Escritores portugueses rompem com gênero literário

Romper com os gêneros literários parece ser a missão de dois dos autores portugueses que participam da 3.ª Festa Literária Internacional de Paraty. José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares deixam os críticos de seu país aturdidos a cada novo lançamento - se a obra anterior foi um romance, a seguinte pode ser poesia ou mesmo uma peça teatral. Ou ainda, uma bem acabada mistura de todos eles. "Para mim, gênero literário é um disparate", comenta Tavares que, autor prolífico, chegou a editar até sete livros em um mesmo ano, obras tão distintas que, se cada uma carregasse uma assinatura diferente, os leitores provavelmente não perceberiam. "Consegui, com isso, até catalogar meus títulos de forma diferente." O múltiplo exercício de linguagens já é uma especialidade portuguesa, lembra Peixoto, que cita o mais famoso praticante: Fernando Pessoa e suas diversas personas. "Com minha obra, sinto a necessidade de dizer que sou de um jeito, mas também de outro e de um outro ainda", explica. "Gosto de trabalhar com outras áreas artísticas, especialmente as que têm pouco relacionamento entre si." É o que explica, por exemplo, o livro experimental de contos publicado em 2003, concebido a partir de uma parceria com a banda de rock Moonspell. José Luis Peixoto e Gonçalo M. Tavares se destacam na nova geração de escritores portugueses. Apesar de escreverem a partir do mesmo idioma, eles parecem vir de países distintos. Enquanto Peixoto não dispensa fazer algum tipo de pesquisa quando escreve uma nova obra, mesmo procurando camuflá-la ao redigir, Tavares prefere escrever para descobrir, acreditando que reportagem não combina com ficção. Peixoto, que participou ontem da primeira mesa da Flip, está por terminar seu terceiro livro, que se assemelha a um romance histórico. "A realidade é tudo o que temos, é nossa base. Mesmo assim, busco apresentar uma realidade que tenha um componente referencial e que seja interpretado de diferentes formas dependendo de cada leitor." Ele veio a Paraty lançar o livro Nenhum Olhar (Agir), romance que foi definido como uma segunda parte de Levantado do Chão, de José Saramago. Em páginas de uma escrita poderosa, ele retrata a dura realidade do Alentejo português, que vive em estado de "morte lenta". "Busquei dar um caráter mais universal da situação a praticamente não oferecer referências geográficas que identifiquem a região." Já Tavares, que divide no domingo uma mesa de debates com o espanhol Enrique Vila-Matas, não acredita na força do romance realista, uma vez que a realidade não pode ser totalmente apreendida. "A idéia de objetividade é perigosa e impõe a castração da subjetividade", afirma. "Ditaduras e regimes perigosos, como o nazismo, sempre pregaram a objetividade, pois impedem que o povo tenha sua própria opinião." A vinda de Tavares motivou o lançamento de três de suas obras. A editora Casa da Palavra decidiu iniciar a coleção Palavra do Mundo com os títulos O Homem É Tonto ou É Mulher e O Senhor Brecht, enquanto a Bertrand do Brasil envia para as livrarias seu primeiro livro de poesia, curiosamente chamado Um. Trata-se de um escritor peculiar. Durante 12 anos, ele manteve o hábito de acordar regiamente às 5h30 para ter mais tempo para ler e escrever, em casa ou nos cafés de Lisboa. Tamanha determinação resultou em um baú repleto de originais, que começaram a ser publicados em 2001. Foi o início de uma enxurrada que pegou de surpresa a crítica de seu país, classificando-o como desconcertante e inovador. Tavares gosta de catalogar sua obra, classificando-a como "livros pretos", "Os Senhores" e "Bloom books". Na primeira vertente, destacam-se histórias contadas no limite da violência e do mal - normalmente, tem a guerra como pano de fundo. Da segunda classificação, surgem obras mais leves, como O Senhor Brecht, que contam pequenas histórias envolvendo personagens com nomes de personalidades da literatura mundial. Finalmente, os ´Bloom books´ fazem referência ao nome principal de Ulisses, de James Joyce, e são livros inclassificáveis, uma vez que os gêneros literários são questionados e afrontados. O Homem É Tonto ou É Mulher pertence a essa linhagem e mistura poesia, investigações e histórias falsas. Também instigante, José Luis Peixoto chegou a escrever dois livros sobre o mesmo universo ficcional, mas em estilos diferentes: o romance Uma Casa na Escuridão e o livro de poesias A Casa, a Escuridão. "Fiquei entusiasmado de apresentar dois textos que, apesar de viverem independentes entre si, acabam acrescentando e se enriquecendo mutuamente", diz. Experimentações movem a literatura dos dois autores, mas, se há outro fator em comum, esse não é a busca da perfeição. Tavares explica: "Considero a obra de Thomas Mann perfeita, sem a necessidade de retoques. Mas jamais levaria um livro seu para uma ilha deserta, pois não posso acrescentar-lhe nada. Prefiro o mal-acabado, o quase perfeito, que me estimule a acrescentar algo mais."

Agencia Estado,

08 de julho de 2005 | 16h29

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.