Escritora espanhola Rosa Montero participa da Bienal

A escritora espanhola Rosa Montero é uma das convidadas especiais da megafeira. Vai lançar e autografar seu mais novo romance, História do Rei Transparente, além de participar de debate com a escritora e roteirista de cinema e TV Fernanda Young - autora de O que é de Verdade e o Que é de Mentira nas Narrativas Literárias? -, no auditório do Salão de Idéias, no sábado, dia 11, às 11 horas.Leitora apaixonada por assuntos relativos à Idade Média, Rosa Montero descobriu-se tomada pelo assunto há dez anos, quando se entregou a diversas leituras. O contato tão próximo e constante com aquele ambiente incentivou sua imaginação a ponto de ela escrever um de seus melhores romances, História do Rei Transparente, que será lançado na Bienal do Livro pela Ediouro, com a presença da autora. Trata-se da história de Leola, uma camponesa adolescente que, no século 12, se veste com a armadura de um guerreiro morto e começa, então, um relato de sua vida, envolvida sempre na incerteza e na luta por uma justiça que, como o horizonte, se afasta a cada passo. Jornalista de profissão, Rosa debruçou-se sobre um grande desafio, criando uma narrativa que se desenvolve não apenas na primeira pessoa como no presente contínuo, ou seja, não há flashbacks. Como surgiu o interesse pela Idade Média? Qual a aproximação que você vê entre essa época e hoje? Sempre gostei muito de História. Há dez anos, fui tomada por uma paixão pela Idade Média e me dediquei dois ou três anos lendo muitas obras de medievalistas. Como eu estava cercada por esse hábitat mental, os primeiros traços do romance apareceram em minha cabeça nessa época. Nunca decidi escrever uma história passada na Idade Média, mas surgiu assim. Não escolhemos as histórias, mas somos escolhidos por elas. Por outro lado, apesar de muito documentado, História do Rei Transparente não é um romance histórico. Ou seja, minha intenção principal não é recriar o mundo do século 12, mas sim como é o mundo e ponto final. O mundo de todos nós. O fato de utilizar a história como ponto de partida limita o trabalho psicológico dos personagens? Ao contrário, História do Rei Transparente é um romance de aventuras que trata da aventura de viver. Esses traços tão universais da vida podem ser equiparados tanto no século 12 como no atual. Como foi conciliar histórias de superstição e magia com uma época tão racional como a atual? Nossa época é apenas racional na aparência, não na realidade. A vida é um mistério e nosso mundo, tão positivo, não admite, não administra esse mistério, criando uma inquietude e um vazio nas pessoas que, desgraçadamente, só é tratado pelo obscurantismo, o fanatismo e por seitas pseudomágicas e destrutivas. Para mim, é óbvio que a realidade não é apenas tangível e mensurável. Ela inclui também o fantástico, os sonhos e até os delírios do ser humano. As primeiras frases do livro são fortes (Sou mulher e escrevo. Sou plebéia e sei ler). Qual sua intenção em iniciar dessa forma?Minha intenção? Creio que é uma pergunta incontestável. Um romance é um todo, sua estrutura, sua voz narrativa, a maneira como está escrito, o que diz respeito. A história vai crescendo pouco a pouco, desde a pequena idéia original. Floresce naturalmente, organicamente, com uma árvore. E essas palavras iniciais surgem como que necessárias. É Leola, minha personagem, que as diz. E o livro não podia começar de outro modo, sendo ela quem é e narrando a história que conta. Por que as mulheres são personagens que despertam mais atenção que os homens na história? Em primeiro lugar, a protagonista e seu "alter ego" são mulheres. E isso já lhes reserva um papel prioritário, como é natural. Na verdade, acredito que essa pergunta não seria proposta a um escritor homem... Mas, vejamos. Claro que não me comparo a Cervantes, mas utilizo seu romance porque é conhecido de todos: por acaso você se perguntaria, lendo o Quixote, por que nesse livro os homens despertam mais atenção que as mulheres? Te digo que não tenho nenhum interesse em escrever sobre mulheres. Acho desgastante, quando uma mulher escreve uma história protagonizada por uma mulher, se considere que está escrevendo sobre mulheres, especialmente quando um homem escreve um romance estrelado por um homem, é dito que se trata do gênero humano. Também escrevo sobre isso, até porque 51% do gênero humano é feminino. O aprendizado de vida de Leola é, para mim, exatamente o mesmo que tem um homem. Além disso, há personagens masculinos no livro que me encantam. León, o guerreiro, por exemplo, ou o Cavaleiro de Ballaine. Outro aspecto curioso do livro é a comparação que qualquer leitor pode fazer entre as Cruzadas daquela época com a situação do Islã na atualidade. O que pensa disso? O século 12 foi fascinante, uma explosão de progresso e modernidade. De fato, tudo o que somos hoje começou durante esse século. Esse espírito progressista durou mais de cem anos e só foi abreviado por forças retrógradas. Nesse sentido, acredito sim que estamos em um momento parecido, pois vivemos um tempo também de trincheiras, em uma luta entre o progresso e a involução reacionária. Em relação ao enfrentamento entre o cristianismo e o Islã, creio não ser esse o problema principal, nem no meu romance nem na realidade atual. O problema está no conflito entre a razão e a tolerância, por um lado, e o fanatismo tirânico do outro. Esse conflito existe desde o princípio dos tempos e não se limita ao âmbito religioso: por exemplo, agora estamos também vivendo tempos de fanatismo hipernacionalista. O texto é escrito em primeira pessoa. Como foi manter esse fôlego? O que mais me deixou orgulhosa na narrativa é justamente essa voz. Porque não é apenas uma primeira pessoa, mas também por ser em presente contínuo, ou seja, Leola conta o que passa à medida que vai acontecendo. É uma voz narrativa dificílima de se manter durante um romance tão grande. Às vezes, pensei que não conseguiria manter esse fôlego, mas, ao final, acho que consegui e me parece que essa voz do presente contínuo é o maior acerto da narrativa, o que torna a leitura tão vertiginosa, sensorial, física. Como uma jornalista como você, que corre contra o tempo, consegue se entregar a projetos tão exigentes e que consomem tempo como a escrita de um livro? É que não há nenhuma relação entre o jornalismo e a narrativa. São mundos distintos que pertencem a esferas diferentes da vida e da personalidade. Por exemplo, no jornalismo descrevo o que sei, o que estudei e perguntei. E na narrativa, conto o que não sei o que sei, porque os romances saem do inconsciente. O jornalismo faz parte de minha vida social, é apenas um trabalho, bonito, mas um trabalho. E a narrativa é minha vida, a estrutura básica de minha personalidade. Como muitos autores, comecei a escrever quando criança: aos 5 anos, escrevia terríveis contos de ratinhas que falavam. Então, desde que me lembro como pessoa, estava escrevendo. Essa maneira de viver tem um ritmo largo. Por isso jamais assino o contrato de um romance antes de terminá-lo, para que ninguém me pressione.

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