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Espanhóis

Cada fala espanhola seguiu seu curso a partir da vertente comum, mas aquele espanhol dos exilados cubanos era de uma estranheza extrema

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2020 | 03h00

Fui a uma feira de livros em Miami e acabei comendo “arroz con pollo” num jantar para os convidados latino-americanos, oferecido pela comunidade hispânica da cidade. O único outro brasileiro no jantar era o Milton Hatoum, que me humilhou. Falava um espanhol perfeito e entendia tudo o que diziam a nossa volta. Eu não entendia nada. Ou entendia só o suficiente para saber que o assunto principal da mesa era Cuba, de onde a maioria era natural. 

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O espanhol da Espanha não é o mesmo falado nas Américas e o espanhol, por exemplo, argentino não é igual ao mexicano. Cada fala espanhola seguiu seu curso a partir da vertente comum, mas aquele espanhol dos exilados cubanos era de uma estranheza extrema, ao menos aos meus ouvidos. Era como uma língua que tivesse se deteriorado a ponto de virar outra, só compreensível pelos seus usuários. E pelo Hatoum. Me ocorreu que, na apreciação do que aconteceu em Cuba depois da revolução do Fidel, as opiniões tinham se diversificado tanto que pareciam línguas diferentes. A narrativa inicial da revolução fora num espanhol puro, que ninguém discutia: um governo tirano e corrupto derrubado por jovens idealistas dispostos a fazer uma sociedade limpa e justa. Uma narrativa clássica.

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Com seus primeiros atos, Fidel e seus companheiros começaram a divisão das línguas, que foram se distanciando com o tempo e hoje são idiomas estanques: o dos que nunca perderam a admiração pela experiência cubana, o dos que se desiludiram um pouco ou completamente e o dos que não perdoam o que Fidel fez, com Cuba e com eles. Este é o espanhol falado em Miami.

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Entre os que falam os dois tipos de espanhol cubano, nenhum consenso era possível. Hoje, quando penso naquele jantar, fico imaginando o que diriam, língua dos exilados, entre uma e outra garfada de “arroz con pollo”, da abertura que se seguiu à aposentadoria do Fidel ou da aproximação com os Estados Unidos iniciada pelo Obama. 

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Miami foi o mais perto que já cheguei de Cuba, mas minha filha Fernanda esteve lá, há alguns anos. Numa festa, conheceu o irmão mais velho de Fidel, Ramon, que foi muito simpático. Conversaram sobre a novela brasileira que fazia sucesso na TV cubana, na época, e dom Ramon disse que daria qualquer coisa para saber como terminava Vale Tudo. E comentou: “Como és mala Maria de Fátima!”. Os dois não tiveram problema com a língua. Falavam Globo.

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