Escritora indiana discute na Flip questões sobre identidade

Na noite de quinta-feira, Kiran Desai vai participar de debate na festa de Paraty

Agencia Estado

06 de julho de 2007 | 16h38

Em outubro, a rotina da escritoraindiana Kiran Desai virou de ponta-cabeça. Ao ser anunciada comovencedora do Booker Prize, o mais prestigioso prêmio literáriodo Reino Unido, por seu romance O Legado da Perda (Alfaguara,416 páginas, R$ 49), ela teve seu telefone repentinamente cheiode mensagens de três continentes e sua agenda passou a ternenhuma página em branco. Um dos compromissos, porém, ela juracumprir com muito prazer: nesta quinta-feira, 5, à noite, Kiran participa daúltima mesa do dia da Festa Literária Internacional de Parati,quando vai discutir, ao lado do angolano José Eduardo Agualusa,questões sobre identidade. Afinal, ela nasceu e passou boa parte da adolescência naÍndia até se mudar para o Reino Unido, aos 14 anos, e um anomais tarde para os Estados Unidos, onde terminou os estudos.Hoje, embora com apenas 35 anos, acumula uma admirávelexperiência, a ponto de ter escrito, com segurança, um granderomance - O Legado da Perda é uma delicada reflexão sobre asolidão do deslocamento, migração e identidade ao contar ahistória de um juiz indiano aposentado que vive ao pé doHimalaia com sua neta órfã e seu cozinheiro, diante de umainsurgência nepalesa. A prosa é cuidadosa, surpreendente e foiboa parte construída durante uma breve passagem pelo Rio deJaneiro, como Kiran conta na seguinte entrevista: Agência Estado - É verdade que você escreveu parte de OLegado da Perda quando esteve no Rio de Janeiro? Sim. Eu não conseguia escrever a história comdesenvoltura enquanto estava em Nova York, que é minharesidência oficial nesses dias. A forma como se edita livro lá émuito grande. A cidade é muito agitada e a escrita se parecemais com negócio que com arte. A América Latina era uma forma deliberdade. Primeiro, fui ao México, onde pensei que teria umacerta sorte porque, afinal de contas, é o lugar onde GabrielGarcía Márquez escreve (autor cuja obra encontra um profundo econa Índia). Até que, depois de outras paradas, cheguei a Ipanema,no fim de uma rua próxima ao Cantagalo, em um apartamentopintado de cores solares, com uma vista para as montanhas, o somdo cantar do galo. Vivi lá por seis meses e fui capturada, comoacontece com todo mundo, pelo Rio, a cidade glamourosa. A cidade influenciou o livro? Certamente. Era uma vida maravilhosa para um escritor -trabalhar olhando aquelas montanhas loucas, selvagens, além deescrever no ritmo de vida do Rio. Mas tenho uma dívida maisprofunda: permitiu que eu ampliasse os meus argumentos eexpandisse meu trabalho para algo além da mera referência daÍndia em relação ao mundo ocidental. Quando precisei escrevercenas de imigrantes, pude simpatizar com personagens de todo omundo em desenvolvimento, desenhar paralelos com a históriacolonial, evidenciar o fato de que estamos todos no mesmo ladonos grandes debates, compartilhar a experiência emocional quetemos na interação com as nações poderosas. Acho que isso foiimportante para traçar aquelas linhas. Estancar os prejuízoscriados pelo interesse único dos poderosos, que compõem umquadro formado unicamente pela tragédia do mundo emdesenvolvimento. Como foi o processo de escrita: vocêcomeçou pelos personagens ou pela trama? O livro teve início com os personagens, cada umconduzindo ao outro. Daí, surgiram os paralelos emocionais ehistóricos entre pessoas de diferentes partes do mundo, emépocas distintas, desde os dias da colonização até os atuais.Portanto, trata-se de um livro que tenta capturar essaspaternidades, o resultado emocional de uma viagem por meio dasgerações, o viver em um mundo marcado por um grandedesequilíbrio de poder. Qual a importância do dilema étnico emseu livro? Muitas pessoas acabam equiparadas em situações deconflito de interesses, bloqueadas por simplesmente não saberemcomo proceder. Os conflitos são antigos na minha parte do mundo,alguns até arraigados, o bom e o mau correm juntos, a pureza dojulgamento é uma busca falsa. Parece que qualquer movimento podecausar um dilema étnico. Há lugares grandes, dramáticos:Caxemira, Palestina. Mas em cada canto do mundo marcado por umaantiga história, alguém sempre vai perder a humanidade, afelicidade estará sempre comprometida. Como escritora, penso serimportante retratar esses dilemas morais, para nãosimplificá-los. O que pensa da escrita de V.S. Naipaul,especialmente de sua habilidade em traçar paralelos entre asexperiências pós-coloniais na América Latina, África e Ásia? Naipaul é o primeiro escritor que conheço que mostrouesse paralelo e sua relação com o Ocidente. Seu trabalho alteroua forma com a qual eu quis escrever sobre a Índia e sobre aquestão de ser indiano no mundo. Não me parecia justo prendermeu trabalho a apenas uma única posição. A perspectiva étnica deum texto muda, acredito, quando alguém se força a ter acesso aum ajuste mais amplo. É importante traçar as linhas entrepessoas e lugares de lados opostos do mundo. Você se sente liberada por ter duplacidadania? Isso me abriu portas de várias maneiras, além de tersido uma experiência desconcertante. Eu pude escrever sobre ummundo mais amplo, tive a liberdade de mudar, ganhei a riqueza daexperiência - mas também fui refreada pela realização da perda,de nunca ser hábil para escrever uma história inteira e nuncater a possibilidade de escrever sem uma certa amargura queprovém de uma difícil perspectiva. Também sei que, embora essacapacidade de viajar possa significar certa liberdade paraalguém de uma classe privilegiada, para muitas pessoas declasses mais pobres, esse movimento não significa ter liberdade.É mais a indicação de uma armadilha. Seus anos de formação foram passados noexterior. Assim, há alguma razão em particular de seus livros sepassarem na Índia? Descobri que era preciso retornar à Índia para completartodos meus argumentos. Afinal, o mundo ocidental podia oferecerapenas uma parte desse retrato - a outra metade da históriacontinuava presa ao outro lado do globo. E, também, paraconseguir a profundidade emocional e entendimento histórico,precisei voltar à Índia dos meus pais, dos meus avós. Portanto,esse livro foi uma viagem às origens, ao fato de ser indiano.Uma reafirmação que começou, penso, dentro de mim mesma, depoisde me assegurar que estava vivendo na América. Quando você escreve sobre você mesma, épossível atingir o extremo? O isolamento é essencial para se escrever. Esseafogar-se na própria consciência permite viajar para além, paraalgo mais profundo, para aqueles lugares excêntricos eembaraçosos que imagino atacados pela erosão que é viver sob oolhar do público. Sinto falta do tempo em que a ficção era maisestranha. Há alguma perda no fato de você serimigrante? Acho que sempre há ganhos (a riqueza da experiência, ohumor das contradições, os desentendimentos) e perdas. Haverásempre o aspecto de viver meia vida, de ter apenas a metade dahistória para contar. Tendemos a esperar por uma simplicidade daverdade, uma integridade que raramente nos é dada. Meu livroexamina vidas que são forçadas, por conta das circunstâncias, atenderem à hipocrisia, às aberturas e aos medos, ou às verdadesque não podem simplesmente ser alcançadas e acrescentadas acimade qualquer confiança. Os personagens entram em conflito com asidéias dos outros ou então pertencem a histórias e tempos que seperderam ou foram esquecidos. A alegria pode ter uma pequenadimensão. E conquistar um mundo mais amplo pode comprometer isso No livro, há também globalização,terrorismo e constatação de desigualdade social. Por queescolheu temas tão pesados? Não foi consciente. Eu estava escrevendo sobre umafamília. Mas, se alguém escreve sobre pessoas que viajam etrafegam entre dois mundos, automaticamente cai em grandesdebates de classe, raça, imigração, o medo que nasce daobrigação de compartilhar. Qual era sua expectativa de voltar aoBrasil? Você conhece algum romance brasileiro? Fiquei maravilhada por voltar a esse belo país. Eu mesinto afortunada. Fico feliz que festivais literários estejamproliferando fora da Europa e dos Estados Unidos. O Sri Lanka játem o seu, a Índia dispõe de vários, assim como China, África doSul. Sobre literatura brasileira, sim, conheço. Li Jorge Amadocomo todo mundo. E admiro muito Milton Hatoum, assim comopoetas: Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade. Aliás,tenho sempre ao meu lado uma antologia de poesia brasileira.

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