Escritor e médico Moacyr Scliar na Bienal do Livro

Um médico escritor ou um autor médico - Moacyr Scliar nunca se importou em definir suas atividades, pois está ciente de construir uma carreira única, cujo principal interesse são histórias humanas. Especializado em saúde pública, o Scliar médico mantém íntimo contato com diversos tipos de pacientes, o que inspira o Scliar escritor a manter, há oito anos, uma coluna com crônicas no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. São textos que tratam de assuntos diversos, como alimentação, exercícios físicos, medicina tradicional ou alternativa, sexo, dor, memória, velhice e morte. Histórias nem sempre alegres, mas tratadas com delicadeza como comprova o livro O Olhar Médico (Editora Ágora, 184 páginas, R$ 33), que traz uma seleção com 55 daquelas crônicas."Tenho experiência como médico para conversar com a população", conta o escritor, que exerce hoje essa facilidade para transmitir informação a partir das 11 horas, quando se encontra com o público no Salão de Idéias da Bienal do Livro do Anhembi. Lá, Scliar pretende demonstrar, com humor e sabedoria, seus conhecimentos da anatomia e da alma humana.Um dos assuntos que mais inspiraram suas crônicas (e que ainda lhe é alimento básico) são os mitos em torno de doenças. Scliar conta que o imaginário popular é recheado de crendices que, muitas vezes, especialmente quando é levado a sério pelo paciente, pode até agravar a doença. "Há dois tipos de mitos, que dependem da classe social", observa. "Nas mais populares, há histórias como aquela, muito comum no Rio Grande do Sul, de que se o sujeito urinar contra o vento, contrai gonorréia. Já nas classes mais abastadas, o interesse maior é por medicina alternativa."Scliar conta que, por meio da relação com diversos pacientes, consegue estabelecer uma certa intimidade, o que permite descobrir histórias curiosas. Claro que todas as identidades são preservadas, interessando apenas os problemas.É nesse ponto que o cruzamento do trabalho do médico se aproxima do ofício do escritor. Para Scliar, a literatura trata da condição humana e suas ansiedades. E, quando doente, o homem sente-se mais próximo das experiências com a morte que, provavelmente, é a maior das angústias humanas. "O medo de morrer e o sofrimento causado pela doença nos fazem mais frágeis e nos tiram as máscaras que usamos no dia-a-dia", afirma.As crônicas, escritas entre 2002 e no ano passado, estão agrupadas no livro por meio de temas. No primeiro, médicos e medicina, Scliar trata de questões éticas dos profissionais e deles com seus pacientes. É curioso o texto Piedosa Mentira, em que são discutidas dolorosas questões: como dar uma má notícia? Como dizer a uma pessoa que ela está com câncer terminal? Scliar pondera: nem a mentira piedosa nem o brusco anúncio.No grupo seguinte de textos, que trata de substâncias, o escritor busca desmistificar certas lendas envolvendo ingredientes que pertencem à rotina alimentar. O uso do açúcar, por exemplo. Scliar relata a briga econômica travada por conta do produto (a Organização Mundial da Saúde recomenda um consumo que, se seguido, poderia comprometer os lucros de empresas poderosas, como a de refrigerantes) e aponta caminhos que levam à saudável moderação.Depois de tratar da importância dos exercícios físicos no segmento seguinte, Scliar chega ao tema que desperta a atenção de todos, independentemente de idade: sexo. Assim, além de apresentar algumas explicações para a atração e o desejo, ele lembra de alguns tabus envolvendo a menopausa até chegar a um engraçado texto sobre o interesse humano por variações nas posições sexuais. "O leão não lê Kama Sutra antes do coito com a leoa. O macaco não estuda as posições que vai adotar com a macaca. O coelho traça a coelha sem murmurar ternas palavrinhas de amor. Para os animais, sexo é fisiologia. O ser humano, porém, fez nessa área um investimento emocional", escreve.

Agencia Estado,

17 de março de 2006 | 11h53

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