Escritoras brasileiras para americano ler

Cresce o interesse pela literatura brasileira nas universidades americanas e entre os leitores. Vê-se até mesmo gente lendo Paulo Coelho no ônibus ou no metrô. Mas melhor exemplo disso é o lançamento de Fourteen Female Voices from Brazil, lançado recentemente pela Host Publications. É um óbvio trabalho de paixão. Elzbieta Szoka, uma professora da Universidade de Columbia, reuniu entrevistas de 14 escritoras brasileiras da atualidade e após as conversas com as autoras, publica contos, trechos de peças ou poemas de cada uma delas. A paixão pelo Brasil começou quando Elzbieta, uma polonesa de Lodz, viu, ainda adolescente, vários filmes do Cinema Novo. A partir daí, o Brasil ganhou cada vez mais importância para Elzbieta, que se tornou uma visitante assídua do País, uma devota da comida, da bossa nova e da caipirinha. Concluiu, então, sua tese de mestrado sobre umbanda. Ao mesmo tempo, ela foi descobrindo autores e livros. Traduziu a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja (publicada nos Estados Unidos como Two Lost in the Filthy Night), de Plínio Marcos. Estudou o escritor em profundidade e escreveu o ensaio A Semiotic Approach to Three Plays by Plínio Marcos. Continuou a cultivar sua ligação com o Brasil em muitos artigos e resenhas sobre literatura e teatro e nas aulas da Universidade de Columbia. Foi numa dessas classes, sobre o conto brasileiro atual, que surgiu a idéia de Fourteen Voices. Os alunos escolheram textos escritos por mulheres. "As vozes femininas, intrigantes e sedutoras ao mesmo tempo, eram novas para eles". Surgiu o livro. A professora polonesa fez várias viagens ao Brasil e submeteu dez perguntas em comum às escritoras, sobre o ofício delas, o ambiente familiar, as influências que sofreram, até mesmo sobre como vêem a globalização, colocando as respostas após um resumo biobibliográfico sobre cada uma. E quem são elas? Há escritoras conhecidas, estabelecidas como as acadêmicas Nélida Piñon e Lygia Fagundes Telles, outras um tanto menos famosas, mas de qualidade como Sonia Coutinho, Myriam Campello e Helena Parente Cunha, Astrid Cabral e Marly Oliveira. A quedinha de Elzbieta pelo teatro está presente na seleção de Maria Adelaide Amaral, Jandira Martini e Leilah Assumpção. A professora explica que, indo a um congresso de escritores em Belo Horizonte, detectou a existência de um forte e vigoroso elenco de escritoras "afro-brasileiras", das quais escolheu Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro e Evaristo Conceição. O fato de essas escritoras serem pouco conhecidas até no Brasil fala muito sobre as mútuas limitações entre as raças no País. Como toda antologista, Elzbieta Stoka sofreu por ter de deixar de fora autoras que admira. Ficaram de fora Lya Luft, Adélia Prado, Patricia Melo, Rachel de Queiroz ou Hilda Hilst (ainda viva na época), mas conseguiu incluir a escritora que acha "com mais cara do Brasil", que é Renata Pallotini. Da mesma Renata, Elzbieta fez uma antologia que será publicada este ano (em 2004), com poemas traduzidos pelo casal de especialistas em literatura brasileira Beth e David Jackson (da Universidade de Yale).

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