Escultores clássicos expõem na Camargo Vilaça

Saint Clair Cemin e José Pedro Croft, que inauguram amanhã à noite duas exposições simultâneas na Galeria Camargo Vilaça são, apesar da diversidade de estilos, da experimentação formal e técnica, dois escultores clássicos. O brasileiro Saint Clair Cemin, radicado há 20 anos em Nova York, mergulha mais uma vez no universo estético do barroco brasileiro, mostrando um conjunto de seis esculturas em materiais nobres como o mármore e o cobre, por meio das quais procura colocar em discussão a questão da mutação da forma.Morphirmos, termo escolhido a dedo para título da exposição por esse artista - que costuma alimentar-se de reflexões filosóficas e recorre comumente à história da arte para produzir uma obra surpreendentemente diversificada -, procura evidenciar o estado de mutação permanente dessas formas. ?A forma é sempre uma forma de tempo, no tempo e, portanto, uma forma de movimento", explica ele, acrescentando que "esse movimento, uma ponte entre formas passadas e futuras, combina-se casa-se com a mente do espectador?.Quem viu a última exposição do artista gaúcho na mesma galeria, em 1997, pode surpreender-se com o aparente contraste entre os trabalhos das duas mostras. A combinação entre diferentes materiais e formas - muitas delas com forte apelo simbólico - não deixava tão aparente o processo de construção da peça. Já nas obras atuais há um espírito mais clássico, uma maior harmonia. Mas, aos poucos, vai ficando claro que, por trás desse leque amplo, há uma inabalável coerência e o desejo de explorar de forma simultânea todas as variáveis da escultura. ?Quero dar o mesmo valor às idéias, fantasias, referências históricas, à razão, paixão, aos conceitos, materiais, ao estilo etc.; quero que todos eles sejam atores numa peça democraticamente perfeita?, explicou em entrevista ao artista Vik Muniz. Hoje, Cemin deixa evidente todas as marcas do processo de construção da obra. A referência à argila, que foi moldada para dar forma ao bronze, é bastante concreta, com as marcas dos dedos ou do próprio material em estado bruto, amassada em parte ao acaso, como em Polimorfismo em Repouso.É importante ressaltar também a diversidade de formas assumidas por uma mesma peça, forçando o espectador a girar em torno dela, descobrindo a cada ângulo uma obra completamente distinta. Apesar de ter uma sólida carreira nos Estados Unidos - há oito anos ele estava expondo na Documenta de Kassel -, Cemin tem sua obra admirada por seus conterrâneos. Sua primeira mostra no País foi na 22.ª Bienal, em 1994 (antes de partir para Paris e Nova York, o artista só havia exibido gravuras no País).FenomenologiaOcupando o mezanino da galeria com uma exposição mais enxuta, mas tão coerente quanto a de Cemin, está o artista português José Pedro Croft, que já mostrou outras vezes seu trabalho no País, participando de eventos como a 19.ª Bienal de São Paulo ou Navegar É Preciso, realizado em 1998 pelo Centro Cultural São Paulo. Ao contrário do que dizem as aparências, o interesse maior de Croft não é o construtivismo geométrico. ?Uso a escultura e o desenho como medição do espaço e do corpo humano?, explica o artista, afirmando que a geometria o tem ajudado por ser a ?maneira simples e rápida de medição?.Isso, de certa forma, explica o caráter pouco rigoroso de suas formas, sua geometria capenga. ?Em Portugal chamamos isso de geometria pedestre, ou seja, aquela que tem a marca do humano?, explica. Aliás, tudo na obra de Croft refere-se ao homem, a escala é sempre escolhida em função de seu tamanho.Outra característica interessante de seu trabalho é a progressiva limpeza de elementos externos com o intuito de preservar apenas aquilo que é essencial: uma anunciação de um determinado volume a partir de ângulos e arestas. Seu desenho tem cor, mas os azuis e vermelhos funcionam apenas como luz, como planos, que dão opacidade e densidade, explica.A escultura é feita de materiais simples, sem nenhuma nobreza. Trata-se de uma estrutura de barras de ferro galvanizadas cuja forma é distorcida, que tem como único elemento distinto uma placa de vidro. Ambíguo, o vidro consegue delimitar a área do cubo que se desenha no espaço e, ao mesmo tempo, não veda o olhar. É interessante notar a crescente aproximação entre os trabalhos bidimensionais e tridimensionais do artista português, mas o próprio Croft afirma ser antes de tudo um escultor, ?se o assunto da escultura for a marcação do espaço, que se tira do cotidiano para passar para o espaço simbólico?, afirma. Apesar de estar permanentemente convocando o espaço cotidiano, utilizando mesas e outros objetos que remetem ao espaço antropomórfico, a obra fenomenológica de Croft não tem nenhuma afinidade com o mundo dos homens, com a vida histórica, social e política.José Pedro Croft e Saint Clair Cemin. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 14 horas. Galeria Camargo Vilaça. R. Fradique Coutinho, 1.500, tel. 210-7066. Até 30/6

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