Espanhóis vêm à Bienal conquistar leitor brasileiro

Não chega a ser uma invasão, mas os escritores espanhóis que estão no Brasil para participar da 10.ª Bienal do Livro, aberta ontem no Riocentro, chegaram a fim de conquistar e, principalmente, ser conquistados pelos brasileiros. Quatro deles, Antônio Soler, Cristina Fernandez Cubas, Manuel de Lope e Carmem Posadas estão na cidade desde a quarta-feira acompanhados do presidente do Federação de Grêmios de Editores da Espanha, Emiliano Martinéz; do presidente do Instituto Cervantes, Jon Juaristi, e do diretor geral de Livros, Arquivos e Bibliotecas do Ministério da Cultura da Espanha, Fernando Lanzas. O escritor Manuel Vásquez Montalban é esperado para amanhã.Carmem é a estrela desse grupo, com 30 livros publicados entre literatura infantil e para adultos e, neste gênero, ensaios e romances. É detentora do Prêmio Planeta de 1998, por seu romance Pequenas Infâmias, lançado no Brasil. Aqui, acaba de sair também Um Veneno Chamado Amor, com ensaios sobre o sentimento. "Escrevo sobre o amor e a morte porque são praticamente os únicos temas da literatura", ensina Carmem, que nasceu no Uruguai e vive na Espanha desde a adolescência. "Fiquei emocionada ao chegar, pois comecei a escrever no Rio. De mudança para a Europa, minha família parou aqui e decidi escrever um diário, após uma visita ao Corcovado."Além de Carmem Posadas, poucos escritores espanhóis foram lançados aqui. Segundo o Sindicato Nacional de Editores de Livros, que promove a Bienal, 443 títulos espanhóis foram traduzidos em 1999. Na contramão, apenas 160 títulos chegaram à Espanha no mesmo ano, segundo informa Emiliano Fernandéz. "Queremos expandir esses números, porque o mercado espanhol é grande e diversificado. Em 1999, foram publicados 70 mil títulos, dos quais 41 eram novos e 16 mil traduzidos", enumera o presidente da Federação de Editores.Ele lembrou que a Espanha investe pesado no Brasil (R$ 12,2 bilhões em 1999, segundo a Câmara de Comércio Brasil/Espanha) em outros setores da economia, como financeiro, tecnológico e industrial, mas só agora começa um movimento no sentido de aumentar as parcerias culturais. "É uma situação inversa a dos outros países da América Latina, onde a indústria editorial já atua há um século e os outros setores só chegaram agora", ressaltou. "Temos lá 119 filiais de editoras latino-americanas, mas nenhuma brasileira."Os escritores que vieram para a Bienal se sentem embaixadores dessa tendência, mas negam que essa intenção interfira na criação. "Cada autor escreve para uma só pessoa. Cabe ao editor multiplicar esse leitor individual", teoriza Miguel de Lope. "Se outros povos, com outras línguas se interessarem, fico muito feliz, mas não escrevo pensando neles" acrescenta Cristina de Cubas, com a aquiescência de Antônio Soler.O governo espanhol, no entanto, faz esforço para conquistar o mercado brasileiro. O Instituto Cervantes, agência estatal para difusão cultural, vai investir, só este ano, R$ 1 milhão no Brasil, metade destinado à Bienal, onde o país tem um stand de 600 metros quadrados. Segundo seu presidente, Jon Juaristi, a principal ação será incentivar o ensino do espanhol como segunda língua. "Por enquanto, queremos formar professores", diz ele. "A troca cultural virá naturalmente quando mais brasileiros falarem espanhol."A presença física dos escritores espanhóis na Bienal é outra forma de divulgar a cultura hispânica. O intercâmbio, no entanto, não se dará de imediato, pois poucos encontros estão agendados. Como explica Manuel de Lope, o contato intelectual é mais importante que o pessoal. "Primeiro é preciso ler os autores brasileiros porque é através de seus livros que conheceremos o País", arrisca Lope. Tal como os outros escritores, ele conhece pouco o Brasil. "Tenho três referências básicas: o escultor Aleijadinho, o escritor Guimarães Rosa e o cineasta Gláuber Rocha." Além da Espanha e do Brasil, sete países participam com estandes na Bienal. São 808 expositores que trazem 107 autores (13 deles estrangeiros) que terão encontros diversos com leitores.

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