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Escritor critica desigualdade no Brasil e divide opiniões em abertura da Feira de Frankfurt

Luiz Ruffato falou de violência, pobreza e questões sociais em seu discurso; Vice-presidente Michel Temer foi vaiado

Maria Fernanda Rodrigues - Enviada Especial / Frankfurt, O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2013 | 19h07

Antes de embarcar para Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato, um dos preferidos dos leitores alemães, já tinha dito que seu discurso de abertura da 65.ª edição da maior feira de livros do mundo incomodaria. E incomodou na mesma medida em que encantou o público ao fazer referências à história e à situação atual do País. Pouco depois, em sua fala, o vice-presidente Michel Temer acabou vaiado por parte da plateia que compareceu ao evento.

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso.” Foi assim que Ruffato  começou sua fala, em que resgatou as raízes do País e tratou da violência e da discriminação em todas as suas formas. “Nascemos sob a égide do genocídio”, disse. E foi além: “Se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.”

O escritor não economizou em estatísticas de violência e de suas consequências, sem deixar de ressaltar que houve avanços. E terminou seu discurso dizendo que acreditava, “talvez ingenuamente”, no papel transformador da literatura. “Filho de uma lavadeira analfabeta e de um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. (...) E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade.”

Ruffato foi aplaudido por exatamente um minuto – algumas pessoas aplaudiram de pé. Nenhum dos presentes – a maior autoridade da Alemanha foi Guido Westerwelle, ministro das Relações Exteriores, que defendeu uma cadeira permanente para o Brasil no Comitê de Segurança da ONU e elogiou o recente discurso sobre espionagem feito pela presidente Dilma Rousseff nos Estados Unidos –, conseguiu tal feito.

O vice-presidente Michel Temer, por sua vez, foi até vaiado ao final de sua fala. Talvez inspirado pelo discurso de Ruffato, talvez para responder às firmes críticas que o escritor fez ao Brasil, Temer decidiu contar parte de sua história de vida, mais precisamente a de sua transformação em leitor. Foi uma professora que dizia que a literatura o levaria para longe de onde morava a sua grande inspiradora.

Temer falou sobre política, democracia, o País hoje. “O Brasil cresceu muitíssimo num prazo mínimo de 25 anos. É interessante ver que pessoas que estavam na quase pobreza absoluta cresceram socialmente. E, hoje, aqui, nós tivemos mais um exemplo disso.”

No discurso que Michel Temer preparou e não fez, e que foi distribuído em inglês, alemão e português na cerimônia de abertura, não havia esse comentário e nem referência à sua carreira de escritor. Ele já estava nos agradecimentos finais quando não resistiu e confessou: “Eu já tinha escrito livros técnicos quando cometi uma ousadia literária e escrevi um livro de poemas. Publiquei timidamente e não recebi críticas. Não recebi elogios, mas não recebi críticas, o que já é uma grande coisa para quem está na vida pública.” Ele falava sobre o recente Anônima Intimidade (Topbooks).

"Numa cerimônia oficial, um vice-presidente não pode fazer um discurso de improviso”, comentou o escritor Ziraldo. Ele também não gostou da fala de Ruffato. Considerou-a inapropriada. “Aqui não era o lugar. Ele deu todos os dados da miséria brasileira, que encontramos no Google. Se fosse em Doha, tudo bem”, comentou, referindo-se ao Fórum Econômico Mundial. Quando Ruffato terminou e a plateia começou a aplaudir, ele, dedo em riste, disse: “Não tem que aplaudir!”. Gostou, porém, da participação de Ana Maria Machado, que também discursou e sugeriu que a plateia não procurasse exotismo e confirmação de clichês na literatura brasileira,

“Ruffato me representa e esse discurso talvez seja a melhor coisa que venha a acontecer nessa feira”, disse o escritor Paulo Lins. “Fiz um discurso em homenagem ao meu pai e à minha mãe, que já morreram. Eles eram a parte mais esquecida da sociedade brasileira”, disse Luiz Ruffato ao Estado.

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