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Escrever em língua estrangeira

"O poeta mente se usa uma língua estrangeira.”

Milton Hatoum, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2015 | 03h00

Li essa frase de Paul Celan num livro de ensaio de Giorgio Agamben (Ideia da Prosa, tradução de João Barrento, editora Autêntica). O poeta romeno de língua alemã não acreditava no bilinguismo na poesia, pois “só na língua materna se pode dizer a verdade”. No entanto, escrever em língua estrangeira foi o desafio e a façanha de grandes poetas e romancistas.

Fernando Pessoa escreveu os Poemas Ingleses (35 Sonnets), e também Antinuous e Epithalamium, que, segundo o próprio Pessoa, “são nitidamente o que se pode chamar obscenos”. Como se isso não bastasse, escreveu os Poemas Franceses (Trois Chansons Mortes).

Jorge Luis Borges, que parece ter lido o D. Quixote em inglês (antes mesmo de o ler em espanhol), escreveu Two English Poems, dois de seus mais belos poemas, que não são poucos.

Na ficção, logo nos vem à mente a obra do escritor russo Vladimir Nabokov, que escreveu boa parte de seus livros em inglês. O irlandês Samuel Beckett – autor de um ensaio sobre a obra de Marcel Proust – preferiu escrever alguns de seus romances e peças de teatro em francês. Na infância ou juventude, esses e outros escritores já eram bilíngues, e alguns renunciaram à língua materna para escrever romances, contos e memórias. Mas há exceções, e a mais notável talvez seja a obra do escritor polonês Joseph Conrad.

Antes de 1878, quando se mudou para a Inglaterra, o autor de Lord Jim e Coração das Trevas morou em Marselha e trabalhou na marinha mercante francesa. Mas em 1889, quando começou a escrever seu primeiro romance (A Loucura de Almayer, 1895), optou pela língua inglesa, ou foi “possuído por essa língua”, como ele mesmo afirmou.

Em 1890, Conrad passou seis meses no Congo Belga, onde comandou o navio Roi des Belges, da Sociedade Anônima para o Comércio do Alto Congo. Voltou doente a Londres; doente e horrorizado com as atrocidades cometidas pelos militares e súditos do rei Leopoldo I, responsável por um dos maiores genocídios da história moderna.

De dezembro de 1898 a dezembro de 1899, quando estava escrevendo Coração das Trevas, enviou a editores e amigos várias cartas em que comentava a dificuldade de dar forma e sentido à sua experiência no Congo. Conrad duvidava e se questionava sobre o que escrevia, enumerava problemas que diziam respeito à linguagem e ao assunto que queria expressar. A relação entre a língua materna e a expressão da verdade – que Paul Celan mencionaria quase meio século depois – talvez fosse, de um modo oblíquo, uma das inquietações de Conrad, como se lê numa carta a um amigo:

“Cada linha escrevo com dúvida... Pergunto a mim mesmo: Isso está certo? É verdade? Sinto essas coisas assim? Estou exprimindo todo o meu sentimento? Transpiro incerteza em cada palavra...”.

O resultado (ou a superação) de tantas dúvidas e incertezas é Coração das Trevas, um dos romances mais densos da literatura de língua inglesa, escrito por um expatriado polonês.

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