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Escrita terapêutica

Quando escrevemos sobre algo que estamos atravessando somos obrigados a colocar as coisas em ordem para que façam algum sentido

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 03h00

Às vezes, acho que nossa cabeça parece uma feira livre, daquelas bem lotadas. Soltos em nossa mente, os pensamentos são como feirantes e clientes se esbarrando o tempo todo, falando ao mesmo tempo, uns gritando, outros procurando algo, uns curiosos, outros famintos. É difícil encontrar ordem no meio daquela bagunça.

Em tempos tranquilos isso até que não atrapalha muito – se você só estiver passando para pegar um pastel com caldo de cana, sem pressa, a desordem não te traz problema. Mas imagine que seu filho saia correndo no meio da multidão – dá para entender o impacto de as coisas estarem tão desordenadas.

Nas fases da vida em que não estamos atravessando conflitos, não há grandes preocupações, não precisamos tomar decisões importantes, deixar os pensamentos errantes não é tão prejudicial. Infelizmente tais momentos não são a regra– parece que mais frequentemente do que não, nos vemos evolvidos em dilemas, ansiedades, tensões. E nesses momentos pode se tornar impossível encontrar uma solução se apenas olharmos para a feira livre dentro da nossa cabeça. É preciso organizar a bagunça.

Uma solução muito eficaz, mas pouco lembrada, é por as coisas no papel. Ou, vá lá, numa tela. Quando escrevemos sobre algo que estamos atravessando somos obrigados a colocar as coisas em ordem para que façam algum sentido: datas, personagens, causas e consequências, vão sendo encadeados de forma a montar um texto coerente, ajudando-nos a ordenar nossas impressões, percepções e levando a maior clareza do cenário. É como se o pai desesperado na feira pudesse organizar: adultos para um lado, crianças para o outro, feirantes atrás das barracas, todo mundo quieto – encontrar o filho perdido ficara muito mais fácil.

Talvez por isso o escritor Ernest Hemingway dizia que a máquina de escrever era seu analista. Eu não iria tão longe a ponto de dispensar os psicoterapeutas e incluir datilografia no SUS, mas de fato há muitas evidências científicas de que intervenções baseadas na escrita são eficazes para nossa saúde emocional. Fora – ao menos para mim - o apelo estético da máquina em si.

Apaixonado por instrumentos mecânicos que sou desde pequeno, sempre fui fascinado pelas máquinas de escrever. O intricado ajuste de peças colaborando entre si para culminar com um tipo metálico batendo contra a fita impregnada de tinta marcando indelevelmente o papel soa como música para mim. (E não só para mim: em 1950 o compositor Leroy Anderson compôs uma pequena sinfonia para orquestra e máquina de escrever, imortalizada por Jerry Lewis anos depois).

Imagine, então, a alegria infantil que me invadiu quando descobri que a Lego iria lançar um kit para montar uma máquina de escrever. O modelo foi postado por um fã no site Lego Ideas e recebeu os necessários dez mil votos para concorrer ao posto de produto oficial. Vencedor, foi anunciado esse mês e deve chegar ao Brasil em outubro.

Eu, que sempre dei meus filhos como desculpa para brincar com Lego, agora não preciso mais: daqui para frente quando quiser brincar com os blocos eu pedirei licença e direi que estou indo para minha terapia.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’ 

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