Alex Silva/Estadão
A analista de pesquisa e mercado Julia Bizarri Guarnieri, que buscou psicoterapia após diagnóstico de Burnout Alex Silva/Estadão

Esgotamento mental: seu diagnóstico de Burnout é único e sua recuperação também será

A importância do engajamento do paciente na busca por equilíbrio emocional

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 15h00

Por mais que pesquisadores da área de saúde mental se esforcem para encontrar diretrizes e protocolos para atendimento, quando o assunto é sofrimento emocional, cada história é única. Somos singulares, sobretudo na dor. Isso nos faz pensar que o sucesso de um tratamento envolve, principalmente, o engajamento do paciente. E com a chamada Síndrome de Burnout não é diferente. Não dá para mensurar o esgotamento mental, que é individual, por mais que as empresas e familiares se esforcem para oferecer o melhor acolhimento. “Sempre achei que podia ir um pouco mais além do que o meu corpo permitia e acabei não escutando os sinais que ele me mostrava. Acabei colocando muita cobrança em mim mesma, sempre querendo alcançar mais e pensando que não era capaz, criando um looping no qual eu não conseguia sair”, conta a analista de pesquisa e mercado Julia Bizarri Guarnieri, de 32 anos, que recebeu o diagnóstico no fim de 2019. 

“Para além da cobrança dos gestores, algumas pessoas têm a sensação de que nunca fazem o suficiente e seguem se sobrecarregando. É comum isso estar relacionado ao seu desenvolvimento ou mesmo a uma situação traumática. Aprenderam que não eram capazes de realizarem suas tarefas. Mesmo quando recebiam elogios, estes vinham acompanhados de um ‘mas’. Esse ‘mas’ anula o que foi dito antes”, afirma a psicóloga Lucia Rosa, que trabalha com grupo voltado para Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) no Brasil.

Se a gente ‘vasculhar’ na nossa história infantil, quem nunca se comparou ou foi comparado com o desempenho do coleguinha de sala de aula? E na disputa por uma vaga no mercado de trabalho? Por vezes, carregamos para a vida adulta ideias como ‘se disser não, serei um fraco’ ou ‘se me negar a fazer algo, irão me reprovar’. Na opinião de Deisy Emerich-Geraldo, doutora em Psicologia Clínica (USP), as pessoas também sofrem por não conseguirem se comunicar adequadamente. “Ter a habilidade de ser assertivo para se comunicar com as pessoas que te cercam – negar ou negociar prazos/tarefas/pedidos e também pedir por aquilo que precisa, sinalizar a necessidade – seja na vida pessoal ou profissional. Isto também envolve estar em contato com outros, círculo íntimo e/ou profissionais de saúde mental, no sentido de compartilhar suas vivências acerca dos eventos que estão causando estresse e as emoções que você está tendo. Além disso, é importante destacar que, quando estamos sob estresse, facilmente podemos nos sentir frustrados e irritados, e isso pode ter um efeito negativo em suas habilidades de comunicação – o que demanda uma especial atenção a esta área”.


A pressão foi tão grande para Julia Bizarri Guarnieri que ela não conseguia se reconhecer mais. “Sentia-me completamente perdida, com falta de propósito e energia, com uma sensação interna de vazio, uma espécie de crise existencial, sem reconhecer quem eu era e sem ter clareza mental do que eu queria”. Foi então que a analista de mercado decidiu procurar ajuda na Psicoterapia, já que percebeu que precisava mudar. “Notei que, além de todo suporte familiar, a ajuda de uma profissional seria fundamental nesse processo. Na psicoterapia, aprendi que está tudo bem não estar bem. Passei a observar meus comportamentos e os efeitos da minha autocobrança. Comecei a me conhecer, a trabalhar minha insegurança e a enfrentar meus medos. Aprendi a me perguntar se minhas atitudes estão me aproximando da Julia que eu quero ser no futuro”, afirma.


Yu Tse Heng, doutorando em administração, e Kira Schabram, professora assistente de comportamento organizacional, são pesquisadores da Foster School of Business da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Eles utilizaram dois projetos - uma pesquisa de campo longitudinal de 130 provedores de serviço social e uma metodologia de amostragem experimental com 100 estudantes de negócios em 10 dias - e constataram que a compaixão pode ser um importante agente de mudança para o funcionário que se sente exausto. “Analisamos o poder de geração de recursos de duas expressões distintas de compaixão (autodirigida e dirigida pelos outros) nas três dimensões do esgotamento (exaustão, cinismo, ineficácia). Encontramos um padrão complexo de resultados indicando que ambas as expressões de compaixão têm o potencial de gerar recursos saudáveis (autocontrole, pertencer, autoestima) que reabastecem diferentes dimensões do Burnout. Especificamente, a autocompaixão remedia a exaustão”, diz um trecho do artigo, publicado em janeiro deste ano. “Podemos desenvolver e treinar novas habilidades que irão melhorar a autoestima. Todos nós podemos ser bons em muitas coisas. Isso cria recursos que são fundamentais pra gente se regular diante das demandas da vida”, pondera a psicóloga Lucia Rosa.

Quando começou a olhar mais para si mesma com compaixão, Julia passou a reconhecer seus limites. “Sou uma pessoa mais confiante, mais atenta e percebo quando preciso diminuir o ritmo. Faço pausas conscientes e estou aprendendo a dizer não. Também aprendi a pedir ajuda, pois sei que minha vulnerabilidade me fortalece e que eu não estou sozinha nesse processo, por isso a importância de nos comunicarmos. Percebi a importância de olhar para dentro primeiro para depois encontrar lá fora o que procuro”, avalia.

O autocuidado também foi um aliado importante na recuperação: “Uma das ferramentas mais poderosas que encontrei no caminho foi a ioga. Descobri uma maneira de criar uma conexão mais profunda comigo e iniciar o despertar para uma transformação em meu estilo de vida. A prática, combinada com a atenção plena (mindfulness), técnicas, como a escrita e exercício físico, tem me ajudado a fortalecer a conexão entre meu corpo físico e minha saúde mental”. 

O alívio dos sintomas de esgotamento deu espaço para que Julia exercesse a criatividade, inclusive em projetos pessoais. “Lancei meu podcast ‘Pra mim eu digo sim’, cujo objetivo é falar sobre redescobertas, saúde mental e novos hábitos, tentando reforçar a importância desses temas, visando ajudar pessoas que de alguma forma precisam, assim como eu, de um incentivo para olhar para dentro de si”, diz. O podcast está disponível no Spotify.


O manejo de emoções como frustração, ansiedade e insegurança está no nosso mundo interno, porém, é preciso relacionar com o contexto global da situação, como pondera Deisy Emerich-Geraldo, doutora em Psicologia Clínica (USP). “Nós vivemos em uma sociedade que estimula a produtividade e o ‘ser ocupado’, e, por ser algo estimulado na cultura, acaba sendo algo valorizado socialmente. Então, este é um fator que impacta o individual e pode contribuir para que as pessoas tenham a ideia de que ‘ser eficaz’ e ‘ser produtivo’ é via para ser visto, ser valorizado, ser feliz. Estas construções também dependerão da história de vida de cada pessoa. E a consciência desta complexa relação entre o sujeito, sua própria história e a cultura em que está inserido é um passo importante”. 

Como identificar o esgotamento mental?

O que está fazendo você se sentir esgotado? Longas horas de trabalho, sobrecarga de tarefas, poucas pausas, contexto de insegurança de emprego e dificuldades no relacionamento com colegas ou chefes provavelmente são os pontos mais sensíveis e que podem contribuir para a Síndrome de Burnout

“A pandemia e o seu inevitável impacto no contexto econômico automaticamente gerou esse senso ‘insegurança no trabalho’. Imagine, então, ter um gestor que emprega estratégias coercitivas como ameaças, exposição e comparações entre desempenho dos funcionários?”, aponta a psicóloga Deisy Emerich-Geraldo.

Nesse aspecto, vale destacar que a prevenção ainda é o melhor caminho. As empresas precisam abrir um canal de comunicação para os funcionários e oferecer recursos necessários para apoiar a saúde mental deles. Ao mesmo tempo, os indivíduos devem promover a auto reflexão e identificar quais são as questões que colaboram para que se sintam esgotados. Depois, determinar quais ações podem tomar em busca da recuperação, através do autoconhecimento.

Como prevenir a Síndrome de Burnout?

A prevenção contra o esgotamento mental ainda se mostra o melhor caminho ante a redução de danos. Além da psicoterapia, muitas práticas são simples e proporcionam sensação de bem estar. Confira:

* Se cobre menos

Além das exigências do trabalho, tente cobrar menos do seu próprio desempenho, pois este é um dos principais motivos que levam a pessoa ao Burnout. Entender que a perfeição não existe e que está tudo bem é um passo importante. A psicoterapia o ajudará a refletir sobre isso com outra pessoa.

* Crie uma rotina

Uma outra dica é organizar seus afazeres da semana, com metas simples e constantes. Lembre-se: quanto mais tarefas se propuser, mais ansioso ficará. Um pouco é melhor do que nada.

* Tenha momentos de lazer

O lazer é extremamente importante, mas deixado de lado por pessoas que acabam colocando o trabalho como prioridade. Encontrar momentos de prazer como ler um livro, escutar uma canção ou assistir a um filme podem ser boas dicas. 

* Tire folgas pendentes e use as férias

As férias e folgas são direitos dos trabalhadores mas, para além disso, servem para recarregar as energias. Não adie seu descanso e aproveite esse período, de preferência, longe dos dispositivos eletrônicos, como celular e computador.

* Cultive relacionamentos saudáveis 

Somos seres humanos a partir do relacionamento com as outras pessoas. Cultivar relações saudáveis com colegas de trabalho, amigos ou familiares pode ajudar sua saúde mental. E atenção: fuja de discussões desnecessárias.

* Exercícios físicos como remédio

Para aqueles que sofrem com estresse, ansiedade ou esgotamento mental, exercício físico não é opção e faz parte da cura ou prevenção. No entanto, escolher uma prática que lhe dê prazer faz com que você não desista no meio do caminho. Meditação e ioga são boas opções.

* Melhore sua alimentação

Se está difícil melhorar os hábitos alimentares, comece diminuindo a quantidade de ingestão de bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados. Na sequência, ou ao mesmo tempo, procure se hidratar mais com água, chás ou sucos naturais e insira maior quantidade de frutas e legumes no dia a dia. 

* Respire 

De todas as dicas, esta é a mais simples e acessível para todos. No entanto, poucos param para pensar sobre seus benefícios. Fazer uma pausa de cinco minutos do seu dia para inspirar e expirar, com os olhos fechados, desviando o foco das preocupações, te trará uma sensação de alívio. Que tal tentar?

Projeto trabalha prevenção a Burnout e TEPT com profissionais da linha de frente contra covid-19

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, especialistas em saúde mental já previam o aumento do número de casos de Síndrome de Burnout e de transtornos decorrentes de traumas, afinal, ninguém havia presenciado uma pandemia dessa magnitude. A psicóloga Lucia Rosa trabalha com um grupo voltado para Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) no Brasil há quase dez meses com profissionais da Rede de Atenção à Saúde que estão na linha de frente contra a covid-19. Ela atua com o sistema Bodyamic, teoria psicológica desenvolvida pela dinamarquesa Ditte Marcher e que faz o manejo de conceitos como dignidade, conexão mútua, funções do ego e desenvolvimento muscular. 

Os depoimentos dos pacientes são compartilhados em uma página do grupo no Facebook. Em entrevista ao Estadão, Lucia Rosa nos conta como os profissionais estavam no início da pandemia do novo coronavírus e como se desenvolveram depois, com a intervenção psicoterápica.

1 - Do que se trata o projeto?

É um projeto que foi desenvolvido inicialmente para a gente prestar atendimento a profissionais que trabalham com covid, no front. Todos que estão na rede de atenção à saúde, desde o atendente, passando pelo motorista da ambulância, o faxineiro. Uma das integrantes do grupo, que é professora, decidiu fazer um projeto de pesquisa científica com o trabalho que estávamos realizando. E esse projeto foi aceito pelo comitê de ética e pesquisa da UNEB (Universidade do Estado da Bahia). Nós usamos escalas que são reconhecidas internacionalmente e validadas no Brasil, que são indicadores de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), de estresse, ansiedade, depressão e essas escalas são aplicadas nos pacientes que se inscrevem e aceitam participar da pesquisa, então, são encaminhados para os psicólogos. 

2 - Como funciona o atendimento na prática?

A pessoa se inscreve e passa por uma avaliação. O protocolo é de seis atendimentos e, depois das seis semanas, a gente volta a atender em um mês. Na sequência, em três meses, em seis meses e um ano. Isso é importante para a gente acompanhar a evolução da pessoa. No final do trabalho, a gente deixa com eles todos os exercícios realizados nas seis primeiras semanas, que seguem um protocolo que trabalha com crises, TEPT e todos os transtornos causados pela pandemia. O Bodynamic é um sistema que trabalha em cima do desenvolvimento, com o corpo e com a fala. A gente ativa músculos que são comprometidos e que podem ser trabalhados para desenvolver novas habilidades e recuperar outras que foram escondidas pelo trauma ou situações de tensão. A abordagem do TEPT foi desenvolvida pela dinamarquesa Ditte Marcher com um trabalho com veteranos de guerra na Ucrânia. A criadora do método é a mãe dela, Lisbeth Marcher. E o protocolo que a gente usa no Brasil é baseado nele.

3 - Quantos já foram atendidos pela equipe de psicólogos?

É uma equipe grande, já atendemos 200 profissionais ligados ao covid-19 nesses dez meses que estamos realizando esse trabalho.

4 - Quais foram os principais relatos dos profissionais de saúde no início da pandemia?

Na minha experiência, atendi algumas pessoas com pânico, muito medo de contaminar familiares, com receio de morrer, pois muitos colegas faleceram. Tenho pacientes que chegaram a presenciar a perda de dez pacientes no mesmo dia. Nível de estresse elevado, entrando em um quadro de depressão, insônia e desânimo. Às vezes, temos quadros de compulsão, ansiedade e angústia. Um sentimento muito grande de desamparo. Tem uma paciente que o marido tem um problema renal grave e ela pegou covid depois de ter tomado as duas doses da Astrazeneca. Ela entrou em pânico de contaminar ele e ter um agravamento por ser um paciente renal. Também trabalhamos com o manejo de energia e profissionais que estão dentro de CTIs (Centros de Terapia Intensiva) e eles lidam com alto impacto o tempo todo. A gente sabe que, estatisticamente, só 20% dos pacientes intubados sobrevivem. Já escutei de pacientes que viram morrer, na pandemia, muito mais gente do que presenciaram durante a vida profissional inteira. E são pessoas mais velhas, de 45 anos, e isso é muito duro. A gente faz com que eles consigam trabalhar melhor as emoções que estão dentro deles.

5 - Quais são as melhoras que você pode observar nas pessoas atendidas?

As pessoas melhoram mesmo e, quando você volta a acompanhar, é uma delícia. Tem expressões tão bonitas de felicidade... me veio a imagem agora de uma técnica de enfermagem que eu atendi e o estado dela com a mudança...um sentimento de alegria mesmo, de se sentir amparada, acolhida. E nossa proposta é essa: cuidar de quem cuida. Se você não se cuida, não consegue cuidar do outro. A sobrecarga faz isso. 

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Mindfulness no trabalho: por que virou uma febre na pandemia

Empresas como Bayer, Google e Vivo estimulam meditação entre funcionários, para aprimorar inteligência emocional e aliviar ansiedade; startups facilitam o processo

Marcos Leandro, Especial para o Estado

21 de fevereiro de 2021 | 05h01

Desde o início da pandemia do coronavírus, a ansiedade e o estresse se intensificaram e levaram profissionais a procurar ajuda. Na internet, isso fez a busca pelos termos meditação e mindfulness bater recorde nos últimos 16 anos. Segundo o Google, em 2020 a pergunta “como fazer meditação para ansiedade” teve um crescimento de 4.000% em relação ao ano anterior. 

O mindfulness, especificamente, tem sido bastante falado no mundo do trabalho por ajudar a lidar com falta de concentração, pressão e mesmo melhorar a inteligência emocional e as habilidades comportamentais (soft skills) dos colaboradores.

Segundo o especialista Vitor Friary, fundador do Centro de Mindfulness no Brasil, a técnica é um estado de atenção que proporciona mais consciência do que se está vivendo no presente, fazendo a pessoa se desligar das preocupações sobre o futuro e/ou das relações do passado. De acordo com ele, os profissionais que praticam mindfulness conseguem ter mais adaptabilidade em transições, melhora na saúde emocional e menor índice de absenteísmo.

“A prática, quando inserida no ambiente do trabalho, treina foco e concentração, assim como também desenvolve atitudes comportamentais que aumentam compaixão, possibilitando um ambiente de menos conflito e com mais foco na resolução de problemas.”

A Bayer é uma das empresas que oferece mindfulness aos seus funcionários. “Trouxemos a técnica para organização em meados de 2017, como parte de nossas ações de saúde e bem-estar. Nessa época, o assunto ainda era pouco conhecido pela maioria das pessoas”, conta Giselle Chiachio, especialista em saúde e bem-estar da Bayer no Brasil. 

Durante a implantação, diz ela, houve a necessidade de se explicar sobre a importância da meditação para quebrar alguns preconceitos. “Hoje, no enfrentamento da pandemia, o assunto se tornou mais popular e ainda mais necessário.”

Antes do isolamento social, as sessões de mindfulness eram oferecidas de forma presencial e o RH tinha o desafio de atender as equipes que trabalham em regiões afastadas. “Nisso, a pandemia ajudou, porque houve a abertura e a possibilidade de as sessões serem online. Hoje atendemos todo o Brasil, com sessões virtuais de 30 minutos”. As sessões são conduzidas pela empresa Mindself (leia mais abaixo).

A secretária executiva Nely Uchida é uma das funcionárias da Bayer que praticam o mindfulness. “Costumo acordar cedo, por volta das 5h, e medito uns 15 minutos antes de pular da cama”, conta ela, que pratica a meditação pelo menos três vezes por semana. A iniciativa da empresa a levou a ter essa rotina, pois, apesar de ter buscado conhecer antes o mindfulness, ainda tinha uma visão de que seria algo complicado de se fazer.

“Já tinha tentado meditar por conta própria antes, mas o conceito que eu tinha era de uma coisa muito difícil. A prática me ensinou que pensamentos vêm e vão. O importante é voltar a ter foco, não desistir e saber que não é o fim do mundo.”

Com a pandemia, a adaptação ao trabalho remoto foi um momento de desafio para Nely, que precisou se organizar com o trabalho e os afazeres de casa. Nesse momento, o mindfulness foi fundamental. “Minha atenção poderia ser pior no home office, quando se tem tantas distrações ao redor, filho falando alto na aula online. Então, eu senti que consigo focar e até neutralizar distrações.”

Sala para meditar e app próprio

No Google, essa prática começou a ser implementada em 2007 por iniciativa do então engenheiro Chade-Meng Tan, que estruturou um programa global de mindfulness conhecido como Search Inside Yourself. Atualmente, a companhia tem seminários e um programa interno chamado gPause, que promove práticas de meditação. 

“Essas iniciativas, presentes em mais de 60 escritórios ao redor do mundo, são lideradas por mais de 350 funcionários voluntários, praticantes de mindfulness de longa data, e apoiadas pelo RH”, explica Tatiana Gianini, Gerente de Comunicação do Google Brasil.

Vinícius Malinoski é líder de creative works no Google Brasil e começou a praticar o mindfulness dentro da empresa. “Era um momento em que estava lutando muito por uma promoção. Havia uma carga muito forte de trabalho e pressão. Do outro lado, a própria estrutura do Google ajudava nesse sentido, porque a empresa tem benefícios, como o acesso gratuito a aplicativos de meditação, além de uma sala que as pessoas podem usar para meditar.”

Para ele, ter um grupo de pessoas que meditava às 12h, todos os dias, foi decisivo para conseguir começar. “Quando eu comecei a ir nas sessões de meio dia, aquele horário fez muito sentido para mim e, ao ver outros colegas fazendo aquilo, foi quando eu finalmente consegui encaixar e a coisa deu certo”. Na mudança para o home office, Vinícius conta que o mindfulness ajudou a lidar com as aflições da pandemia.

Na área profissional, ele conta que o mindfulness melhorou dois pontos. O primeiro é a relação com as pessoas, o segundo é na tomada de decisões. “Como a minha função é executiva, eu tenho muitas reuniões e troco de assunto a cada meia hora. Então, tem que entrar naquele assunto, entender o contexto e tomar uma decisão. Exige muito da cabeça e, por isso, ter calma e clareza ajuda a não tomar uma decisão errada.”

A Vivo também tem o mindfulness entre os seus benefícios, e os profissionais podem contar desde 2017 com um aplicativo e um espaço para a prática da meditação. O app Vivo Meditação está disponível ao público, mas para quem trabalha na empresa o acesso é gratuito. 

“O feedback dos colaboradores foi muito positivo. Mais de 3 mil colaboradores baixaram o app”, conta Niva Ribeiro, VP de Pessoas da Vivo. Entre eles está Carolina Caetano, consultora de Inovação da companhia. Ela conta que conheceu a meditação por meio de um curso que fez em outra empresa. Na época, seus colegas achavam que ela não conseguiria meditar por ser muito agitada, mas logo no primeiro dia sentiu mudanças. “A meditação diminui a ansiedade, traz positividade.”

Empresas ajudam a implantar prática

Na Bayer, a empresa MindSelf foi contratada para ajudar a conduzir as sessões de mindfulness, que estão acontecendo pelo Zoom. A empresa foi criada por dois executivos que trilharam carreira nos setores financeiro e de tecnologia, Alexandre Ayres e Wagner Lima.

Wagner conta que sempre teve o desejo de empreender e vinha se preparando desde 2008 para isso, mas foi apenas em 2015 que a meditação entrou em sua vida. Ao lado de Alexandre, que também passou a meditar para aliviar carga de estresse do trabalho, ele percebeu que não havia muitas empresas capacitadas para levar esse tipo de assunto para o mundo corporativo.

Fundada no final de 2017, a MindSelf hoje atende desde pequenos negócios até grandes companhias como Enel, Itaú e Copagaz. “O retorno tem sido realmente incrível. Em primeiro lugar, o impacto que nosso trabalho gera nas pessoas que participam dos nossos programas”, conta Wagner.

No caso da startup Zenklub, ela foi fundada em 2016 para oferecer terapia online. Em 2019, se tornou uma plataforma de saúde emocional e desenvolvimento pessoal e, dessa forma, começou a oferecer também outros produtos.

“Antes da pandemia nós não tínhamos meditações no aplicativo, mas a partir dela vimos a procura aumentar. Os próprios psicólogos da plataforma nos relataram que passaram a recomendar técnicas de mindfulness. Criamos nosso catálogo e hoje temos mais de 70 meditações feitas por especialistas”, conta Rui Brandão, CEO e cofundador do Zenklub.

Uma das práticas oferecidas pela startup é a de relaxamento muscular progressivo, desenvolvido pela psicóloga Daniela Sopezki, que fez tese de doutorado sobre a aplicação do mindfulness em sintomas do burnout. Segundo Rui, a síndrome é uma queixa frequente dos usuários da plataforma e, por isso, a empresa julgou importante trazer uma prática de mindfulness para ajudá-los com isso.

E a busca pelo mindfulness não para de crescer. “Nós incluímos a primeira meditação no aplicativo em junho de 2020 e em dezembro o uso já tinha aumentado 800%. No Janeiro Branco, mês de conscientização sobre saúde mental, nós deixamos todos os nossos conteúdos gratuitos, o que fez o número de usuários desse serviço dobrar.”

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Estresse no home office: 6 sinais de alerta para saúde mental na pandemia

Dificuldade de conciliar vidas pessoal e profissional no trabalho remoto e redução da renda contribuem para o aparecimento de problemas como estresse e burnout; confira dicas de autocuidado

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2021 | 11h00

Há mais de um ano, mudanças significativas na vida profissional fizeram com que os brasileiros sentissem uma piora na carreira durante a pandemia de covid-19. Os impactos em saúde mental e na renda são os principais motivos, segundo uma pesquisa da consultoria de estratégia Oliver Wyman, feita com cerca de 4 mil pessoas. Para 32% dos entrevistados, esse sentimento negativo impera e ele é uma das causas que motivaram a busca por ajuda para tratar ansiedade ou depressão nesse período de incertezas.

No levantamento da Oliver Wyman, estresse financeiro (23%) e estresse no trabalho (13%) foram os dois principais motivos para buscar ajuda no tratamento dessas condições da mente. Especialistas afirmam que a dificuldade de equilibrar vida pessoal e profissional no home office, com demandas exageradas e reuniões online intermináveis, desencadeia sintomas emocionais e insatisfações. Tudo isso coopera para que as pessoas estejam estressadas no trabalho, o que acende o alerta para a ocorrência da síndrome de burnout.

Saúde mental na pandemia: sinais de alerta no home office

Uma pesquisa da consultoria Gallup sobre causas e curas do burnout entre colaboradores mostrou que as pessoas que dizem ter tempo suficiente, com frequência ou sempre, para realizarem seus trabalhos são 70% menos propensas a terem alto nível da síndrome de burnout. Para isso, se faz necessária uma relação saudável entre líderes e liderados, bem como uma atenção especial a sinais e sintomas de estresse e outras questões de saúde mental que, muitas vezes, passam despercebidos.

"Saúde mental não é só ausência de queixa de doenças. É um conceito mais amplo que envolve, segundo a OMS, o bem-estar físico, mental e social", diz Daniela Laranja, neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Para a empresa, é evidente quando um funcionário é afastado por diagnóstico de ansiedade ou depressão, mas a médica explica que há condições que não são contempladas nos indicadores dessas doenças.

"Dores crônicas nas costas, na cervical, insônia ou má qualidade de sono, dor de cabeça. Tudo isso pode ser um sinal de que a pessoa está com quadro depressivo, demonstrado de outra maneira." Além desses sinais, ela lista algumas pistas que podem indicar problemas de saúde mental e às quais líderes e funcionários devem ficar atentos, ainda mais em tempos de home office:

  1. Ficar muito tempo nas reuniões com a câmera desligada;
  2. Não interagir com a equipe como antes;
  3. Semblante mais triste e inexpressivo;
  4. Falta de cuidado com a aparência, quando é alguém que prezava por isso;
  5. Discursos e fala mais tristes;
  6. Queda na produtividade.

A fim de auxiliar as empresas, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz lançou, no começo deste mês, um programa de saúde mental voltado a médias e grandes organizações. O projeto tem como principal iniciativa um curso de formação de socorristas em saúde mental, que vai capacitar profissionais dentro das empresas para que identifiquem pessoas em situação de risco.

Dividido em quatro módulos, o curso totalmente online tem duração de 18 semanas e início em 28 de abril. Também faz parte da ação o Guia de Saúde Mental Pós-Pandemia no Brasil, elaborado em parceria com a Pfizer, que aponta para as consequência negativas da pandemia no psicológico humano.

"Nossa ideia foi criar um programa que tivesse foco no conceito da OMS sobre o que é bem-estar. A gente fez paralelo com a ideia dos brigadistas e a pessoa vai ser capacitada para entender e identificar os principais sinais e sintomas que estão ao seu redor ou consigo. Vai aprender o que impacta a saúde mental e vai ser capacitada em terapias não medicamentosas, todas com embasamento científico: musicoterapia, espiritualidade, mindfulness. No final, tem um módulo de gestão", explica Daniela.

Ela diz que uma das vantagens dessa formação é que o aprendiz pode se tornar uma referência dentro da empresa para alguém que ainda se sente desconfortável de ir ao médico. Isso, porém, não descarta uma consulta com o profissional para identificar sintomas de estresse e outras questões relacionadas a saúde mental; é apenas um meio de iniciar o reconhecimento do problema.

Aprimorar esse monitoramento, segundo a neurologista, requer um esforço conjunto da empresa, em especial da equipe de medicina do trabalho, para acompanhar os indicadores. "É uma situação estressante de maneira geral, mas se os números de depressão estão estáveis e se vê que a quantidade de afastamento por dor cervical, por exemplo, está aumentando, os médicos precisam estar atentos", afirma Daniela. Ela exemplifica que uma dor no estômago nem sempre é sinal de úlcera e pode ser um sintoma de ansiedade.

7 dicas de autocuidado no home office

A partir da suspeita ou mesmo identificação de má condição mental, as organizações podem adotar medidas para evitar recorrências. "A empresa deve ter esse foco em fornecer opções de cuidado para o seu colaborador e tornar isso uma rotina." De forma individual, algumas orientações para fortalecer o autocuidado no ambiente de trabalho no home office, principalmente durante a pandemia, são:

  • Planeje a rotina, com horários regulares para acordar, dormir e fazer as refeições;
  • Não se descuide e mantenha o uso rotineiro de medicações, se for seu caso;
  • Faça pausas a cada hora, levante, ande um pouco e beba água;
  • Tente identificar o que está sentindo, se tem pensamentos negativos com frequência;
  • Procure formas de distração, como leitura, atividade física, meditação. Alguns aplicativos podem ajudar como guia;
  • Se informe por meio de fontes seguras, não por correntes enviadas em redes sociais;
  • Entenda que sentir medo e tristeza é normal, mas fique atento se esse quadro se prolongar.

Para saber mais sobre o 1º Curso de Formação de Socorristas em Saúde Mental, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, entre em contato pelos telefones (11) 3549-0673 e 3549-0688 ou pelo site www.fecs.org.br/fale-conosco.

Estratégias para reduzir o cansaço

O momento atual não é dos melhores, uma vez que o novo coronavírus segue sem dar sinais de enfraquecimento - a ausência de medidas adequadas e de compromisso com o isolamento social torna o cenário pior. A segunda onda já trouxe novas restrições, que, embora necessárias, vão comprometer novamente o trabalho e as condições de saúde da população. Como evitar todo esse estresse e pensar no futuro do trabalho?

→ Veja aqui como a pandemia piorou a carreira do brasileiro

Não existe fórmula mágica, mas o que se pode fazer é amenizar esses impactos com diferentes estratégias. Afinal, o cansaço não é só mental, é físico também, o que ainda compromete a capacidade produtiva. Dessa forma, refletir sobre si e praticar a sustentabilidade emocional é um dos caminhos para poupar energia sem interferir nas tarefas do dia a dia, sugerem especialistas. Há, ainda, dicas para diminuir o cansaço, que contemplam áreas como ergonomia, espaço físico, saúde mental, produtividade e organização.

E, se tudo parecer muito complicado, lembre-se de que um pouco é melhor do que nada. Estudos mostram que apenas 11 minutos de exercício físico já melhoram o condicionamento corporal, com atividades em que se usa o peso do próprio corpo. Além de ambiente de trabalho, a casa também se transformou em academia, mas a prática simples de exercícios e também de mindfulness (meditação) traz benefícios comprovados e é algo que se tornou ainda mais importante para compensar as longas horas em frente ao computador.

Nessa trajetória, cabe também às empresas promover um ambiente favorável aos seus funcionários, mesmo que a distância. Construir ou ampliar uma cultura organizacional acolhedora, aberta a discutir as vulnerabilidades e soluções, e que monitore o descanso e não apenas o trabalho, é imperativo.

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O que é a síndrome de burnout, que entrou na lista de doenças da OMS

Além de sinais emocionais, problema também pode se manifestar em sintomas físicos

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2019 | 01h14

A síndrome de burnout será incluída na próxima revisão da Classificação Internacional de Doenças, segundo anúncio feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta segunda-feira, 27. A lista, elaborada pelo órgão, tem por base as conclusões de especialistas de todo o mundo. A classificação é utilizada para estabelecer tendências e estatísticas de saúde. A nova versão da CID começa a valer em 2022.

Entenda o problema. 

1. O que é burnout?

É um quadro de esgotamento profissional caracterizado por três sinais clássicos: 1) esgotamento físico e psíquico (a sensação de não dar conta das tarefas); 2) indiferença e perda de personalidade (não se importar mais com o próprio desempenho profissional, cinismo e apatia); e 3) Baixa satisfação profissional. Para além desses sintomas, podem aparecer sintomas físicos, como ressalta a coordenadora do Serviço de Psicologia e Experiência do Paciente do Hospital Israelita Albert Einstein, Ana Merzel Kernkraut. “Os primeiros sintomas podem ser físicos, como dor de cabeça, dor de coluna e distúrbios musculares.”

2. Quais são as causas?

O quadro está sempre associado a fatores de estresse crônicos no ambiente de trabalho, como longas jornadas, pressão e alta competitividade, entre outros. Segundo o Ministério da Saúde, a síndrome é comum em profissionais que atuam diariamente sob pressão e com responsabilidades constantes, como médicos, enfermeiros, professores, policiais, jornalistas, dentre outros. “Não é algo que acontece após um ou outro dia de trabalho estressante. É um quadro que vem de uma rotina constante de estresse ao longo da vida profissional”, explica João Silvestre da Silva Junior, diretor da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamat) e perito médico do INSS.

3. Que outros sintomas podem aparecer?

De acordo com o Ministério da Saúde, são sintomas do burnout cansaço excessivo (físico e mental), dor de cabeça frequente, alterações no apetite, insônia, dificuldades de concentração, sentimentos de fracasso e insegurança, negatividade constante, sentimentos de derrota e desesperança, sentimentos de incompetência, alterações repentinas de humor, isolamento, fadiga, pressão alta, dores musculares, problemas gastrointestinais e alteração nos batimentos cardíacos.

4. Quantas pessoas são atingidas no Brasil?

Não há dados precisos sobre isso, mas, segundo a representação brasileira da Associação Internacional de Manejo do Estresse (ISMA), 72% dos brasileiros que estão no mercado de trabalho sofrem alguma sequela ocasionada pelo estresse. Desse total, 32% sofreriam de burnout. De acordo com João Silvestre da Silva Junior, diretor da Associação Nacional de Medicina do Trabalho e perito médico do INSS, cerca de 20 mil brasileiros pedem afastamento médico por ano por doenças mentais relacionadas ao trabalho.

5. Como tratar o burnout?

O tratamento da síndrome é feito principalmente com psicoterapia, mas também pode envolver medicamentos (antidepressivos e/ou ansiolíticos). Em alguns casos, o tratamento requer afastamento temporário do emprego e também mudanças nas condições de trabalho.

6. Como é possível prevenir a doença?

Algumas condutas reduzem o risco, como negociar limites de trabalho e de jornada com o empregador e dedicar-se a outras atividades além do trabalho, como exercícios físicos, relacionamentos familiares, atividades de lazer, entre outras. Também é importante evitar jornadas excessivas com frequência, alimentar-se bem e tentar dormir cerca de oito horas diárias.

 

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