Escritores brasileiros falam sobre morte de Salinger

Ruth Rocha lembra do romancista, Marcal Aquino prefere o contista e Correa do Lago guarda carta do autor

estadao.com.br,

28 de janeiro de 2010 | 18h01

A morte do escritor J.D. Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio, em New Hampshire, nos Estados Unidos, repercute entre seus pares no Brasil.

 

RUTH ROCHA, escritora - "Ele foi um autor muito importante, porque conseguiu chegar perto dos adolescentes. Ao fazer seu romance com muita espontaneidade, de forma muito automática, ele conseguiu aquele ritmo, o que deu a ele um sucesso incrível. Eu não tenho muito para falar sobre ele porque li seu romance há muitos anos, e não era mais adolescente. Ou seja: não sofri aquele impacto".

 

FAUSTO FAWCETT, músico e escritor - "Eu gosto da mitologia que ficou cravada a partir da narrativa do livro O Apanhador no Campo de Centeio, ligada à estranheza do adolescente, da juventude americana. Passei a vida inteira ouvindo falar do livro, o que criou esse fascínio pela mitologia, muito mais do que pelo conteúdo do livro".

 

JORGE MAUTNER, músico, filósofo e escritor - "O livro dele influenciou muita gente. É meio zen-budista, e isso marcou muito. O zen já aparecia no existencialismo e no movimento beat, mas ele deu uma forma tipicamente norte-americana a essa leitura e criou um certo mito em torno dele próprio. Esse livro andava de mão em mão nos anos 60".

 

MARÇAL AQUINO, escritor - "Ao contrário da maioria, gosto do Salinger contista. Devo ser um dos pouquíssimos leitores, escritores ou não, que não curtem O Apanhador no Campo de Centeio, talvez por tê-lo lido tardiamente, quando já tinha vinte e pouco anos. E, no fundo, acho uma lástima que esse livro seja tão cultuado a ponto de praticamente impedir que as pessoas conheçam outras obras de Salinger, como o esplêndido Nove estórias, que mostra que ele foi um dos grandes mestres da narrativa curta.

 

FERREIRA GULLAR, poeta - "Eu li há tantos anos o Apanhador, nem lembro mais. Não tenho a menor ideia do que dizer. Prefiro não me manifestar"

 

PEDRO CORREA DO LAGO, livreiro, colecionador, editor e autor - "Todo mundo leu O Apanhador no Campo de Centeio, cuja primeira tradução, do Jorio Dauster, é primorosa. Eu não gosto do título, que é uma tradução literal. Dauster depois foi ministro e embaixador. Não me identifico muito com o livro, mas é claro que havia ali preocupações universais de adolescentes. Ele era mais conhecido pela misantropia. Eu presenciei um leilão de um ticket de cartão de crédito assinado por ele, que foi vendido por US$ 1 mil. Era mais cultuado nesse sentido, pelo fato de ter se retirado – embora com menos sucesso do que Thomas Pynchon, que se retirou completamente. Salinger ainda foi fotografado, e entrevistado, e se correspondia com amigos. Batia à máquina suas cartas e eu mesmo, que sou colecionador de correspondências, mantenho alguns textos que ele mandou a amigos. O personagem que ele criou, Holden Caufield, é muito interessante e marcadamente norte-americano. Era um autor legal. Só podia ser: para alguém que escreveu um único livro com esse nível de repercussão, tá bastante bom, não?"

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