Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Espaços culturais e produtores buscam financiamentos coletivos para pagar funcionários e artistas

Em São Paulo, Petra Belas Artes e Cine Matilha abrem crowdfundings; do Rio, Paula Lavigne e o Procure Saber buscam patrocínio para criar fundo dedicado a funcionários da cadeia produtiva da música

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 de março de 2020 | 19h58

Em tempos de crise sem precedentes, espaços culturais buscam no crowdfunding – a famosa vaquinha – uma maneira de arrecadar fundos para manter suas estruturas, pagamentos e salários em dia. É o caso do Petra Belas Artes, que anunciou nesta semana o início de uma campanha de financiamento coletivo para manter alguma saúde financeira e conseguir pagar a equipe de 55 pessoas que mantém o cinema funcionando, nas condições normais, de domingo a domingo.

“O Belas sobrevive de portas abertas e com a bilheteria”, diz um comunicado do cinema. “Sem isso, precisamos da sua ajuda para levantar um valor mínimo para manter as contas e, principalmente, a equipe de 55 pessoas.” A nota explica que o patrocínio da cerveja Petra custeia o aluguel do prédio, situado numa das esquinas mais icônicas de São Paulo (Consolação e Paulista), mas o resto da operação é bancado pela bilheteria.

O crowdfunding do Belas Artes sugere alguns valores: com R$ 10, o cliente recebe um agradecimento especial e um ingresso para o cinema, quando reabrir; com R$ 50, são dois ingressos e acesso a dois filmes da Pandora, a distribuidora criada por André Sturm, também a pessoa à frente do cinema. Em escala, as cotas vão até R$ 2,5 mil, quando, entre outras diversas recompensas, o doador recebe o direito de usar uma sala do cinema exclusiva em um evento especial para seus convidados.

“Vai gerar algum fluxo de caixa, é um alívio, estamos buscando preservar os funcionários”, explica Sturm. “Se a quarentena continuar por muito tempo, todo mundo vai ter que fazer sacrifícios. Nesse primeiro momento, propus aos funcionários que seria o período de férias, uma despesa que já teríamos de qualquer forma. A partir do segundo mês, vamos ter de buscar outras alternativas, como essa.” Segundo ele, o funcionamento do Belas Artes custa cerca de R$ 350 mil por mês. O crowdfunding arrecadou até agora R$ 22 mil, e a meta para essa primeira iniciativa é R$ 50 mil.

No Rio de Janeiro, o coletivo #342Artes, capitaneado por Paula Lavigne, também lançou uma campanha de financiamento coletivo, com o objetivo de dar suporte a quatro instituições da cidade que têm “total confiança” do movimento e que trabalham em favelas. São elas: Coletivos Papo Reto, Voz da Comunidade Rocinha Resiste e Redes da Maré, todas ligadas à arte e a projetos sociais. Apoiada por diversos artistas, como Anitta, Frejat e Glória Pires, a campanha já arrecadou cerca de R$ 125 mil, de uma meta inicial de R$ 150 mil.

“A campanha está indo bem, dentro do possível agora”, diz Lavigne. “Mas temos de pensar que vamos dividir por quatro instituições, e cada um desses lugares é uma cidade, praticamente. Muita gente quer ajudar, mas não tem a curadoria, não sabe quem são as organizações sérias. Claro que existem muitas outras, mas por essas a gente bota a mão no fogo”, explica.

Procure Saber procura patrocínio para lives de Caetano, Gil e Bethânia

Outro projeto de Lavigne, mais ligado à Associação Procure Saber, busca um patrocínio para sair do papel. A ideia, diz a produtora, é conseguir patrocínios de empresas para promover lives com apresentações do primeiro time do Procure Saber, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Frejat, Nando Reis e outros, e com os recursos levantados criar um fundo destinado a profissionais da cadeia produtiva da música ao vivo, de bilheteiros a carregadores e técnicos de som.

“Não estou preocupada com os artistas mainstream”, explica Lavigne. “Mas sim com toda a cadeia: bilheteiros, técnicos de som, carregadores, etc. O que eles fazem não está sendo utilizado em local nenhum, não há trabalho. Estamos terminando um projeto, e agora estamos atrás de um patrocínio, para que uma empresa possa bancar e possamos reverter isso para a cadeia produtiva.”

Em São Paulo, o Cine Matilha, na República, também está com uma campanha de financiamento coletivo, aberta, na verdade, antes da quarentena. Os recursos seriam dedicados inteiramente à reforma do espaço físico, mas agora o coletivo vai definir uma nova meta para incluir o pagamento dos funcionários – eram R$ 7 mil, 99% dos quais já arrecadados. 

“O cinema custa, por mês, R$ 12 mil, entre custos de funcionários e despesas”, explica a programadora do Cine Matilha, Patricia Rabello. “Isso sem o valor da programação, que como estamos fechados, não temos. Existe um caixa escasso para toda a casa, por isso precisamos de ajuda para garantir a sobrevivência do cinema e ele estar pronto para a reabertura assim que a quarentena acabar.”

O Jazz Mansion, um projeto da agência paulistana de conteúdo Grupo Cuco, também passou a ser realizado online: toda quarta-feira, uma live no Instagram @jazzmansion traz apresentações com artistas do gênero – e uma vaquinha online pretende levantar fundos destinados a esses profissionais.

Na gringa, o Spotify lançou nesta quarta, 25, o projeto Spotify Covid-19 Music Relief, que recomenda ONGs dedicadas ao alívio financeiro para comunidades musicais. As primeiras parcerias são com MusiCares, PRS Foundation e Help Musicians, e a plataforma recomenda que profissionais da música visitem os sites dos parceiros para obter informações sobre como solicitar ajuda.

Outra iniciativa planejada pela plataforma é um recurso que permitirá aos artistas arrecadar fundos diretamente dos fãs durante a crise, ainda sem data oficial de lançamento.

Composto por festivais, festas, marcas e gravadora, o núcleo paulistano de música eletrônica Só Track Boa também iniciou um crowdfunding com o público, artistas e colaboradores. Os recursos serão doados a Centros Temporários de Acolhimento (CTA) em São Paulo.

ONDE AJUDAR? Financiamentos coletivos para espaços culturais

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