Escritores e críticos literários brasileiros comentam a aposentadoria de Roth

Cristovão Tezza, autor de O Filho Eterno (Record)

17 de novembro de 2012 | 07h45

Philip Roth já tem uma das maiores obras do último século; tem razão em parar. Uma das coisas interessantes da literatura é que você começa a escrever por opção pessoal. Não existe uma demanda por escritores como existe por advogados, médicos, etc. Começar a escrever é uma escolha pessoal, quase um impulso ético da vida da gente. E só você pode resolver parar também. Não vejo nada de estranho na decisão dele. Se ele achou que de fato não tinha nada a acrescentar, ótimo.

Ele é um escritor extraordinário. Pela obra que já produziu, é muito difícil que ele viesse a escrever alguma coisa da mesma altura nesse ponto de sua vida. O que nos impulsiona é a ideia de que ainda temos muita coisa a dizer. Ou escrevemos por diversão. Um escritor pode continuar escrevendo mesmo sem ter a aspiração de construir grandes obras-primas, desde que o ato de escrever faça bem, que você se divirta com isso e divirta o leitor. Há casos assim e tudo bem, mas Philip Roth joga muito alto. A tensão literária é muito alta. De fato, ele deve ter sentido que não há mais nada a acrescentar.

André de Leones, autor de Dentes Negros (Rocco)

Os livros mais recentes de Philip Roth pareciam apontar para o silêncio. Após uma década e meia de romances volumosos e estonteantes, que se debruçaram sobre inúmeros aspectos da história e da vida americanas, bem como da herança judaica do autor, e depois de se despedir de seu alter ego, Nathan Zuckerman, Roth vinha escrevendo peças de câmara que sublinhavam temas já abordados. Não é que ele estivesse se repetindo, mas, antes, reformulando, por meio de outros pontos de vista, ideias acerca do passado, da doença, da solidão, da morte (mesmo na juventude) e da velhice. Em suas derradeiras narrativas, a voz é a de alguém que muito percorreu e, agora, avizinhando-se do silêncio, diz algo a seu respeito antes de se deixar envolver por ele. A notícia da aposentadoria não me surpreendeu. A sensação de dever cumprido é inescapável quando vejo o que Roth realizou para si e para nós.

Antônio Xerxenesky, autor de Areia nos Dentes (Rocco)

Não entendo toda a comoção com a aposentadoria de Roth. Sou entusiasta do escritor, e ficava extremamente deprimido com o fato de que Roth entrou em piloto automático e lançava com periodicidade anual um livro esquecível atrás de outro. Tentando lembrar de suas obras recentes, confundo cenas de Humilhação com outras de Indignação, e Nêmesis me parece um romance tão sem vida que considero o pior livro do autor. Roth deveria ter se aposentado após Homem Comum. Seria uma despedida e tanto do mundo das letras.

João Cézar de Castro Rocha, crítico literário e professor de literatura comparada da UERJ

Aos 79 anos, num tom casual, Philip Roth anunciou sua aposentadoria numa entrevista concedida à revista Les Inrockuptibles, como se o tema não merecesse maior elaboração, ou como se a decisão não implicasse dilema existencial nenhum. Nas suas palavras, "um livro a mais ou a menos não mudará em nada o que já fiz".

Quase no mesmo instante, o húngaro Imre Kertész (Prêmio Nobel em 2002), aos 83 anos, também anunciou que não publicará mais nenhum livro novo. O motivo recorda o de Roth: Kertész acredita ter esgotado o que tinha a dizer sobre o Holocausto e suas consequências. Em outras palavras, em sua visão, ele esgotou o tema. Nesse caso, poderíamos modificar o famoso aforismo de Wittgentsein: "Se já se disse tudo sobre um tema, é melhor calar".

A decisão dos dois escritores só é surpreendente se a vida literária for valorizada em si mesmo, com seus rituais e protocolos, quase todos organizados em torno da "novidade" do lançamento de livros. Equivalente do gancho jornalístico, ou mesmo do tão almejado furo, a publicação de um "novo" título mobiliza o público leitor, a imprensa e o mercado do livro. Ora, o que seriam das feiras de livro se elas se transformassem num inesperado museu de velhas novidades?

No entanto, se a experiência literária for pensada numa lógica diferente, a aposentadoria de Philip Roth e de Imre Kertész é menos surpreendente do que parece. Por exemplo, Juan Rulfo e Raduan Nassar publicaram apenas dois livros fundamentais, mas o impacto de sua literatura é muito superior à presença assídua de autores que se esmeram na publicação de um "novo" livro a cada dois anos, a fim de manter viva a lembrança de que, sim, são escritores! E nem se mencione o caso paradigmático de Rimbaud, pois a repetição excessiva também esgota um exemplo.

Há muitos outros casos que se poderiam evocar, mas o que conta é valorizar o gesto de silêncio deliberado numa época em que todos querem falar o tempo todo – mesmo que tenham muito pouco a escrever.

Vinicius Jatobá, crítico literário e escritor

Apesar de a morte ser a única aposentadoria verdadeiramente definitiva de qualquer escritor, o romancista estadunidense Philip Roth soou sincero quando fez o anúncio recente de que está abandonando de vez a literatura. Não há muito que lamentar: após uma carreira longa e irregular, vivendo da reputação do escândalo provocado pelo superestimado O Complexo de Portnoy (1969), e saindo de uma sequência de romances soporosos narrados pelo alter ego Nathan Zuckerman (reunidos no Brasil no volume Zuckerman Acorrentado), já muito próximo de uma idade em que muitos escritores perdem sua força, Philip Roth se reinventou como um dos mais extraordinários romancistas da atualidade. Antes, ele era um bom escritor gravitando ao redor dos talentos mais exuberantes de Toni Morrison, Don DeLillo e John Updike, mas com a sequência de obras-primas Operação Shylock (1993), O Teatro de Sabbath (1995) e Pastoral Americana (1997), Philip Roth tomou as rédeas da literatura estadunidense. Não fosse Cormac McCarthy, ele seria o maior escritor americano vivo; contudo, é demasiado claro que se tornou, com razão, o mais controverso e lido.

De 1993 em diante, Philip Roth escreveu um grande livro após o outro. Ele continua com a mesma dificuldade de toda sua carreira (e que é um desafio literária para todos os escritores): saber como terminar suas narrativas. Pérolas como Animal Agonizante (2001) e A Humilhação (2009) têm finais patéticos que jogam ao chão a força poética das vidas torturadas que exploram. No entanto, cada romance de Roth é uma exploração íntima e enérgica dos impasses do pathos masculino. A velhice, o declínio físico, o fosso aberto entre a potência da imaginação e a perda da capacidade de realizar; as encenações sociais, os papéis sociais, que desassociam a intimidade carente e desejosa com o vigor com que se deve agir no mundo; em como o desejo de explorar novos corpos torna-se torturante à necessidade de abrigo e regularidade e rotina; e, principalmente, a solidão que sentimentos de indignação e revolta e inadequação trazem ao indivíduo.

Diz-se muito que sexo é o principal tema de Roth, mas seu grande foco sempre foi o mascaramento; o sexo é uma forma agressiva de evitar intimidade em Roth, mais uma mentira, e sua obra pulula de exemplos de falsificações, seja um professor universitário que esconde o fato de ser de origem afrodescendente, um títere que é capaz de emular todos os sentimentos sem jamais se encontrar em qualquer um deles, e também atores e vocalistas de rádios e comerciantes, mas principalmente escritores. O personagem clássico de Roth é aquele que está acomodado em um papel e de repente é exposto ou arrancado dele. Os efeitos são muitos, assim como as tonalidades, e até alcançam o absurdo de Philip Roth ir ao encalço do próprio Philip Roth em Operação Shylock. Mas provocam perturbação sempre poderosa, uma vez que o mundo é um grande palco em que todos, sem exceção, usam algum tipo de mascaramento.

(DEPOIMENTOS A MARIA FERNANDA RODRIGUES)

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