Espaços de música instrumental tentam conter ruído

Conseguir educar o público é uma tarefa delicada para os espaços dedicados à música instrumental. Especialmente porque uma repreensão pode afastar o cliente da casa. Ou ainda pior: incutir na cabeça da pobre alma que música instrumental é coisa de gente chata, metida a besta, no mínimo.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

03 de março de 2011 | 11h23

Letícia Guerra Pena, uma das sócias do Sindykat, afirmou que o bar se preocupa em manter um clima onde a boa música não seja prejudicada pelo barulho de alguns clientes, mas sabe que não adianta fazer "shhhh". "Já fizemos muito ''shhh'' também mas parece que o efeito às vezes vira o contrário", disse, em entrevista por e-mail, após a reportagem informar que já teve de fazer "shhh" a um casal eufórico. Eles não sabiam ainda se era namoro ou amizade. "O que fazemos as vezes também é oferecer uma outra mesa na parte que não seja próxima ao palco (na parte de cima da casa) para a conversa continuar, mas o que não fazemos é tratar os clientes como crianças, na base do ''SHHH!'' afinal nada somos sem eles."

A reportagem também fez "Shhh" no Jazz nos Fundos, para uma mesa de senhores e para um casal. Caroline Sampaio, produtora do Jazz nos Fundos, lembra que, embora a casa tenha a música como elemento principal, e a casa ressaltar no início dos shows a necessidade de o público respeitar músicos e quem vai para ouvir música, reconhece que, às vezes, a informalidade do espaço e a longa duração dos shows fazem com que as pessoas tenham vontade de conversar.

"Tentamos mostrar ao público a importância de controlar o volume dessas conversas, e mostrar que, se a conversa ganhar uma importância maior, as pessoas devem se afastar do palco pra que os ouvintes atentos não percam a qualidade da apresentação. Essa política tem surtido efeito, mas confesso que ainda está distante do que consideramos ideal", explicou, por e-mail. A casa ainda distribuiu cartazes ao longo do espaço com avisos como: "Por favor, fale mais baixo que o volume do contrabaixo", ou "Jazz pede concentração, colabore e aprecie". Mas não é fácil: a reportagem já fez "shhhh" até para um grupo com faixa etária próxima à melhor idade.

Letícia e Carolina explicaram que ambas as casas têm o cuidado de evitar que mesas com aniversariantes prejudiquem o show. Segundo Letícia, os que celebram seus aniversários no local são avisados, antecipadamente, que cantar parabéns só é permitido nos intervalos dos shows. "E mesmo quando pegamos as reservas grandes, frisamos que seria melhor reservar um espaço onde o aniversariante seja a atração principal, ou seja, longe da banda." De acordo com Carolina, o Jazz nos Fundos procura "sempre acomodar as festas de aniversário e grupos grandes o mais longe possível do palco, para que possam conversar à vontade sem atrapalhar o show".

Letícia ainda conta que, uma vez, teve que prometer uma rodada de cerveja a um grupo de clientes caso fizessem silêncio. "Acho que tratar o cliente com um diferencial único e esperar a resposta, ajuda muito, afinal numa cidade onde são todos números e senhas, alguém que converse com cada cliente como deve, não tem como falhar."

A reportagem entrou em contato por telefone e e-mail com a assessoria de imprensa do HSBC Brasil, mas não obteve resposta sobre o que a casa de espetáculo faz para contribuir na educação dos clientes. A reportagem já fez "shhh" também lá, para dois casais impossíveis. De pé, longe das mesas, ainda era possível ouvir entre um acorde e outro mais "shhhssss!" de outras pessoas incomodadas com outras pessoas impossíveis.

A reportagem deixou duas gravações na secretaria eletrônica do Teta Jazz Bar, que também não retornou. Além do espaço ser pequeno, já ocorreu de um grupo ruidoso de clientes pedir, a todo momento, que um trompetista tocasse "A Night in Tunisia", de Charlie Parker. Aquele músico estava lá para apresentar composições próprias, alguns standards, e já havia pedido de forma clara, digamos até poética, para que os clientes se abrissem ao novo. Se não tocou aquela música, é porque havia algum motivo importante. O músico, quase sempre, tem razão.

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