Escrita, caos e futebol

Enrique Vila- Matas mostra como transforma a desordem em obra de arte

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2012 | 03h07

O futebol é a atividade mais inteligente do nosso tempo: enquanto o mundo vive à beira do caos, o esporte bretão sobrevive há mais de um século com regras praticamente intactas, baseadas em fórmulas táticas quase infalíveis. A ironia partiu do escritor catalão Enrique Vila-Matas, um dos destaques da 10ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Ele, que se apresentaria ontem à tarde, além de voltar à Tenda dos Autores amanhã à noite, acredita que a imprevisibilidade dos lances de uma partida é o principal motivo que explica a inexistência de grandes obras literárias dedicadas ao esporte. "O que nos atrai, como torcedores, é o imprevisto de uma partida, algo que nenhum escritor foi ainda capaz de captar à altura."

O escritor participou ontem de manhã de uma entrevista coletiva. Essa é a terceira passagem dele pelo Brasil, país com o qual mantém uma relação também criativa. "Quando vim aqui antes, eu passeava pela Avenida Paulista quando comecei a pensar na estrutura do romance que estava criando. Ao passar pelo Trianon, a história já estava montada na minha cabeça." O resultado é Ar de Dylan, romance agora lançado no País pela Cosac Naify - ele estará na terça-feira, às 19h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, para conversar com os leitores.

Uma boa oportunidade para descobrir o mecanismo de uma escrita baseada em fatos raros. "É o negativo, o obscuro, os fatos pouco interessantes para as pessoas que me atraem", comenta ele, lembrando que, por conta disso, sua obra já foi comparada ao cinema de David Lynch e dos irmãos Coen, cineastas obcecados pela falha humana e suas implicações. "Busco o não conhecido. Parto da ideia de que, no mundo, sempre se perde algo que é preciso recuperar."

No livro, Vila-Matas trata de um dos assuntos que lhe são caros: o fracasso. Ar de Dylan acompanha a tortuosa trajetória do jovem Vilnius Lancastre, publicitário sem sucesso e cineasta limitado cuja única qualidade parecer ser a semelhança física com o cantor Bob Dylan. Certo dia, ao bater a cabeça no chão por conta de um tombo, ele inesperadamente herda a memória do pai, um escritor recentemente falecido. O resultado é uma história alucinante, que trata de originalidade, memória, autoria e identidade.

"Os temas literários que mais me atraem são os erros humanos", confessa. "Concordo com um aforismo de Kafka, que dizia já estar farto do positivo - é o negativo que lhe interessava." Cultivar uma íntima relação com grandes autores, aliás, também é uma marca da literatura de Vila-Matas, que costuma utilizá-los como personagens. "Eu lhes dou uma segunda vida literária", justifica, ainda que lamente a pouca importância da escrita na sociedade atual. "Vivemos uma crise geral do pensamento, pois a literatura perdeu sua importância e se tornou em algo ínfimo." Mesmo assim, ele resiste. E, como Borges, cria um cânone particular, destacando os autores que lhe sustentam. "Devo minha vida à literatura."

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