Escritor cria um mundo soterrado

Werner Kleeman, de 91 anos, estava com J.D. Salinger quando a unidade deles, o 12º Regimento de Infantaria, desembarcou na Normandia no Dia D da 2ª Guerra Mundial. Os dois se conheceram três meses antes e Kleeman achava o outro um tanto peculiar. "Ele se negava a amarrar as correias do capacete. Fazia o que queria fazer", conta o veterano. Além das memórias vindas dos muitos anos de amizade que se seguiram depois da guerra, ele tem outra lembrança daquele companheiro esquisitão: nove das cartas que recebeu dele entre 1945 e 1969. Kleeman guardou as cartas no cofre de um banco longe da casa onde mora, no bairro de Queens, em Nova York. A notícia sobre elas surgiu na Der Spiegel ao mesmo tempo que as cartas de Salinger para Michael Mitchell foram reveladas pela Morgan Library. Kleeman as mostrou ao jornalista Mark Pitzke, que o conhecia por sua história particular contada em reportagens anteriores da revista.

, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2010 | 00h00

Judeu nascido na Bavária, ele foi preso pelo regime nazista e levado para o campo de concentração de Dachau. Liberado, fugiu para Nova York, alistou-se no Exército dos Estados Unidos, ganhou cidadania americana e foi lutar contra os soldados de Hitler na Europa. Foi lá que conheceu Salinger, em março de 1944. Kleeman servia como intérprete e o escritor, como membro da inteligência militar.

Nas cartas ao amigo de trincheira, Salinger escrevia à máquina e assinava à mão com seu apelido, Jerry. Na primeira, enviada em abril de 1945, usou apenas "Germany" (Alemanha) como endereço do remetente; na maioria das outras, essa identificação era "Windsor, Vt.", cidadezinha de Vermont em que ficava o correio usado então pelos moradores de Cornish, onde o escritor viveu por mais de 50 anos.

Assim como nas cartas para Mitchell, Salinger escrevia para Kleeman sobre todo assunto que amigo trata com amigo, do crescimento dos filhos, do suicídio de Hemingway (na guerra, os dois tiveram encontro regado a champanhe com o escritor) ou do filhote de husky que criava. / T.C.

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