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Escritor Carlos Fuentes ganha importante prêmio jornalístico

'Para que a ficção seja ficção, a imprensa deve ser a expressão da verdade', disse o escritor em seu discurso

EFE,

07 de setembro de 2009 | 20h36

Ao receber o Prêmio González-Ruano de Jornalismo nesta segunda, 7, em Madri, o escritor mexicano Carlos Fuentes disse que é importante deixar para a literatura "a verdade da mentira" e para a imprensa "proibir a mentira da verdade".

 

Para que a ficção seja ficção, a imprensa deve ser a expressão da verdade", disse o escritor. Quando o romance se torna a verdade na ficção, é fiel a si mesmo, mas quando a imprensa transforma a verdade em ficção, o resultado é condenável", acrescentou Fuentes ao agradecer o prestigioso prêmio em um jantar assistido por inúmeras personalidades.

 

Carlos Fuentes, um dos escritores mais importantes de língua espanhola mereceu o prêmio por seu artigo "El Yucatán de Lara Zavala", publicado no jornal mexicano Reforma em 7 de abril de 2008.

 

Nesse artigo, ele reflete sobre a relação entre realidade e romance, o mesmo tema com o qual o autor de La Muerte de Artêmio Cruz dedicou suas palavras de agradecimento do prêmio concedido pela Fundação Mapfre que, pela primeira vez, homenageou um escritor hispano-americano.

 

Fuentes, que sabe fazer um discurso com saborosas anedotas, contou uma sobre o colega Gabriel García Márquez, quando o Prêmio Nobel colombiano era chefe de redação do jornal El Universal, de Cartagena. Certo dia, Márquez fechou a edição do dia seguinte e foi para casa. Mais tarde, recebeu um telefonema de um redator alarmado, que dizia ser preciso mudar a primeira página, porque o cônsul japonês havia morrido na cidade. "Que pena, mas isso não nos obriga a mudar a primeira página", disse o autor de Cem Anos de Solidão. "Mas é que ele foi comido por um crocodilo!", exclamou o redator.

 

Fuentes disse que essa história serve para "ilustrar a ambígua relação entre a notícia de jornal, a ficção e a história" e para reconhecer quanta razão existe no ditado que diz que "a realidade supera a ficção".

 

"Creiam, o romancista latino-americano tem que lidar com uma realidade ao lado da qual a ficção se desvanece de tão pálida", assegurou o escritor, que citou ainda o exemplo de Antonio López de Santa Anna (presidente do México por 11 vezes), que perdeu uma perna na chamada Guerra dos Pasteis, contra a França em 1838, (no poder por 11 vezes) enterrou a extremidade perdida na catedral. "O presidente, prosseguiu Fuentes, teve que ver sua perna "desenterrada e arrastada pelas ruas toda vez que caiu da presidência, e teve de enterrá-la de novo, ele voltou ao poder por 11 vezes.

 

A tarefa do romancista, destacou, é "superar a realidade, aproveitar a notícia e criar uma obra literária", e assim tem feito escritores tão importantes como Augusto Roa Bastos, Vargas Llosa, Alejo Carpentier e García Márquez, em algumas de suas obras mais famosas.

 

Às vezes, acrescentou o autor de , os romances surgem de "notícias modestas", como as que inspiraram Flaubert a "criar Madame Bovary e Stendhal a criar Julien Sorel no romance O Vermelho e o Negro". Segundo Fuentes, "o romancista pode pegar uma notícia de jornal e transformar a pequena história de uma mulher desesperada e um seminarista assassino em características exemplares da condição humana, que poderão ser lidos não apenas uma vez, mas muitas, em decorrência da ambiguidade própria da história." Em contrapartida, diz, "a notícia não pode se dar a esses luxos, porque o jornalista que incorre na ambiguidade deforma a notícia".

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