ESPAÇOS VAGOS

Mostra relaciona fotografia e pintura por meio de obras sobre lugares indefinidos

CAMILA MOLINA / RIO, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2013 | 02h09

A estranheza que repousa nas coisas mais banais tem sido, ultimamente, um dos motes da arte contemporânea. Lugares vazios, vagos, no sentido de imprecisos, aparecem em pinturas - figurativas - e fotografias não apenas como tema, mas como objeto de investigação de artistas. "Imagens indefinidas, nas quais você é obrigado a entrar porque não lhe dão uma resposta imediata, são terrenos de uma possível experiência estética", diz o crítico Lorenzo Mammì, responsável, com Heloisa Espada, pela curadoria da exposição Lugar Nenhum, que acaba de ser inaugurada no Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio. É uma mostra concisa, porém, precisa, dedicada a explorar a relação entre fotografia e pintura.

"A arte encontra espaços sempre mais precários e problemáticos no mundo contemporâneo", escreveu Mammì na introdução do livro O Que Resta (Companhia das Letras), coletânea de seus textos lançada no ano passado. "Cabe ao artista (e com ele ao crítico) detectar os espaços em que essa atividade possa ainda ser exercida com um grau aceitável de liberdade e consistência", continua o curador.

Paisagens desoladas; interiores arquitetônicos deteriorados, sem nenhuma presença humana; cenas que improvavelmente seriam fotografadas ou pintadas traduzem, nas 56 obras dos 8 artistas participantes, o "lugar nenhum" que está no título da exposição. Escolher esse nome para a mostra não indica, afirma Lorenzo Mammì, pessimismo em relação à arte contemporânea. "Não é apenas uma ideia de desolação, perda de experiência, mas reconstituir experiências nas fissuras, nos restos. Acho um pouco cínico o conceito de que tudo é imagem, pós-modernista, de que vale tudo, de parecer que nada é verdade. Os artistas da exposição propõem uma experiência significativa."

Todos os participantes de Lugar Nenhum são representados por conjuntos de trabalhos, numa forma de traduzir suas diferentes abordagens e poéticas. Rodrigo Andrade, Ana Prata e Marina Rheingantz exibem pinturas; Rubens Mano, Sofia Borges, Celina Yamauchi, Lina Kim e Luiza Baldan comparecem na mostra com fotografias. "Desde o início do projeto já tínhamos a percepção desses lugares anônimos nas obras e focamos na questão do espaço porque muitas janelas poderiam ser abertas. A pintura contemporânea é bem ligada à fotografia", define Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS.

Hoje em dia, fotógrafos e pintores "lidam com a manipulação contínua de imagens", diz Mammì. "O que conta não é o primeiro contato original", continua o curador. Nesse sentido, "a condição da fotografia fica mais próxima da pintura, porque não tem um referente imediato, e a pintura, no fundo, vira manipulação de imagem como a fotografia contemporânea é. O ponto de partida sempre é a imagem e não a coisa em si", conclui. Não se trata apenas de reunir, na exposição, representações de lugares baldios, mas apresentar, ainda, especificidades de processos, sejam eles pictóricos ou fotográficos.

Rodrigo Andrade, por exemplo, hibridiza os dois procedimentos, como se suas obras fossem pinturas fotografias de camadas espessas (entre seus temas, estão o tsunami ou uma paisagem noturna). Celina Yamauchi, que tem sala especial na mostra, investiga o processo de tirar a cor de suas fotografias (deixando-as numa espécie de "cinza-colorido", descreve Heloisa), que retratam cenas delicadas ou intimistas como as mãos de alguém que lê um gibi ou a luz que atravessa as frestas de uma persiana.

Os lugares vazios aparecem de maneira explícita nas obras de Lina Kim, Luiza Baldan, Rubens Mano e Marina Rheingantz. Por outro lado, a pintora Ana Prata consome vorazmente imagens banalizadas traduzindo esse ato por meio do gesto de suas pinceladas, dizem os curadores.

Já Sofia Borges, também com sala especial, usa a edição de imagens "para confundir e não para apaziguar", define Heloisa. Um coelho, um homem, uma foca deitada na praia ou canos de ferro são motivos de imagens agigantadas que, em conjunto, configuram "um espaço indeterminado", acrescenta Mammì.

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