Escritoras abordam ética em Comendo entre as Refeições

Escritora bem-sucedida, Ruth Steiner éuma mulher solteira e sem filhos, que vive sozinha em Nova York.Ao conhecer Lisa Morrison, uma jovem inexperiente e talentosaque quer discutir seu trabalho de formatura, sua vida setransforma: aos poucos, a menina torna-se sua assistente,protegida, amiga, chegando a uma espécie de confidente. O cursoda peça "Comendo entre as Refeições", que estréia no TeatroFolha, na capital paulista, torna-se turbulento quando Lisaconsagra-se com um livro em que utiliza fatos pessoais de suamestra, narrados em tom de confissão. Eis o exato momento em queo texto do dramaturgo Donald Margulies ultrapassa o limite docorriqueiro para atingir o nível de uma obra instigante,justamente por propor a seguinte questão: até onde vão osdireitos de uma pessoa sobre a vida íntima de alguém? "Trata-se do confronto de valores nascidos em épocasdistintas", acredita a atriz Aracy Balabanian, que vive Ruth nopalco, mulher que se revolta ao descobrir sua vida íntimaestampada em livro. "Ruth é uma escritora que viveu uma grandeebulição cultural em sua juventude, enquanto Lisa pertence a umaera mais globalizada. Seria algo como o mundo moderno emconfronto com o pós-moderno." De fato, as diferenças marcam também a reação da platéia como foi notado durante a temporada carioca - enquanto aspessoas mais velhas revelavam preocupação com valores maisresistentes como ética e lealdade, os jovens aceitavam maisfacilmente a partilha pública de experiências. "Lisa é,realmente, uma mulher ambiciosa, mas acredito que ela fez o quedeveria fazer", comenta Virginia Cavendish, que vive a jovemescritora em "Comendo entre as Refeições". "Ruth é a raiz detudo o que Lisa conquista, daí ser natural interpretar comohomenagem escrever um livro sobre sua intimidade." Aracy, Virgínia e o diretor do espetáculo, o cineastaWalter Lima Jr., que está cada vez mais próximo do teatro,decidiram concentrar sua atenção no problema afetivo entre asescritoras e não propriamente na disputa ideológica. "Planejamostrazer o realismo cinematográfico a que Walter está acostumadopara dentro do palco, o que reforça a tensão entre elas",explica Virginia, também produtora da peça. Com isso, além de reduzir algumas falas do original (naverdade, foram retiradas referências muito específicas de NovaYork, além de citações a escritores pouco conhecidos do públicomédio brasileiro), o trio decidiu dar um título diferente à peça que já teve uma montagem brasileira antes - em 2000, BeatrizSegall e Rita Elmor viveram os mesmos papéis, sob a direção deMarcos Caruso. Na época, o espetáculo chamou-se "EstóriasRoubadas", uma apropriada tradução para o original "CollectedStories", e foi encenado com o texto original, que prevê umintervalo, dispensado na montagem atual. "Pensamos em vários títulos e decidimos excluir qualquervariação da palavra ?roubo? por entender que isso condicionariaa platéia a acreditar que houve realmente uma apropriaçãoindevida", conta Virginia. "Assim, escolhemos ´Comendo entre asRefeições´ que é justamente o título do trabalho de formatura deLisa." A discussão sobre o ?roubo? de idéias, que ganha maisforça atualmente com a expansão da internet, foi também tratadapelo autor da peça, Donald Margulies, quando conversou com areportagem por ocasião da primeira montagem. "Uma vezcompartilhadas com outra pessoa, as confissões tornam-sepúblicas", comentou ele, em entrevista, alimentando umadiscussão que não parece ter fim. "Cabe ao espectador julgar",diz Aracy. Comendo entre as Refeições. 90 min. 14 anos. TeatroFolha (305 lug.). Av. Higienópolis, 618, Shopping PátioHigienópolis, 3823-2323. 6.ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$40 e R$ 50 (sáb.). Até 1.º/10

Agencia Estado,

04 de agosto de 2006 | 18h29

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