Escritor recorre ao cinema para ensinar filosofia

O livro O Que Sócrates Diria a Woody Allen (Planeta, 304 págs., R$ 47), do catedrático espanhol Juan Antonio Rivera, espécie de O Mundo de Sofia transposto para o cinema, é uma aula de filosofia para novatos, ainda que não tão didático como o best-seller de Jostein Gaarder. Rivera recorre a filmes clássicos (Casablanca), cult (Blade Runner) e blockbusters (Matrix) para descobrir como as idéias de Platão, Sócrates, Santo Agostinho e Nietzsche foram contrabandeadas para a tela por grandes e pequenos autores do cinema. Woody Allen, claro, está entre os primeiros e tem dois filmes analisados no livro: Hannah e Suas Irmãs e A Rosa Púrpura do Cairo. Para quem esqueceu a história de Hannah, basta lembrar da seqüência mais hilariante, em que Woody Allen, na pele do hipocondríaco marido de Mia Farrow, passa por uma crise existencial e tenta se apegar à religião, comprando livros, crucifixos e imagens de santos. Tudo para descobrir o sentido da vida. Não encontra consolo em nenhuma das crenças. A solução é o amor, aponta o autor, evocando o epílogo do clássico Cidadão Kane, em que, depois de uma existência poderosa, o público assiste à derrocada do magnata da imprensa Charles Foster Kane. Trata-se de uma obra de iniciação filosófica, embora discuta temas profundos como o livre-arbítrio, tema do assustador filme de ficção de Stanley Kubrick, A Laranja Mecânica. É interessante a relação que Rivera estabelece entre filmes tão diferentes como Viver, de Kurosawa, e Blade Runner, de Ridley Scott, para concluir que os dois tratam do mesmo tema: a busca de um sentido para uma vida menos contemplativa que a do burocrata Watanabe do filme japonês, ou do replicante do inglês Scott. De modo geral, conclui Rivera, "a consciência e a premeditação ficam de fora e vamos traçando esse caminho, nosso itinerário pessoal, de forma muito rotineira".

Agencia Estado,

03 de janeiro de 2005 | 16h59

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