Escrita para ser livre

A fragilidade da escritora sul-africana Nadine Gordimer é apenas aparente. Aos 88 anos, seu físico, é certo, exibe limitações, mas seu rigor intelectual continua intacto. E beira a ferocidade quando se dispõe a lutar pela liberdade. Autora de mais de 30 livros - em sua maioria, crônicas sobre a deterioração social que marcou seu país durante o regime do apartheid -, ela construiu uma prosa em que dramatiza as difíceis escolhas morais surgidas em uma sociedade marcada pela segregação racial.

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2012 | 03h09

E o fôlego segue perfeito: Nadine continua liderando o protesto contra as propostas draconianas do governo sul-africano para amordaçar a mídia. "Se o trabalho e a liberdade do escritor estão em risco, a liberdade de cada leitor também está ameaçada", disse ela ao Sabático, de sua casa, em Johannesburgo, em entrevista exclusiva, por telefone. O pretexto da conversa: o lançamento, no Brasil, do primeiro volume de Tempos de Reflexão (editora Globo), conjunto de artigos escritos entre 1954 e 1989; o segundo, que cobre o período 1990-2000, deve sair em novembro.

São textos tanto analíticos como confessionais. Ganhadora do Nobel de literatura de 1991, Nadine Gordimer reflete sobre a vida e a carreira, revelando-se autora e ativista política. Uma das grandes defensoras dos direitos de Nelson Mandela, advogado que se tornou o mais importante líder da África negra, Nadine lutou pela sua liberdade quando ele foi preso por atuar contra o apartheid.

A essência, na verdade, é a defesa incondicional da liberdade de expressão. A profissão de fé está em um artigo escrito em 1985, O Gesto Essencial. Ali, Nadine observa: "Os escritores que aceitam uma responsabilidade profissional na transformação da sociedade estão sempre procurando meios de concretizá-la que suas sociedades nunca poderiam imaginar, muito menos exibir: demandando de si mesmos meios que penetrarão como uma furadeira para liberar o grande jorro primal da criatividade, alagar os censores, limpar os códigos civis removendo sua pornografia de leis racistas e sexistas, lavar as diferenças religiosas, extinguir as bombas de napalm e os lança-chamas, eliminar a poluição da terra, mar e ar, e conduzir os seres humanos à rara fonte estival de alegria pura." E conclui: "Cada um tem sua própria varinha de vidente, mantida sobre o coração e o cérebro."

Tempos de Reflexão é notável também pelo relato aberto que Nadine faz de sua juventude, quando os hábitos dos brancos sobrepunham os dos negros. Na verdade, eram seres invisíveis - para ela, um dos fatores mais confusos que marcou seu crescimento na África do Sul era a estranha mudança na sua percepção dos africanos ao seu redor e na sua atitude em relação a eles. "Vim a ter consciência da presença deles com uma lentidão incrível, parece-me agora, como se por meio de uma faculdade que naturalmente deveria ter feito parte do meu equipamento humano desde o início", escreve ela em Uma Infância Sul-Africana, de 1954. Leia a seguir a entrevista em que Nadine fala, com invejável vigor, sobre sua incansável militância.

Seu trabalho atual se notabiliza principalmente pelo combate à censura em seu país.

Sim, ainda corremos o risco da mordaça, pois agora, a comissão que avalia a mídia ameaça voltar. Escrever pressupõe uma interação com os leitores. Se o trabalho e a liberdade do escritor estão em risco, a liberdade de cada leitor também está ameaçada. Depois de lutar tantos anos contra o apartheid, período em que vi pessoas morrendo pela causa da liberdade, não imaginava que fosse preciso lutar novamente contra o governo.

Como a senhora define seu engajamento?

Bem, sou uma escritora, portanto, a liberdade de expressão é primordial para minha atividade. Acredito na existência de duas bases para a liberdade. Uma é a de se poder votar à sua escolha e outra é a liberdade para se dizer o que pensa, seja a imprensa, seja o cidadão comum. Isso pode parecer um tanto óbvio para você, mas, acredite, é uma conquista para meu país.

Para a senhora, escrever é um caminho para compreender a vida?

Sem dúvida. É preciso desfrutar do direito de publicar livros e de expressar seus pensamentos. Digo isso porque um livro acaba sendo mais importante que jornais e revistas por conta de sua perenidade: ele se transforma em um testemunho para a posteridade.

De fato, suas palavras persistem há décadas, como comprova Tempos de Reflexão, repleto de textos ainda atuais. Ao escrever, como a senhora lida com a posteridade?

Não penso dessa forma, ou seja, em quão eterna será minha escrita. Minha preocupação é mais imediata, com a mensagem que espero passar, minha visão crítica e, especialmente, com a possibilidade de estabelecer a comunicação com o leitor.

A senhora escreveu, certa vez, uma frase impactante: "A verdade não é tão bela como a luta para conquistá-la." Isso, de algum modo, se tornou a meta da sua escrita, não?

Para mim, a escrita tem de ser honesta, seja qual for seu formato: ficção, artigos, contos. Isso significa explorar por meio da palavra o que é a vida. Descobrir o que significa ser humano, englobando seu passado, os problemas atuais e as perspectivas de progresso para o futuro. Não me apego à religião, sou ateia, acredito apenas na existência das diferentes possibilidades de relacionamento que isso implica.

Como se deve lidar com o passado?

Obviamente não se pode esquecê-lo ou ignorá-lo - isso é estupidez. Mas deve existir um limite para que o passado não interfira em seus passos atuais e, principalmente, não seja a única forma de criar o futuro. Isso pode resultar na manutenção de um atraso social, o que, infelizmente, ainda se vê em muitas regiões da África.

E como a senhora analisa a atual situação da África do Sul?

O debate parece horrorizar nosso presidente Jacob Zuma, que tenta amordaçar a imprensa, especialmente a televisão. Isso é um crime, pois o governo deve ser transparente e não se preocupar em evitar o surgimento de críticas. É claro que não estou pregando uma total transparência - segredos militares têm de ser conservados, mas precisamos estabelecer uma relação mínima com os governantes e saber o que eles pensam, como planejam, o que executam. Tal atitude leva a outro problema grave, a corrupção, que, se não é uma exclusividade do meu país, aqui parece bem enraizada: as pessoas que estão no poder não conseguem se contentar com o que têm e se tornam facilmente corruptíveis. Tenho procurado participar de discussões em que programas sociais sejam prioritários nas decisões governamentais e que, principalmente, a verba separada chegue de fato ao seu destino. Talvez o que seja mais terrível na corrupção é sua grande capacidade maligna de desumanizar as pessoas.

Muitos textos de seu livro trazem lembranças pessoais. A senhora pretende escrever sua autobiografia?

Jamais. Minha vida pessoal pertence a mim e não pretendo compartilhá-la com ninguém. Claro que existem biógrafos que vasculham minha vida e minha obra, não tenho como evitar isso. Procuro apenas evitar excessos e mentiras. Minhas opiniões estão em minha obra, especialmente na que agora está sendo lançada no Brasil. Apesar de historicamente meu país estar mais conectado à Europa, eu espero que aumente a relação com o Brasil, pois, não apenas estamos geograficamente na mesma linha como temos mais antepassados em comum. Estive em Paraty para a Flip em 2007 (por conta disso, há um texto dela em Dez/Ten, publicado agora em comemoração à décima edição do evento), o que reforçou minha tese de que Brasil e África do Sul devem estreitar relações, não apenas comerciais mas principalmente culturais.

É possível dizer que muito da sua trajetória, por estar marcada por lutas pela liberdade, acaba se confundindo com sua escrita?

Isso é inevitável com qualquer escritor, independentemente do grau político de sua obra. Veja, quando leio uma biografia séria, direita, busco ali fatos sobre o envolvimento do biografado na vida pública. Também suas relações pessoais, frustrações, decepções e felicidade. Mas a biografia realmente terá valor para mim se encontrar uma análise de temas literários, uma metalinguagem. Ao avaliar minha obra, descobri recentemente que os livros foram escritos a partir de diferentes pontos de vista, personas distintas, tanto na primeira pessoa como na de um homem, uma criança, um mulher, uma pessoa jovem, outra mais velha. Há o sentido, olhando para trás, de que venho escrevendo o mesmo livro ao longo da minha vida. É uma espécie de viagem de descoberta. Lembro-me de uma pequena novela, chamada Novembro, de Flaubert, na qual ele apresenta um rascunho de temas que exploraria tão maravilhosamente depois - é visível perceber sua inabilidade para desenvolvê-los naquele momento. Sua vida, então, foi marcada pela descoberta de túneis escuros que o levaram àquele ponto desejado. É o que venho tentando fazer desde os meus primeiros trabalhos.

Nadine encontra

o compatriota

Nelson Mandela,

o maior opositor da política de

segregação racial da África do Sul: em Tempos de

Reflexão, que sai

agora no Brasil,

ela observa que demorou a ter consciência da

presença dos

negros; depois,

porém, defenderia

o líder em público

BEETHOVEN ERA 1/16 NEGRO, DE NADINE GORDIMER (COMPANHIA DAS LETRAS, 168 PÁGS., R$ 37)

DE VOLTA À VIDA, DE NADINE GORDIMER (COMPANHIA DAS LETRAS, 200 PÁGS., R$ 37)

A ARMA DA CASA, DE NADINE GORDIMER (COMPANHIA DAS LETRAS, 356 PÁGS., ESGOTADO - DISPONÍVEL EM SEBOS)

LONGA CAMINHADA ATÉ A LIBERDADE, DE NELSON MANDELA (EDITORA NOSSA CULTURA, 782 PÁGS., R$ 89)

NOVEMBER, DE G. FLAUBERT; PREFÁCIO DE NADINE GORDIMER (IMPORTADO, HESPERUS PRESS, 112 PÁGS., R$ 31,90)

"Há o sentido de que venho fazendo o mesmo livro ao longo da minha vida; é uma espécie de viagem de descoberta"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.