Escritora Nadine Gordimer morre aos 90 anos

Ela foi uma das principais vozes na luta contra o apartheid

O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2014 | 10h59

Libertária, a escritora sul-africana Nadine Gordimer, premiada com o Nobel de Literatura de 1991 e reconhecida como uma das vozes mais poderosas contra o apartheid em seu país , morreu domingo, aos 90 anos, vítima de um câncer no pâncreas. Dois volumes de suas memórias lançados pela Editora Globo sob o título Tempos de Reflexão - o primeiro cobrindo de 1954 a 1989 e o segundo, de 1990 a 2008 - resumem os 60 anos da carreira literária da escritora, membro do Congresso Nacional Africano que lutou pela igualdade de direitos entre negros e brancos na África do Sul, processo que culminou com a ascensão de Nelson Mandela ao poder, em 1994, tornando-se o primeiro presidente negro do país.

A despeito de ter usado a literatura para expor a brutalidade do apartheid na África do Sul, Nadine Gordimer não se considerava uma escritora política. Em outras palavras, não foi o regime segregacionista sul-africano que impôs um tema à literatura da autora de O Melhor Tempo É o Presente, De Volta à Vida e O Engate, três dos seus melhores livros, embora todos eles tratem direta ou indiretamente do apartheid. Ainda que o drama social seja o ponto de partida, o processo de transformação individual dos protagonistas é o verdadeiro tema desses três romances. Eles falam, respectivamente, de amores inter-raciais, doenças provocadas pelo progresso e a vida numa aldeia miserável à beira do deserto, respectivamente.

Há um outro livro seu, Ninguém para Me Acompanhar, em que Nadine Gordimer coloca em dúvida o estabelecimento de um real regime democrático na África do Sul - e esse é o ponto culminante de uma discussão sobre sua descrença na simetria das relações sociais entre negros e brancos em seu país. No livro, publicado em 1994, justamente o ano em que Mandela foi eleito presidente, um exilado político volta ao país apenas para atestar que não há lugar para ele na África do Sul. O exilado continua sendo um outsider, mesma sensação que tem o casal de O Melhor Tempo é o Presente, ativistas que, mesmo já vivendo num regime democrático, sentem que o abismo entre negros e brancos continua intransponível e consideram a possibilidade de abandonar o país.

Não se pode dizer que Nadine Gordimer fosse, de fato, otimista quanto ao futuro da África do Sul. Embora nunca tenha sido presa, alguns de seus livros foram banidos pelo regime que pregava a divisão racial no país. A própria autora tentou, durante algum tempo, viver fora dele, na fronteira da Zâmbia, até atestar que as coisas não eram lá muito diferentes naquele país cobiçado pelos portugueses - na República da Zâmbia ela era considerada uma europeia, uma estranha, por seus amigos negros, como revelou.

De fato, suas raízes são europeias. Nascida em 20 de novembro de 1923 em Springs, cidade mineira a leste de Johannesburgo, Nadine Gordimer era filha de um imigrante judeu lituano, Isidore Gordimer, fabricante de relógios, e de uma senhora de origem britânica, Nam Myers, que jamais deixou de pensar um só minuto na Grã-Bretanha como sua verdadeira pátria. A escritora suspeitava que a mãe a boicotava - ela acabou com os planos da filha de ser bailarina, inventando uma deficiência coronária na menina. Também a usava para se aproximar de alguns homens, entre eles o médico que cuidava de Nadine quando criança. 

Histórias ainda mais íntimas foram contadas pelo biógrafo Ronald Suresh Roberts em No Cold Kitchen (2005), que deveria ter sido publicado pela Farrar, Straus & Giroux nos EUA e acabou saindo por uma pequena editora sul-africana - a primeira é a editora americana de Nadine Gordimer, que não autorizou a biografia. Nela, o biógrafo acusa a autora de “fabricar” algumas histórias narradas num ensaio autobiográfico publicado em 1954 na revista The New Yorker, definindo Nadine como “uma branca liberal e hipócrita cujas palavras mascaram uma atitude paternalista sobre a África negra”.

Um conto do livro Beethoven era 1/16 Negro, de Nadine, talvez dê razão à suspeita do advogado e biógrafo Suresh Roberts sobre esse paternalismo. O narrador diz algo como “houve um tempo em que negros queriam ser brancos; hoje os brancos querem ser negros; o segredo é o mesmo”. Ou seja, para Nadine Gordimer, a África do Sul empurra seus cidadãos para uma reinvenção contínua - e é possível que a escritora, mesmo sendo sincera em sua luta contra o regime do apartheid, que impôs a segregação durante 44 anos, não acreditasse em democracia racial. Em O Melhor Tempo É o Presente, por exemplo, a massa dos miseráveis aumenta a cada dia na África do Sul - e ela é formada majoritariamente pelos negros, exatamente como no Brasil. A decepção com a “democracia”, em ambos os casos, se torna inevitável.

Há exatos 40 anos Nadine Gordimer publicou um livro premiado, O Conservador (The Conservationist), que lhe trouxe a fama. Nele, um afrikaner calculista perde tudo o que tem - a mulher vai para a América, o filho gay liberal se afasta dele e, na propriedade que comprou, o corpo de um negro permanece insepulto, voltando à superfície durante uma enchente. Esse é o verdadeiro retrato da África do Sul por Nadine: o de um passado que insiste em ser presente.

Com Amós Oz, ela emocionou público na Flip em 2007

Nadine Gordimer veio ao Brasil em 2007 para o lançamento do romance ‘De Volta à Vida’, sobre um ambientalista que luta contra a construção de uma usina nuclear quando descobre que está com câncer e se torna, devido ao tratamento, ele mesmo algo radioativo. A mesa que dividiu com o israelense Amós Oz foi a mais emocionante daquele ano. Eram dois amigos conversando intimamente e de forma descontraída, com alegria e ironia, sobre literatura e política – mas dois amigos do peso de uma prêmio Nobel e de um dos escritores mais respeitados de sua geração. Ela comentou que nunca pensara em escrever sobre o apartheid, mas que aquela tornara-se uma questão existencial para ela. Em entrevista ao Estado, disse: “As raízes são importantes para minha inspiração”.

Frases de Nadine Gordiner:

"Durante toda a vida, estamos realmente escrevendo um único livro, que é uma tentativa de compreender a consciência do nosso tempo e lugar"

"Ele (Nelson Mandela) é o epicentro do nosso tempo – nosso, da África do Sul, e de vocês, onde quer que vocês estejam"

"A censura nunca termina para aqueles que a experimentaram"

"Nada factual do que eu escreva ou diga será tão verdadeiro quando a minha ficção"

Atualizado às 18h26.

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