Escritor das horas vagas

Tradutor e autor, Rubens Figueiredo leva o 1º lugar do Portugal Telecom

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h07

Rubens Figueiredo é escritor nas horas vagas e só se anima em escrever quando tem algo a dizer, deixando de lado inspirações e abstrações. Tradutor de importantes obras, como a recente edição de Guerra e Paz, de Liev Tolstoi, feita pela primeira vez diretamente do russo, já lançou oito livros, dois deles premiados com o Jabuti. Seu último romance Passageiro do Fim do Dia (Companhia das Letras) lhe tomou quatro anos. Experimentava aqui, abandonava o livro ali para adiantar uma tradução, e tanto tempo de dedicação e preciosismo resultaram no livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, anunciado na terça-feira, em São Paulo, e no prêmio de R$ 100 mil.

"Procurei abordar coisas cotidianas e sem nexo à primeira vista, algumas banais e triviais, para encontrar nelas sinais de processos vitais que percorrem toda a sociedade", disse. A história, que se passa em um único dia dentro de um ônibus, já havia sido considerada a melhor do Prêmio São Paulo de Literatura em agosto, quando Rubens Figueiredo ganhou R$ 200 mil.

Em festa comandada por Débora Bloch e José Wilker na Casa Fasano, que se revezavam com os próprios finalistas na leitura de trechos dos dez livros selecionados, o português Gonçalo M. Tavares e Marina Colasanti também foram premiados.

Vencedor do Prêmio Portugal Telecom em 2007 com Jerusalém (Companhia das Letras), Tavares conquistou o segundo lugar e levou R$ 35 mil. Uma Viagem à Índia (LeYa), vencedor de quatro prêmios em Portugal, não é livro fácil e à primeira vista pode assustar. São 480 páginas de uma narrativa sem estilo definido - não é romance e não é poesia - e o leitor mais desavisado pode imaginar que a história se passa na época das grandes navegações.

O livro conta sim a saga de um português, Bloom, que vai à Índia. Mas a viagem acontece hoje e ele segue em busca de um mestre espiritual que acabará se revelando mais materialista que o próprio protagonista. "Há dois percursos importantes hoje: do Ocidente para o Oriente à procura do espírito e do Oriente, que parte para o Ocidente à procura da matéria. E os dois se chocam", comentou. Antes da revelação dos vencedores, ele disse que não se preocupava com prêmios e que seu trabalho era escrever. Talvez por isso Tavares seja um dos escritores mais premiados e festejados do momento, e tenha recebido de José Saramago um elogio para deixar qualquer escritor com inveja: "Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos. Dá vontade de lhe bater", disse o Nobel na entrega do Prêmio José Saramago concedido a Tavares em 2005.

Marina Colasanti, que volta a São Paulo no fim do mês para receber o Jabuti pelo juvenil Antes de Virar Gigante e Outras Histórias (Ática), ficou feliz com o terceiro lugar, mas depois bateu a culpa. "Olho para meus companheiros e penso que alguém vai ficar triste porque não ganhou ou que outras pessoas precisavam mais do dinheiro", comentou a escritora que ganhou R$ 15 mil. Mas ela considera que o prêmio de um escritor é a circulação do livro. "E a importância de um prêmio é que eles carregam o livro. É disso que o Brasil precisa."

Já em sua 9.ª edição, o Prêmio Portugal Telecom reconhece o melhor livro escrito em língua portuguesa lançado no Brasil no ano anterior à premiação. Nove dos dez finalistas participaram da festa e três deles vieram da Europa especialmente para isso - Gonçalo Tavares e João Tordo, de Portugal, e João Almino, da Espanha. Tordo, aliás, vai ter de se explicar em casa. "Minha mãe me proibiu de voltar a Portugal sem o prêmio", brincou.

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