''Escrevo estas mal traçadas linhas...''

As cartas resistem aos avanços tecnológicos e os correios comemoram expansão

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

Ninguém questiona o fato de que a internet chegou para ficar e está transformando o modo como o mundo se comunica. A proliferação do uso de e-mails, sites de relacionamento e mesmo o SMS enterrou para muitos a ideia de enviar uma carta.

Mas os correios em todo o mundo descobriram que a carta não desapareceu. Há três anos, o envio de correspondências se mantém estável, segundo a União Postal Universal, fundada em 1874 em Berna.

Hoje, a entidade constata que o futuro do setor está garantido. Em 2000, o número de mensagens atingiu seu pico: 436 bilhões. Mas três anos depois, o volume caiu para 420 bilhões e na União Postal já se calculava quanto tempo o setor resistiria. Mas a queda se estabilizou e, nos últimos anos, o setor se expandiu. Em 2008, eram 433 bilhões de cartas e pacotes enviados, quase chegando ao número recorde de 2000.

No mundo são 1,2 bilhão de cartas mandadas por dia. Por ano, os campeões são os americanos, com 199 bilhões de cartas. O Japão vem em distante segundo lugar, com 25 bilhões, e a Alemanha com 21 bilhões.

Nos países emergentes, os chineses mandam 23 bilhões de mensagens por ano. O Brasil envia 8,6 bilhões e a Índia, 7,3 bilhões. As diferenças em relação aos países africanos são enormes. Em Gâmbia, são só 13 mil cartas enviadas por ano.

Para o exterior, são 15 milhões de cartas enviadas no mundo por dia. Por ano, a liderança é dos EUA: 830 milhões. O segundo lugar é do Reino Unido, com 450 milhões.

Segundo 193 correios do mundo, há grandes diferenças ainda entre os países sobre como as pessoas se comunicam. Na Arábia Saudita, a carta continua sendo a forma mais usada por trabalhadores imigrantes provenientes da Ásia para se comunicar com suas famílias em seus países de origem.

Na África, a realidade é mais problemática. Somente uma a cada oito pessoas tem um endereço para onde alguém possa enviar uma carta. Em Botsuana, o governo decidiu lançar um projeto para dar nomes às ruas e números às casas, pelo menos para garantir que famílias possam ser comunicadas.

Neste ano, a ONU lança campanha para que, em cinco anos, todos possam ter um endereço fixo no mundo. Se nem endereço fixo é uma realidade, a internet continua um sonho distante. No mundo, uma em três pessoas tem acesso à internet em casa. Mas a taxa é de uma a cada 20 nos países em desenvolvimento, segundo a União Internacional de Telecomunicações.

O poderoso Exército americano sentiu o choque de desembarcar no Afeganistão há alguns anos e ter de pedir a seus soldados que se comunicassem com suas famílias por carta, e não por e-mail. Isso porque em muitas das cidades onde os soldados passavam dias, não existia rede de comunicação para e-mails e internet.

Já nos países ricos, o uso de cartas mudou de perfil. Há uma queda nas remessas internacionais, já que poucos querem esperar uma semana para fazer chegar um recado ao outro lado do mundo: em 2000, 8 bilhões de cartas cruzavam as fronteiras no mundo. Oito anos depois, caiu para 6 bilhões.

Há duas semanas, a Finlândia - um dos países com maior taxa de usuários de internet do mundo - iniciou teste com 120 famílias do norte do país para testar a ideia de transformar todas as cartas recebidas em arquivos de e-mail. Cada carta recebida pelo correio finlandês destinada a esses cidadãos é aberta, escaneada e enviada por e-mail. O teste é uma tentativa dos correios do país de reduzir custos. O governo garante que quem trabalha no serviço assinou contrato de confidencialidade em relação ao conteúdo das mensagens, mas grupos de defesa de direitos humanos já protestam. O governo diz que se trata apenas de um teste.

Curiosamente, na União Postal Universal a ideia para facilitar a entrega do correio nos países em desenvolvimento é exatamente a contrária da Finlândia. Um projeto em estudo é o correio híbrido. Um e-mail é enviado a um correio da cidade onde o destinatário vive. O documento então é impresso e transformado em carta mandada para a casa do destinatário, reduzindo custos de transporte.

Além disso, os dados oficiais mostram que, em 2008, 660 mil correios no mundo já ofereciam acesso à internet, o que deu novo impulso aos seus cofres. Um cliente compra um produto pela rede, mas será pelo correio que será transportado e entregue. Por isso, a entrega de encomendas pelo correio só cresce. Por ano, a expansão é de quase 5%. O resultado é que, depois de reformas e adaptação às novas tecnologias, os correios voltaram a ter lucros. Desde 2005, a renda aumentou em 13%, totalizando US$ 308 bilhões.

Na União Postal, a direção diz que a meta não é preservar a carta em papel, mas garantir que a comunicação seja facilitada.

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