Natalie Behring/ Reuters
Natalie Behring/ Reuters

Escritora finlandesa Sofi Oksanen fala sobre 'Expurgo'

Romance revela laços de uma família e de uma nação com trama de fantasmas e segredos na Estônia

Maria Fernanda Rodrigues - O Estado de S. Paulo,

06 de março de 2012 | 14h29

Na lista das 5 mil pessoas que mais ganharam dinheiro na Finlândia em 2010, divulgada em novembro passado, Sofi Oksanen, de 35 anos, é a segunda escritora mais rica - entre os literatos, perde apenas para o autor celebridade Jari Tervo. Ela ocupa a posição número 3.333, com uma receita de 302 mil.

 

Sua boa saúde financeira naquele ano pode ser justificada pelo início do sucesso internacional de seu terceiro romance, lançado antes como peça de teatro. Expurgo, publicado na Finlândia em 2008, já teve os direitos vendidos para 43 países, ganhou prêmios e está prestes a virar ópera - a estreia na Finnish National Opera, em Helsinque, será no dia 20. Também vai ganhar versão para o cinema, com estreia em setembro.

 

Com toda essa divulgação e aceitação, Sofi é presença garantida na Feira do Livro de Frankfurt em 2014, quando a Finlândia será homenageada. Até lá, ela terá lançado o terceiro de quatro livros sobre o passado recente da Estônia. Os outros dois são Vacas de Stalin, inédito no Brasil, e o próprio Expurgo, que chega agora pela Record.

 

O interesse pelo pequeno país vizinho, de pouco mais de 1,3 milhão de habitantes e que viveu, entre 1940 e 1991, ora sob ocupação nazista, ora sob ocupação soviética, vem de sua mãe, que é de lá e emigrou para a Finlândia. Algumas histórias que a autora ouviu, como a de uma menina da família que foi levada para um interrogatório e nunca mais voltou a falar, alimentaram seu desejo de escrever Expurgo.

 

O livro acompanha o drama de duas mulheres: Aliide, que vive com seus fantasmas em Läänemma, região rural da Estônia, e Zara, uma jovem russa que ao fugir do cativeiro em Berlim, onde vivia para prestar serviços sexuais, acaba no jardim de Aliide, no país de origem da avó que vive em Vladivostok. O enredo, bem construído, vai e volta no tempo para revelar segredos de família até então inconfessáveis - tem início na juventude de Aliide, em 1936, passa por todo o sofrimento e resistência dos estonianos durante a ocupação soviética e chega a 1992, um ano após o fim da União Soviética, quando as duas se encontram. O processo de expiação é inevitável.

 

Há muitos temas e diferentes formas de ler a obra. O cotidiano na era Stalin e a ameaça da deportação para a Sibéria, espionagem, perseguição, transição de um país da antiga União Soviética para uma nação livre, tráfico humano e exploração sexual são algumas das questões políticas abordadas pela autora. Há também assuntos pessoais, como a relação de inveja entre irmãs, que pode mudar o destino de toda uma família. Sofi Oksanen concedeu por e-mail a seguinte entrevista ao Estado.

 

Como surgiu Expurgo?

 

Há algumas razões para eu ter feito esse livro. Quis escrever sobre a resistência passiva das mulheres - quando criança, ouvi muitas lendas sobre os "irmãos da floresta", que eram os membros da resistência da Estônia ocupada. Mas eles não teriam conseguido sem a ajuda das mulheres e das crianças, e eu quis contar o que significou para essas mulheres e crianças ajudá-los. Tinha também uma história na família de uma menina que foi levada para ser interrogada e ao voltar para casa estava bem fisicamente, mas nunca mais falou. Comecei a pensar no que poderia levar uma pessoa a esse silêncio. Um outro ponto: a narrativa soviética vem retratando a Europa há décadas. Então, há muitas histórias e vozes do lado oriental que merecem ser ouvidas.

 

O livro cobre um período recente da história e algumas pessoas que viveram esse momento ainda estão vivas. Como ele foi recebido pelos estonianos?

 

Expurgo foi o romance estrangeiro mais vendido na Estônia no ano em que foi lançado e continuou vendendo muito bem depois disso. Também ganhei alguns prêmios lá. Já as resenhas foram mais como ensaios sobre o passado, com alguns críticos querendo dar sua opinião sobre o assunto. E ninguém se interessou pela questão do tráfico humano - em outros países esse foi o tema que mais chamou a atenção.

 

Há mais livros e filmes anti-Hitler do que anti-Stalin. E algumas pessoas ainda sentem uma certa nostalgia pela época em que o socialismo se apresentava como solução à desigualdade. Você vê um hiato na produção literária e cinematográfica? Por que poucas pessoas escolhem contar a história a partir do ponto de vista que você contou?

 

O socialismo nunca proporcionou a mesma qualidade de vida a todos. A União Soviética foi construída a partir da ideia de hierarquia, e não de igualdade. As ordens de Lenin eram no sentido de liquidar todas as pessoas que não o apoiavam. O socialismo e o comunismo baseiam-se em se livrar de alguns grupos de pessoas e roubar suas propriedades. Isso não é igualdade. O Gulag não é tão conhecido porque durou mais e porque nunca foi condenado como os crimes nazistas foram. Nunca houve um julgamento como o de Nuremberg. Também não é sexy e agradável filmar na Sibéria. E também porque a Rússia não é muito prestativa aos pesquisadores - num breve período dos anos 90, o acesso aos arquivos era fácil, mas eles estão fechados novamente. Mais: o Gulag não é conhecido porque a KGB, a organização responsável por ele, nunca foi condenada. E você não enfrenta problemas profissionais se tem uma passagem pela KGB em seu currículo. Putin é um ex-oficial da KGB; então, você pode até se tornar um presidente com esse tipo de experiência. Mas não dá para imaginar um político alemão tendo o carimbo da SS em seu passado. Além disso, os soviéticos nunca foram muito ativos em documentar seus crimes como os nazistas foram. Mas é preciso lembrar que levou cerca de 20 anos depois da guerra para que o Holocausto começasse a ganhar atenção. Então, leva tempo.

 

Você cresceu muito perto de países ocupados e agora escreve sobre o período. Chegavam informações sobre eles à Finlândia?

 

Sempre existiram buracos até mesmo na Cortina de Ferro. A diferença entre um país ocidental como o meu e outros países ocidentais é basicamente a política internacional. Enquanto os outros não se importam com a Rússia, na Finlândia é ela quem define as linhas dessa política internacional. A Estônia não existia para a Finlândia durante a era soviética. Gerações mais antigas se lembravam da Estônia. As mais novas, não. Por isso não existe uma primeira geração de imigrantes estonianos na Finlândia. E a reação contra a imigração de lá era muito hostil. Fomos um dos últimos a reconhecer sua independência.

 

Seu livro já foi vendido para 43 países. Por que imagina que ele tenha despertado o interesse de editoras de tantos lugares?

 

Imagino que isso queira dizer que a história é universal. Além do mais, todas as ocupações são parecidas, os civis que sofrem com as guerras compartilham o mesmo sentimento e os Estados totalitários não diferem muito uns dos outros.

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