Escritor Milton Hatoum vê sua obra viva no palco

Premiado romance 'Dois Irmãos' ganha adaptação para o teatro com direção de Roberto Lage

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

13 Agosto 2008 | 16h30

Soava como tarefa quase impossível - adaptar para o palco o livro Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Lançado em 2000, premiado com o Jabuti, considerado por críticos o melhor romance brasileiro dos últimos 15 anos, tem trama que gira em torno do conflito entre os gêmeos Omar e Yaqub, descendentes de libaneses que vivem em Manaus, uma história narrada sob o ponto de vista de Nael, filho da empregada, que suspeita ser filho de um dos gêmeos.   Veja também: Ouça trechos da entrevista com Milton Hatoum    Difícil era dar conta das muitas histórias que se entrelaçam em Dois Irmãos e, o mais arriscado, dos ecos que ressoam nesse romance, soprados de muito longe, de Caim e Abel, ecos da floresta, de ancestrais origens indígenas, da brutalidade da colonização, de vivências ouvidas por avós imigrantes, de conflitos decorrentes da passagem do rural para o urbano. Mas, a julgar pelo ensaio acompanhado pelo Estado no início da semana, é acerto feliz a adaptação de Jucca Rodrigues e tem tudo para emocionar a platéia o espetáculo dirigido por Roberto Lage que estréia na quinta-feira, 14, no Centro Cultural Banco do Brasil.   Surpreende o tom alcançado pelo elenco, que consegue dar vida aos personagens com a intensidade exigida, sem rompantes ou arroubos. Assim, conduzem o espectador com delicadeza pela conturbada trajetória da família formada pelo patriarca Halim, interpretado por Luiz Damasceno, sua mulher Zana, vivida por Imara Reis, e seus filhos, os gêmeos Omar (Jiddú Pinheiro) e Yaqub (Gabriel Pinheiro), e Rânia (Tatiana Thomé). Viviane Pasmanter é Domingas, a índia empregada da casa. E Rodrigo Ramos, seu filho Nael, o narrador, o que desconhece suas origens, o brasileiro pobre, nem índio, nem imigrante, em busca de seu lugar numa nação em movimento. Sacudida, perto do desfecho da história, pelo golpe militar de 1964.   Bete Correia interpreta Livia, a mulher que provocou a primeira briga grave entre os gêmeos, ainda meninos, e a conseqüente divisão familiar. Foi a essa atriz, sua amiga, que Milton Hatoum cedeu os direitos de adaptação. "Eu só concordei quando soube quem seriam as pessoas envolvidas, o Lage, o Damasceno...", diz Hatoum. Quanto à adaptação para as telas, ele cedeu os direitos especificamente para o diretor Luiz Fernando Carvalho, que vai transpor o romance para a TV, mais uma microssérie do projeto Quadrante. "A idéia é adaptar histórias de cada região. Começou com A Pedra do Reino, de Suassuna, o próximo será Dom Casmurro e o meu será o quarto."   O espetáculo surgiu de uma brecha aberta na programação do CCBB. "O tempo de preparação era curto, mas tínhamos o romance para trabalhar enquanto Jucca fazia a adaptação." Pelo visto, deu certo.     Dois Irmãos. 100 min. 14 anos. Centro Cultural Banco do Brasil (125 lug.). Rua Álvares Penteado, 112, Centro, telefone 3113-3651. 5.ª a sáb., 19h30; dom., 18 h. R$ 15. Até 5/10

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