Escritores fazem militância literária

Escritores de língua espanhola sentem-se em férias quando vêm ao Rio, mesmo que seja a trabalho. Foi o que ocorreu esta semana com o chileno Antonio Skármeta (autor do best seller O Carteiro e o Poeta), a mexicana Elena Poniatovska (ainda inédita no Brasil), e o poeta argentino Juan Gelman que teve uma antologia, Amor Que Serena, Termina?, lançada aqui este mês. Eles passaram pelo Rio e por Brasília, debatendo seu ofício com colegas brasileiros no 4.º Encontro Anual de Literatura Latino-Americana, nos Centros Culturais Banco do Brasil (CCBB) das duas cidades."É maravilhoso estar aqui", repetiram, um após o outro como se tivessem combinado. Skármeta é o mais falante por conhecer melhor o Brasil, onde tem estado praticamente uma vez por ano, desde meados da década passada. "Este é um país terno, delirante, gracioso e gentil", elogiou. "O único inconveniente para mim, é não falar a língua. Não consigo viver num lugar em que não entendo as piadas e não posso respondê-las imediatamente. E, aos 60 anos, não quero mais aprender outras línguas, prefiro desfrutar as que já sei."Skármeta debateu a criação literária com João Ubaldo Ribeiro na quinta-feira, no Rio, e ontem, em Brasília. Ele já conhecia nosso escritor da Alemanha (onde Ubaldo viveu um ano e Skármeta é embaixador do Chile), leu seus livros de maior sucesso (Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro e Luxúria) e o entrevistou para seu programa na televisão chilena, O Show de Livros. "Seus romances e novelas têm muita energia, seus relatos são dinâmicos e sente-se que há alegria na sua criação literária. Creio que, como escritores, compartilhamos estas características", teorizou.Ele conta que começou a imaginar histórias nos anos 40, quando a avó pedia para contar os trechos das radionovelas que não podia ouvir. Na adolescência, morando na Argentina, descobriu que podia tornar-se popular inventando poemas épicos juntando heróis chilenos e argentinos. "Mais tarde li muito, do Tesouro da Juventude a Checkov, mas não sei dizer quando me senti um escritor profissional. Só sei que, de início, criava mil imagens tentando levar o leitor a um estado de ânimo alucinante. Isso mudou quando estava escrevendo O Carteiro e o Poeta, já morando na Alemanha, e vi que não contava com a cumplicidade do leitor europeu. Então, comecei a economizar e selecionar as imagens, o que significou também um amadurecimento estético."Elena Poniatovska é mais sucinta. Ela visita o Brasil pela segunda vez, mas conhece bem nossa literatura, que leu traduzida para o espanhol. Cita Nélida Piñon, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Chico Buarque ("adoraria conhecê-lo" derreteu-se) e até Gláuber Rocha, com quem viajou pelo México, já que ela é também documentarista e jornalista. É por esta última profissão que gosta de ser identificada, apesar de ter ganho o Prêmio Alfaguara de Novela, o maior do México, em março, pela novela La Piel del Cielo, ainda sem previsão de publicação no Brasil. Por causa da láurea, ela viaja pelas Américas do Sul e Central."É a melhor parte do prêmio. Mas me considero uma jornalista e, antes de tudo, militante que sempre esteve contra os governos mexicanos anteriores. Meu primeiro livro foi a cobertura de uma greve de ferroviários e o segundo, com o qual fiquei conhecida, La Noche de Tlatelolco, sobre um massacre de estudantes ocorrido em 1968", disse Elena, que dividiu as noites do 4.º Encontro com Lya Luft e Bella Josef. Ela só não sabe explicar quando um assunto vira romance, reportagem, livro jornalístico ou documentário, já que atua em todas as áreas. "Acontece num impulso e, quando vejo, está pronto. Agora que o novo governo mexicano está ouvindo mais os índios e está mais voltado para questões populares, pode ser que haja alguma mudança."Juan Gelman encantou a platéia lotada dos dois CCBBs, onde dividiu as noites com Augusto de Campos (no Rio) e Lêdo Ivo (em Brasília). Seus poemas, líricos e quase românticos, foram lidos por ele mesmo, em espanhol, mas o público acompanhou tudo por um folheto com a tradução feita por Eric Napomuceno, responsável por sua antologia brasileira. No entanto, quase não falou sobre processo de criação, estilo de seus poemas ou seu ofício, a não ser por que começou. "Aos 9 anos, me apaixonei por uma vizinha e lhe escrevi poemas. Mais tarde, para fazer sucesso entre as garotas, criei outros que recitava nas festinhas. Agradava às mães das meninas, mas não a elas. Mesmo assim, continuei escrevendo poemas."Além da língua, o traço de união entre os três é a militância política. Skármeta pede para incluir na reportagem um protesto para acelerar o processo contra o ex-ditador chileno Augusto Pinochet, enquanto Elena Poniatovska conta que nasceu nobre em Paris (é filha de um membro da família real polonesa), mas proletarizou-se no México e se orgulha de ter sido das poucas escritoras mexicanas a quem o subcomandante Marcos pediu apoio público. Gelman é mais discreto, talvez por ter militado em grupos armados e perdido parte da família para a repressão argentina. Evitou perguntas, mas resumiu sua posição em seu discurso de apresentação. "A poesia é um movimento na direção do outro", disse. "Mas como fazer para a língua esquecer o seu ontem manchado de espanto? Conseguirá? Não precisará, talvez, que exista justiça nesse mundo?"

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