ESCRITOR DE OLHAR AFIADO

O americano Lee Siegel estreia amanhã como o novo colunista do Caderno 2

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h06

O escritor americano Lee Siegel costuma dizer de si mesmo: "Em matéria de esportes, gosto dos dez minutos finais de qualquer partida". Em se tratando de jogo ruim, minutos finais podem ser o prenúncio do alívio. Ou, em boas pelejas, o melhor do espetáculo. No caso específico, a afirmação bem define o estilo de um dos mais prolíficos e afiados críticos culturais dos Estados Unidos. Siegel só entra em cena nos momentos decisivos da partida ao interpretar os fenômenos culturais do seu tempo: a internet, a indústria das celebridades, o império do efêmero, a trivialização de boa parte da mídia. Entra para mudar o placar e agitar a torcida, o que poderá ser conferido a partir de amanhã, em sua estreia como colunista do Caderno 2.

O New York Times o define como "um dos mais eloquentes e corrosivos críticos do país". O britânico Guardian já o colocou no patamar de "um dos poucos heróis do seu tempo", enquanto o jornal concorrente, o Times londrino, o compara a "um pássaro raro entre os críticos americanos - sonoro e erudito". Autor do recém-lançado Are You Serious? - How to be True and Get Real in the Age of Silly ( Você fala sério? Como ser verdadeiro e cair na real na era da idiotice), Siegel combina rigor e humor ao tratar de temas contemporâneos, investindo tanto contra o politicamente correto, quanto contra a cultura do vale-tudo, à qual atribui o rótulo "whateverism". Não à toa provoca, relembrando personagem de um dos romances do escritor americano Don DeLillo: "Por que hoje em dia é tão difícil ser sério e tão fácil ser muito sério?".

Ainda não traduzido no Brasil, Siegel conquistou leitores mundo afora com livros de temas instigantes, como Against Machine - Being Human in the Age of the Electronic Mob (Contra a Máquina - Ser Humano na Era da Mobilização Eletrônica), de 2008, em que questiona certos dogmas da era digital e o risco de um 'blogofascismo', termo que cunhou ao criticar a retórica do insulto e da intimidação que percorre a web. Ou Falling Upwards - Essays in Defense of the Imagination (Caindo pra Cima - Ensaios em Defesa da Imaginação), de 2006, demonstrando versatilidade intelectual ao tratar de Harry Potter a Chekhov, de D. H. Lawrence a Sex and the City.

Lee Siegel nasceu no Bronx em 1957 e fez toda a sua formação acadêmica na Columbia University, em Nova York. Escreve para inúmeras publicações americanas de prestígio, como as revistas New Yorker, Harper's Bazaar e Slate, suplementos literários do New York Times e Los Angeles Times, e tem atuado como colunista do site The Daily Beast, fundado e dirigido pela jornalista americana Tina Brown. Em 2002 recebeu o National Magazine Award e em 2011 foi um os três jurados do PEN Galbraith Award. Além da presença forte no jornalismo, é reconhecido pelos ensaios de arte e prefácios em torno de grandes nomes da literatura mundial. David Rieff, da New School for Social Research (NY), escreveu que "ler Siegel é lembrar do que o criticismo costumava ser em termos de furor, aprendizado, escrita e, por que não, valores". Em 2007, Siegel foi afastado da revista de opinião The New Republic, bíblia do liberalismo moderno, depois de travar uma batalha com internautas que o criticavam com base na difamação pessoal.

Ao aceitar o convite do Caderno 2, pela primeira vez Lee Siegel assina uma coluna exclusiva fora dos Estados Unidos. Seus textos serão publicados quinzenalmente às segundas-feiras, em alternância com a coluna da jornalista carioca Lúcia Guimarães, também radicada nos EUA. Assim como Lúcia, Siegel tratará de múltiplos temas a partir de um posto de observação avançado - no seu caso, uma agradável residência em New Jersey, a uma hora de Nova York, onde vive com a mulher Christina Gillham, editora e escritora como ele, mais os filhos Julian, de cinco, e Harper, de um ano. Entre a labuta intelectual e a lida com crianças, o novo colunista do C2 lê muito, corre diariamente, busca ver exposições de arte, ouve música clássica, ópera e jazz, "cuido das mágoas e penso no futuro". A seguir, algumas das opiniões de Siegel:

Atenção é commodity. "Hoje o criticismo na América enfrenta um grande obstáculo. São tantos os eventos e tantas as formas de expressão que ficou difícil uma simples avaliação escrita ser notada. Cristo, se ressuscitasse outra vez, teria que avisar no Twitter, o que causaria 15 segundos de comoção e depois as pessoas voltariam a buscar as últimas sobre Lindsay Lohan. Outro desafio envolvendo a crítica é que, no fundo, existem poucas obras de arte, livros e filmes que valham à pena. Em parte porque formas de arte se esgotaram, outras estão em fluxo revolucionário, outras demandam atenção. E atenção tornou-se uma commodity preciosa nos dias atuais.

Copycat culture. "O lado brilhante desse mundo é que as pessoas estão desejando escutar novas vozes e ter novas experiências artísticas ou intelectuais. O tempo de esgotamento das formas culturais é também um tempo de oportunidades para novas formas. Mas, diante de tantos eventos, não é raro que o excelente seja posto no mesmo patamar do trivial. A 'copycat culture', cultura da macaquice e imitação, não gosta da originalidade. A meu ver, a originalidade da Lady Gaga reside precisamente no fato de Lady Gaga desconstruir a originalidade. Existe pouca tolerância com as personalidades realmente originais hoje em dia.

Trivial cansa. "Holofotes, câmeras indiscretas, voyeurismo de bilhões de olhos: tudo isso teve um efeito trivializante na mídia americana. Porém, se avaliarmos o pêndulo selvagem que move o capitalismo nos Estados Unidos, a trivialização de tudo pode nos levar a um poderoso backlash, um recuo para reagir mais fortemente. Nos próximos anos veremos mais gente marginalizando a falsa autoridade dos famosos e o olhar vazio das câmeras. O movimento Occupy Wall Street, sem rosto e sem liderança estabelecida, já é uma manifestação dessa saturação pelo trivial. É o lado bom do anonimato. O lado ruim está aí na internet. Falo de um anonimato abusivo, difamador, praticado por covardes pretensamente destemidos.

A sede humana. "Apenas dez anos atrás, a blogosfera criou uma plataforma para o anonimato. Nasceu daí um infantilismo pernicioso: pessoas pregam qualquer tipo de injúria ou rótulo nas outras, sem se responsabilizarem pelo que fazem. Este é só um aspecto da chamada 'free culture', que também explodiu pelos seus excessos no setor bancário e imobiliário. Estamos pendurados pela ponta numa cultura que já está morrendo, enquanto outra quer nascer. A sede humana é por coisas verdadeiras, extraordinárias, que nos trazem à vida".

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