Escritor foi alvo de preconceito

Erico Verissimo foi um dos poucosescritores brasileiros que conseguiram viver do seu trabalho.Ele e Jorge Amado, antes do fenômeno Paulo Coelho. Mas falemosde escritores. Como Jorge, Erico também foi vítima depreconceito. Se o público gostava, o que ele escrevia não podiaser muito bom. Uma cultura elitista como a brasileira nãoassimila esses casos raros em que qualidade e sucesso não seanulam. O segredo estilístico de Erico Verissimo é tão fácil dediagnosticar quanto difícil de imitar: era um excepcionalnarrador. Contava histórias com fluência, prendia a atenção,comovia leitores. Construía personagens como mestre e algunsdesses tipos se incorporaram ao imaginário nacional. Ou alguémque tenha lido Erico Verissimo é capaz de esquecer de RodrigoCambará e Ana Terra, de O Tempo e o Vento, ou Eugênio eOlívia, de Olhai os Lírios do Campo?Natural de Cruz Alta, Erico Verissimo (1905-1975) afiou sua penanos suplementos literários de Porto Alegre, em particular nosjornais Correio do Povo e Diário de Notícias. Já morandona capital do Rio Grande do Sul, publicou seu primeiro romance,Clarissa, em 1933. Mas o grande sucesso junto ao públicoviria em 1938 com Olhai os Lírios do Campo, romancehumanista que formou gerações de leitores.Na recente reedição da Globo, o volume contém um prefácioescrito pelo autor em 1966. Nele, Erico diz que sempre haviaestranhado o sucesso do livro. Acha-o francamente mal construído, os personagens inverossímeis, a tese cristã da protagonistainaceitável, etc. Pode ser. Mas talvez ele tenha sido rigorosodemais com a própria obra. De fato, há nesse relato toda umaaspiração humanística, crítica em relação ao materialismo social e ao mesmo tempo despolitizada. No mal-estar que existia entreas duas guerras na Europa, Erico fazia a médica Olívia apegar-sea valores da caridade cristã e do despojamento. Talvez houvesseum tanto de ingenuidade, mas era uma mensagem (com perdão dotermo) que ia ao encontro do que os leitores desejavam.Mas claro, Erico, escrevendo o prefácio em 1966, tinha já aperspectiva de quem havia navegado águas bem mais profundas.Havendo publicado sua trilogia O Tempo e o Vento, podiacontemplar com certo distanciamento o juvenilismo tardio deOlhai os Lírios do Campo.O tríptico, composto pelos romances O Continente (1949), ORetrato (1951) e O Arquipélago (1962), é visto pelacrítica como a mais interessante tentativa de recriaçãogenealógica e política do Rio Grande. Os personagens dasfamílias Terra e Cambará conduzem a saga ao lado de figuras dahistória real do País, como Getúlio Vargas e Borges de Medeiros.Digamos assim: mesmo para uma pessoa desinformada das principaispassagens históricas da primeira metade do século, o livro farásentido porque há uma trama que se sustenta por si só. Quemconhece algo dos fatos sairá enriquecido, porque a História, àsvezes tão abstrata nos livros escolares, ganha corpo, paixão esangue naquelas páginas. Para um brasileiro que nunca tenha idoao Rio Grande, será uma introdução bastante completa à culturagaúcha. Cultura e mentalidade, porque em O Tempo e o Ventohá toda uma sintaxe, toda uma gramática, todo um modo decolocar-se no mundo que ganha vida e é passado ao leitor.Provavelmente a trilogia seja o ponto alto da carreira de EricoVerissimo, seja pela amplitude do painel pintado seja pelapermanência dos personagens. São livros que não se lêem,propriamente - devoram-se, sendo impossível parar depois que secomeça a ler. Erico tem o senso da saga, quer dizer aquelaarticulação precisa entre a pequena e a grande história, entreos destinos diminutos dos personagens e o grande destino dasnações. Ele mesmo, de certa forma, se coloca como personagem, umintelectual deslocado naquela família de machos e mulherestristes, espremido entre o pai dominador e um tio fanfarrão.Esses traços de força e legibilidade do estilo de Erico fizeramcom que alguns de seus livros ganhassem adaptação para o cinemae a TV. Um Certo Capitão Rodrigo (Anselmo Duarte, 1972) eAna Terra (Durval Garcia, 1971) são tirados de O Tempo e oVento, que também virou minissérie da Globo nos anos 80.Noite (Guilherme Loureiro) é adaptado de uma novela deErico. Já Olhai os Lírios do Campo virou novela da Globoem 1980, com Cláudio Marzo e Nívea Maria nos papéis principais.

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