Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Escritor chileno Alejandro Zambra lembra dos silêncios da ditadura

Autor de 'Bonsai' e 'A Vida Privada das Árvores' lança 'Formas de Voltar para Casa'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2014 | 20h26

Uma ditadura não é formada apenas por mandantes intransigentes e revoltosos incansáveis – no meio do caminho, há sempre uma população silenciosa, que vive aquele período sem heroísmo, com medo ou indolência. É sobre essas pessoas que o escritor chileno Alejandro Zambra trata em Formas de Voltar para Casa, que a Cosac Naify lança na segunda-feira.

Fruto de anotações que o autor tomou durante quatro anos, a narrativa alinha momentos fictícios com reais ao mostrar um homem que relembra sua infância, passada durante a ditadura (1973-1990) de Augusto Pinochet, uma das mais sangrentas da América Latina, promovendo, segundo dados oficiais, 1.200 desaparecimentos, 3 mil execuções e inúmeros casos de tortura.

"Mais que narrar os feitos, interessava-me mostrar como convivemos com o passado, com a necessidade de entendê-lo, de mostrá-lo, de indagar quem somos", comenta Zambra, 38 anos, que conversou por e-mail com o Estado. "O narrador do livro tem muito de mim, mas me parece que o importante é que esse ‘eu’ é também, em certa medida e apesar de tudo, um nós. Creio que um problema dos chilenos da minha geração, nascidos em meados dos anos setenta, é esta hesitação entre o ‘eu’ e o ‘nós’."

Por que uniu real e ficção para transmitir sua mensagem?

Não acredito muito nessas categorias de ‘ficção’ e ‘não ficção’, pois todos os romances são autobiográficos, em certa medida. Gostaria de pensar que isso tem a ver com a poesia, que se relaciona de maneira muito mais problemática e evasiva com a ficção. Formas de Voltar para Casa não é mais autobiográfico do que Bonsai ou Vida Privada das Árvores, mas não aparenta sê-lo, talvez por ser meu primeiro romance escrito em primeira pessoa. Mais que narrar os feitos, interessava-me mostrar como convivemos com o passado, com a necessidade de entendê-lo, de mostrá-lo, de indagar quem somos. O narrador do livro tem muito de mim, mas me parece que o importante é que esse ‘eu’ é também, em certa medida e apesar de tudo, um ‘nós’. Creio que um problema dos chilenos da minha geração, nascidos em meados dos anos 70, é essa hesitação entre o ‘eu’ e o ‘nós’.

Por que a história é narrada a partir do olhar de um menino?

Creio que, em boa medida, esse romance nasceu do desejo de recordar melhor, com mais precisão, essa época quase sempre envolta em sombras, até no presente. Quando lembramos da infância como adultos, tendemos a idealizá-la ou ter dela a pior das imagens, pois é perturbador saber que estivemos ali sem ter consciência daquilo que estava ocorrendo. Mas alegar inocência é tão absurdo quanto se culpar retrospectivamente. Esse é um dos problemas centrais que quis abordar no romance – não para escrevê-lo, e sim por ser um dos problemas centrais da minha vida. E logo cheguei à ideia desse narrador, que não é um menino, e sim um adulto lembrando da infância, mas tentando recordar bem, evitando catalogar de antemão a experiência.

Você usou o romance para poder ir ao fundo de sua história pessoal, de sua relação com seus pais e sua infância?

Claro. Essa é uma maneira de encarar a obra. Quando crescemos, tornamo-nos outras pessoas e, em algum momento, perdemos totalmente o elo com a criança que fomos. Isso é natural, mas também artificial. Este romance é o livro de alguém que quer entender de onde vem, sem fechar o passado – ao contrário, abrindo-o, permitindo a circulação das histórias, por mais anódinas ou tristes que sejam. Meu interesse era falar sobre essa classe média ou média-baixa da qual venho, das pessoas que viveram aqueles anos sem heroísmo, com medo ou indolência, sem participar ativamente, silenciosos e/ou silenciados.

Pretendia escrever um romance no qual ninguém é inocente?

Sim. Sempre quis indagar como a história particular dialoga com a sociedade. Creio que nada é totalmente íntimo. Nada está à margem da história, que afeta e infecta nossas vidas permanentemente.

Qual é a importância dada à perspectiva do narrador? Há um elo entre perspectiva e verdade?

O romance foi escrito em primeira pessoa, mas creio que são dois narradores parecidos, mas não idênticos. Esse deslocamento da perspectiva me importa muito, sendo para mim o núcleo do romance. Não sei o que seria a verdade, a não ser por algo que buscamos e que nunca fixaremos definitivamente. Mas creio que a perspectiva permite um olhar mais pleno. Olhar e ver-se olhando.

Seus personagens lembram do passado de forma distinta. A tentativa de definir uma versão verdadeira do passado tem alguma possibilidade de sucesso?

Não acredito na possibilidade de se chegar a consensos, mas isso não importa; o importante é o diálogo, a busca. Não há versões finais nem verdadeiras, creio que o melhor seja tentar compreender a própria história e a das demais pessoas, e quem sabe destruir as pontes que parecem separá-las, distanciá-las. Distanciar o eu do nós. Creio que a literatura nunca simplifica os processos, mas revela sua complexidade, ou demonstra que as simplificações que os políticos buscam fazer são ilusórias e instrumentais. Tudo é sempre infinitamente mais complexo quando observamos mais de perto.

Os chilenos hoje precisam enfrentar o passado e reconhecer o papel que desempenharam?

Sim. Hoje e sempre. Uma sociedade é mais lúcida se está constantemente formulando seu presente, ou buscando compreender a relação entre passado e presente.

O narrador sente vergonha do fato de não ter perdido ninguém durante a ditadura?

Não, o que ele sente é que essas mortes, das vítimas da ditadura, não pertencem a ele, mas não lhe são alheias. Creio que o narrador sente a amargura de olhar para o passado. Uma sensação de duelo coletivo. A ditadura de Pinochet chegou ao fim muito depois do seu término oficial, pois, durante a década de 90, ele conservou um poder real: foi comandante-chefe das forças armadas e em seguida senador vitalício. A ditadura começou a terminar quando Pinochet foi detido em Londres e terminou definitivamente em 2006, com a morte dele. A sociedade chilena demorou muito para curar as feridas, ainda abertas. Ao lembrar da ditadura, o mais importante continua sendo recordar os mortos, lembrar que muitos parentes ainda não encontraram os restos de seus irmãos, seus pais, seus filhos. Mas aqueles que não sofreram de maneira direta, por sermos crianças e estarmos protegidos, participam agora do duelo coletivo. Formas de Voltar para Casa é um romance sobre a legitimidade da dor. Ninguém pode se colocar no lugar das vítimas, mas é necessário participar do duelo, a partir de um lugar diferente. E creio que a maneira de participar seja não negar a experiência que tivemos desse tempo, por mais anódina que seja, não calá-la, revivê-la, com precisão, com amor, com vontade, com as melhores palavras que encontremos.

FORMAS DE VOLTAR PARA CASA

Autor: Alejandro Zambra

Tradução: José Geraldo Couto

Editora: Cosac Naify (160 págs., R$ 29)

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