Escritores desfiam glórias de seus times do coração

No fim da década de 50, a Rádio Nacional punha o resto do Brasil em contato com o Rio, então capital da República e principal centro cultural, político e esportivo da Nação. Em Caratinga, interior de Minas, o menino Ruy colou o ouvido num rádio Phillips para ouvir a trasmissão de um jogo do Flamengo. Ruy não morria de amores por time algum. Mas a emoção do locutor Jorge Cury, narrando ao vivo do Marcanã, converteu o garoto. O Flamengo perdeu naquele dia, mas ganhou um torcedor fanático - o futuro jornalista e biógrafo Ruy Castro.A conversão de Castro e sua extrema devoção ao time da Gávea estão refletidas nas páginas de O Vermelho e O Negro, Pequena Grande História do Flamengo, o primeiro livro do projeto Camisa 13, da Geração Conteúdo e da DBA, que será lançado na próxima semana. Outros 12 estão a caminho. Depois do rubro-negro será a vez do Santos, de José Roberto Torero. Seguem Internacional (Luis Fernando Verissimo), Grêmio (Eduardo Bueno), Atlético Mineiro (Roberto Drummond), Cruzeiro (Jorge Santana), Bahia (Bob Fernandes), Fluminense (Nelson Motta), Vasco (Aldir Blanc), Palmeiras (Mário Prata) e Corinthians (Washington Olivetto).Ruy Castro não precisou vasculhar arquivos para falar do time carioca. "Esse livro me acompanha há 40 anos", disse. O jornalista já flertou com o Flamengo antes, quando escrevia a biografia de Garrincha, o maior ídolo do Botafogo, mas agora debruçou-se para valer na história do time da Gávea.Time que ele não abandonou nem mesmo quando morou em São Paulo na década de 80. Castro enlouquecia por que os jogos do Rio não eram transmitidos por rádios e televisões paulistas. Como o radinho de pilha não tinha fôlego para receber os sinais das emissoras cariocas, ele procurou outros meios de acompanhar o Flamengo. Descobriu que o rádio do carro captava sem estática os jogos do Maracanã desde que estivesse em movimento. Durante muitos domingos os moradores de Perdizes devem ter estranhado aquele motorista vibrando e sofrendo atrás do volante.Ruy Castro não nasceu flamenguista, tornou-se um aos 10 anos. Assim como o publicitário Washington Olivetto não nasceu corintiano, embora o batismo alvinegro tenha ocorrido mais cedo, aos 4 anos. Foi um tio quem levou Olivetto para assistir ao Corinthians ser derrotado pelo Juventus. Comprou um uniforme completo para o sobrinho, que voltou do estádio encantado.O livro de Olivetto sobre o time do Parque São Jorge nasceu há dois anos, quando recebeu um amigo norte-americano em casa e o levou para a final do Campeonato Brasileiro contra o Atlético Mineiro. O visitante voltou para os Estados Unidos convertido e começou a mandar e-mails para Olivetto pedindo informações sobre o time."Eu mandava respostas exagerando os feitos do Coringão. Aumentava o número de títulos e inventava histórias", conta Olivetto. Essa correspondência será a base do volume, ainda sem título, que sairá no ano que vem.Quem não precisou ser catequizado para vestir a camisa de uma equipe foi o escritor José Roberto Torero, santista desde o parto. Quando nasceu, em 1963, o Santos tinha conquistado o bi-campeonato mundial. "Na hora em que vim ao mundo, ao invés de chorar, cantei: ´Agora quem dá bola é o Santos´", disse Torero, cujo livro, Dicionário Santista, sai no fim do ano. A opção pelos verbetes poupou o escritor de prender-se à cronologia, dando-lhe mais liberdade de contar histórias sobre o time de Pelé e Coutinho.

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