Escrita que nasce de imagens fortes

O escritor Ronaldo Correia de Brito, que estará na Flip, volta ao conto em Retratos Imorais, com 22 histórias reais

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2010 | 00h00

Vencedor do prêmio São Paulo de Literatura no ano passado, o escritor e médico cearense Ronaldo Correia de Brito participa no dia 5 de uma mesa sobre a escritura fabular contemporânea na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), autografando a seguir seu novo livro, Retratos Imorais. Voltando ao gênero conto que o consagrou, após lançar há dois anos o romance Galileia, Correia de Brito lida desta vez com um universo diferente dos livros que o identificaram como o grande renovador da literatura nordestina (Faca, O Livro dos Homens). São 22 contos divididos em três distintos segmentos, elegendo mães, homens e tipos desajustados que escapam à categorização. O que une todos eles é o fato de terem sido inspirados por imagens fortes.

Não se trata de simples ilustração, mas de evocação, que transcende o nível emocional para ganhar o intelectual. O primeiro conto, Duas Mulheres em Preto e Branco, recorre, por exemplo, ao caótico universo fotográfico do canadense Robert Polidori, que provocou polêmica ao fotografar vítimas do furacão Katrina mortas em suas camas. Polidori é radical: não existe ficção mais estranha que a realidade.

O conto de abertura comprova a tese de Polidori: a de que a realidade constrói paradoxos tão gritantes que se torna impossível entendê-la. Nele, duas médicas histéricas discutem, trocam insultos por causa de uma traição, partem para a agressão, abjuram a ética profissional, bebem como gambás e o autor conclui, como o cineasta Peter Cohen, que "há solenidade na ruína". Em síntese: trata-se de uma "arquitetura da destruição" esse relacionamento conturbado que custou ao autor longos anos de construção. Aliás, como quase todos os contos.

"Desta vez quis publicar um livro em que os contos não guardassem unidade e até coloquei datas para evidenciar a distância entre eles", diz o escritor. Algumas narrativas são de 30, 35 anos atrás e foram reescritas entre um plantão e outro do médico, que segue a tradição de Chekhov, Guimarães Rosa e Pedro Nava, grandes autores de jaleco branco. É o caso do conto Romeiros com Sacos Plásticos, sugerido pelas fotos dos romeiros de Juazeiro do Norte pelo francês Patrick Bogner. Correia de Brito, claro, conhece a realidade cearense melhor que Bogner - ele é do sertão do Inhamuns -, mas emerge das fotos a visão epifânica dos detalhes captados pelo olhar estrangeiro. Como médico, ele observa corpos e paisagens com olhar de entomologista e muitos dos contos são sugeridos por tatuagens, fotos, gravuras, desenhos e filmes. Há uma profusão de citações no livro.

No entanto, prevalece nele a questão ética que assombra os médicos: quem salvar numa emergência? As mulheres se dão melhor nessa história. Os homens dos contos não passam de crápulas repulsivos e muitos, revela Correia de Brito, são replicantes de modelos reais. "Registrei suas histórias pois os relatos de pacientes se perdem, mas, mesmo ao falar desses tipos, busco sempre o poético de uma situação, talvez como o irlandês Colm Tóibin em Mães e Filhos (nove contos sobre a presença/ausência das mães)."

De fato, um dos contos mais comoventes encerra mãe e filho numa ilha deserta, ele um faroleiro e ela uma cega sanfoneira, ambos condenados ao isolamento, à solidão e à morte por falta de combustível na ilha. É um dos melhores momentos desses Retratos Imorais.

TRECHO

"Expulsam-me do Paraíso. Ganharei o pão...

com o suor...

...de meu próprio rosto... A cidade que atravesso a pé é como as cidades que vislumbramos em janelas de trens, pela última vez. Heráclito e o rio que não para de fluir. Quando voltar algum dia, se voltar, serei outro. Terei esquecido vocábulos e sotaques. Igual a um cego, a memória buscará cheiros que me guiem por antigas sensações."

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