Tiago Queiroz/Estadão - 6/7/2008
Tiago Queiroz/Estadão - 6/7/2008

‘Escrevo o que dói’, confessa Inês Pedrosa

Autora portuguesa fala de seu processo de escrita e inspiração do novo livro

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2013 | 20h11

O preço da liberdade – a trajetória da fadista Rosa, que procura o pai que nunca conheceu, cruza com a de Farimah, engenheira iraniana que se casa com um homem soropositivo para escapar de um casamento forçado pelo pai, e cruza também com a de Luísa, filha bastarda de um aristocrata que oferece a própria filha. Três mulheres que fogem das regras em busca da própria voz. São elas as protagonistas de Dentro de Ti Ver o Mar, novo romance da portuguesa Inês Pedrosa, lançado agora pela Alfaguara.

Como se tornou tradicional em sua obra, Inês revela-se uma autora cuja escrita explora com sensibilidade o sentimento da ausência. Também utiliza com domínio as técnicas modernas de romance, interligando os capítulos a partir de uma estrutura bem construída. Fã do Brasil, utiliza também o País como mote para suas histórias, como conta na seguinte entrevista, realizada por e-mail.

Por que o problema da identidade, que parece dominar o romance, lhe interessou tanto?

A questão da identidade é central no século 21, tanto a nível pessoal como político. O romance interessa-me como processo de conhecimento e de alargamento das possibilidades da linguagem; na realidade a indagação em torno da identidade é a música de fundo da existência humana, tornada mais audível com a emergência do individualismo. Por outro lado, a permanência histórica do fenômeno da violência íntima, em particular sobre as mulheres, coloca-me a seguinte interrogação: por que é que tantas mulheres independentes e bem-sucedidas aceitam relações de submissão? Que especial forma de prazer encontram nelas? Mas, para ser sincera, devo dizer que essas meditações são póstumas: escrevemos o que podemos, o que sabemos, o que temos de escrever.

Como assim?

O meu analista talvez saiba explicar por que é que eu me interesso recorrentemente por determinados assuntos. Ao fim de cinco anos de psicanálise, aprendi a fazer precisamente o contrário, ou seja, a deixar de me esconder atrás do biombo da racionalização. Escrevo a partir do que não sei – porque é isso o que me importa: o que fica a latejar para lá do que julgamos saber. O que dói. O que se sente intensamente. O que não para numa resposta.

O livro também trata dos desenraizados, vítimas da globalização. É possível dizer que se trata de um mal moderno?

É um tema moderno – não sei se necessariamente um mal, porque o bem e o mal não são categorias estanques – o que não quer dizer que não existam, como hoje tanta gente nos quer fazer crer. Tornou-se cômodo considerar que tudo é relativo e que o mal é justificável desde que venha com a caução da “cultura” ou da “tradição”. A modernidade líquida de que fala Zygmunt Bauman só aparentemente é generosa: aquilo a que chamamos “tolerância” representa uma enorme indiferença em relação à sorte de outros seres humanos. Farimah, a engenheira iraniana que, neste livro, foge de um casamento forçado confronta-se, em Portugal, com uma série de estereótipos discriminatórios sobre “a mulher muçulmana”, que lhe acentuam a sensação de desenraizamento. Por outro lado, a união dos desenraizados cria novos modos de relação e um pensamento menos territorial. O paradoxo da globalização é esse: quanto mais se ampliam as conexões internacionais, mais forte se torna a reivindicação tribal. As guerras em curso são, não apenas religiosas, mas tribais – ou seja, racistas. O que é particularmente absurdo desde que a análise do DNA demonstrou a inexistência disso a que chamamos “raça”, e o nosso parentesco próximo com todos os outros animais. Mas enfim: pelo menos a barbárie começa a ser identificada e circunscrita. No século 18, que foi anteontem, a tortura e a morte eram o espetáculo de fim de semana das multidões ululantes, crianças incluídas. Convém não esquecer esses detalhes, quando maldizemos a contemporaneidade.

Esse é o seu segundo romance marcado pela forte relação com o Brasil. De que forma o País a influenciou e inspirou tanto?

Devo muito ao Brasil: aos seus escritores, que li desde menina e que me despertaram para o erotismo e para a liberdade da língua, aos seus músicos, que me ensinaram a síntese e a leveza, à energia extraordinária da sua população, ao modo como conseguiu e consegue manter a alegria e acreditar que as revoltantes assimetrias sociais do País terão solução. Tenho acompanhado a revolução popular em curso, e espero que potencie a mudança necessária, porque não é admissível, por exemplo, que o salário de um deputado federal represente mais de 40 salários mínimos. Mas comove-me que um país com dimensão continental e com diferenças culturais e geográficas tão vincadas tenha conseguido criar uma identidade nacional forte e coesa. Desde que há 15 anos aportei no Rio pela primeira vez, nunca mais parei de vir ao Brasil, pelo menos duas vezes por ano. Os livros e as canções já me tinham sussurrado que eu iria apaixonar-me pelo País, mas nunca pensei ficar tão envolvida. Fiz grandes amizades no Brasil, e acabei por casar com um carioca… também ele desenraizado. A relação entre Portugal e Brasil está de fato muito presente nesse romance, e é natural que esse tema surja com cada vez maior intensidade nos meus livros, porque é essencial na minha vida.

Rosa mantém uma relação marcada pela culpa, ou seja, nunca está contente com as próprias ações no amor. Seria esse sentimento de falta emocional também comum, especialmente entre as mulheres?

Creio que sim; a aceleração exponencial da vida tornou as relações pessoais mais complexas – e mais exigentes, também. Num mundo cada vez mais especializado e competitivo, sentimo-nos sempre em falta em relação aos outros (falta de tempo, falta de disponibilidade interior para a escuta, o que gera espirais de equívocos) e sentimos também uma crescente falta de consolação por parte dos outros. Vivemos atabalhoadamente entre culpas e desculpas; muitas vezes, sinto que a culpa age sobre nós como uma droga, desfigurando-nos – acaba por se tornar mais fácil conviver com a culpa do que pedir desculpa e retomar o caminho, sem pesos. A própria leveza ficou pesada. E as mulheres perpetuam a educação para a culpa e a glorificação do autossacrifício, sim. Mesmo sem se darem conta disso, como é o caso de Rosa.

DENTRO DE TI VER O MAR

Autora: Inês Pedrosa

Editora: Alfaguara (256 págs., R$ 39,90)

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