Douglas Healey/AP
Douglas Healey/AP

'Escrever é estar errado, é se frustrar'

Exclusivo: leia a seguir a entrevista de Philip Roth à revista francesa Les InRocKuptibles, na qual anunciou o fim de sua carreira – informação confirmada na última semana por seus editores

NELLY KAPRIÈLIAN - 'LES INROCKUPTIBLES',

17 de novembro de 2012 | 08h11

Num dia de muito vento do outono nova-iorquino (obs.: entrevista realizada em setembro e publicada em outubro), Philip Roth nos recebeu em grande forma no seu vasto apartamento minimalista em Upper West Side para falar sobre o lançamento, na França, de um dos seus mais belos romances: Nêmesis. Um retorno à Newark nos anos 40, onde acompanhamos Bucky Cantor, um jovem perfeito, devotado às crianças das quais se ocupa e àqueles que ama, preso na tormenta de uma epidemia de poliomielite.

Difícil falar de Nêmesis sem revelar seu final. Digamos apenas que, não obstante a vontade do herói de fazer o bem, ele se torna um instrumento do mal, e Roth realiza uma nova façanha num romance cuja construção é perfeita. O narrador só surge na página 90 para desaparecer depois e só reaparecer no fim, quando encontramos Bucky 30 anos mais tarde, num último capítulo tão abrupto e cruel quanto o derradeiro de Suave É a Noite, de Scott Fitzgerald.

Nêmesis é a deusa grega da justiça, da vingança, da cólera. Se Philip Roth construiu seu romance em forma de tragédia, ela é uma tragédia desprovida de moral, portanto, humana e contemporânea: a doença e a morte não têm nenhum sentido. Nêmesis evolui num grande e belo texto metafísico sobre a noção do acaso e da responsabilidade na vida de uma pessoa.

De todos os seus romances, Nêmesis parece ser aquele em que o senhor expõe sua própria visão da existência.

Na verdade, penso que tudo na vida é uma questão de sorte ou azar. Não creio na psicanálise, nem num inconsciente que nos orientaria nas nossas escolhas. Temos apenas a sorte ou não de certos encontros que serão bons ou ruins para nós. Minha primeira mulher, por exemplo, revelou-se uma criminosa – ela furtava incessantemente, mentia, etc. Ora, eu não a escolhi por isso, detesto criminosos. Mas aí está, tive o azar de me casar com uma pessoa assim. Os psicanalistas diriam que eu a escolhi inconscientemente. Não acredito, mas de certa maneira isso confirma meu ponto de vista segundo o qual, diante da vida, somos inocentes. Existe uma forma de inocência em cada um de nós na maneira como abordamos nossas vidas.

Nêmesis se insere num grupo de quatro livros intitulado Nemeses (com Um Homem Comum, Indignação, Humilhação). Como eles se relacionam?

Todos enfocam o tema da morte de um ponto de vista diferente. Em cada um desses livros, o personagem tem algo a fazer com sua "nemeses", termo muito em moda nos Estados Unidos e que poderíamos definir como fatalidade, azar, a força que ele não pode superar e que o escolheu como vítima. Em Nêmesis, essa nemeses poderia ser a poliomielite, mas no caso de Bucky Cantor, na verdade, são seus problemas de consciência. O que sempre me interessou como escritor, e isso depois de um dos meus primeiros romances, Letting Go, são aqueles seres que têm um sentido extremo, no fundo desnecessário, da sua responsabilidade. Bucky é um homem que se define apenas pela sua virtude, o que é muito perigoso. Não é somente a poliomielite que vai arruinar sua vida, mas sua aspiração à responsabilidade total.

Em que sentido a poliomielite lhe interessou?

Em primeiro lugar, porque é um assunto novo para mim, jamais escrevi a respeito disso; em seguida, porque, para pessoas que, como eu, nasceram nos anos 20 ou 30 nos Estados Unidos, a poliomielite teve papel muito importante, pois antes da vacina, que surgiu em 1955, vivíamos sob essa ameaça, que nos deixava aterrorizados. Foi somente depois de ter escrito Nêmesis que compreendi a relação com meu romance O Complô Contra a América: nos dois casos, imagino uma tragédia que atinge a comunidade judaica de Newark nos anos 40 – de onde venho. No caso de Complô, eu inventei a ameaça, a Nemese (o nazista Charles Lindbergh se tornando presidente dos Estados Unidos). Em Nêmesis é a poliomielite, que existia, salvo que não se registrou uma epidemia em 1944. E, além disso, a doença é a forma mais extrema de azar: ela o ataca de repente e você não pode fazer nada.

Além dessa questão do azar, o que interessa ao senhor é escrever sobre o que fazer com ele e como o homem reage às coisas que lhe acontecem.

Se temos a impressão de que Bucky desperdiça sua vida ao renunciar à sua noiva, para ele, que deseja ser a encarnação da palavra "responsabilidade", ter sucesso na vida é renunciar a ela, mesmo que isso o condene à solidão. Mas não faço nenhum julgamento a respeito, quis apenas colocar a questão. É assim que encaro meu trabalho de escritor: o que ocorre face a uma epidemia de poliomielite? O romance foi escrito para levantar perguntas, não dar respostas. Não escrevo livros filosóficos.

Entretanto, Nêmesis aborda temas como o destino, o acaso, o sentido da vida...

Devo confessar que não sou muito propenso à abstração. Não penso dessa maneira. E quando uma conversa envereda pela metafísica ou filosofia, eu durmo. Tudo o que me interessa, verdadeiramente, tudo o que sei fazer é contar uma história. Se me falam de abstração, tenho a impressão de ter 10 anos, não compreendo mais nada e sou tomado pelo sono.

Seus últimos livros são atormentados por uma ameaça. Até que ponto o fato de ter sido uma criança judia durante a guerra o influenciou?

Tive uma infância muito protegida. Meus pais jamais se divorciaram, vivi numa comunidade 99% judia e assim não fomos afetados pelo antissemitismo. Claro que, de 8 a 12 anos de idade, o país estava em guerra e fiquei muito interessado pelo conflito. Todas as gerações que atravessaram a 2.ª Guerra Mundial, seja na França, na Alemanha ou aqui, ficaram marcadas pelo resto da vida. A outra ameaça, real, foi a poliomielite: a cada verão, quando passávamos o dia brincando fora, as pessoas falavam da poliomielite. Não nos preocupávamos, até que um dos amigos morreu. Mas você sabe, não acho que a biografia de um escritor tem algo a ver com seus livros.

Então, o que o leva a escrever?

O desejo de fazer uma experiência, o "what if" (e se?). E se tal e tal coisa ocorresse, o que sucederia? Começo todos os meus livros com este "e se?". Por exemplo: "E se uma epidemia de poliomielite atingisse a comunidade de Newark em 1944?".

O senhor não gostaria de começar a escrever "E se... este tipo genial esposasse esta mulher maravilhosa e eles vivessem felizes?" A felicidade não é uma força propulsora da escrita?

Mas já escrevi esse livro! Há anos, quando concebi O Professor de Desejo, quis escrever sobre um fenômeno muito comum sobre o qual não se lia muito: se duas pessoas se apaixonam e se casam, o que acontece? Ou o sexo desaparece, a sexualidade entre os dois desaparece. O casamento é o caminho que leva diretamente à castidade. Portanto, veja você, comecei a escrever O Professor de Desejo sobre uma situação feliz, mas que leva a um verdadeiro problema.

Um problema autobiográfico?

Seria muito fácil acreditar que o escritor não se expressa sobre o que sucede em sua vida. A maior parte do tempo escrevo sobre o que não acontece comigo porque sou curioso. Um escritor pode se sentir atraído por temas que estão mesmo muito distantes do seu universo. O que interessa é o que vai provocar nele aquele impulso para escrever, que vai engendrar uma energia verbal. Alguns temas têm esse potencial, outros não.

O senhor sabe por quê?

Absolutamente. Aliás, há algum tempo parei de querer saber a razão. Cheguei ao apogeu da minha vida: hoje sei que não sei. E tenho dificuldade para novos temas. Para mim, escrever sempre foi uma coisa muito difícil. O problema é que, ainda criança, me apaixonei pela literatura. Mais tarde, eu me disse que poderia ser escritor. Então tentei e, até certo ponto, deu certo. Se pudesse fazer alguma coisa melhor, creia-me, teria feito com prazer. Mas no início foi estimulante, então continuei.

O senhor ainda tem desejo de escrever?

Não. Aliás, não tenho intenção de escrever nos próximos dez anos. Devo confessar que vou parar de escrever. Nêmesis será meu último livro. Veja o caso de E.M. Forster, ele parou de escrever ficção em torno dos 40 anos. E eu, que lancei um livro atrás do outro, não escrevi mais nada há três anos. Preferi trabalhar nos meus arquivos para enviar documentos para meu biógrafo. Eu lhe enviei milhares de páginas que são lembranças, mas não literárias, que não podem ser publicadas do modo como estão. Não quero escrever minhas memórias, mas quis que meu biógrafo tivesse material para seu livro antes da minha morte. Se eu morrer sem lhe passar nada, por onde ele vai começar?

Mas durante esta entrevista o senhor afirmou que a vida de um escritor não influencia forçosamente o seu trabalho e o senhor acha importante que se escreva a sua biografia?

Não tenho escolha. Se tivesse, preferiria que não houvesse uma biografia sobre mim, mas sei que serão publicadas biografias após a minha morte, portanto, melhor me assegurar de que uma seja exata. Blake Bailey fez um excelente trabalho sobre a vida e obra de John Cheever, que era um dos meus amigos e era difícil fazer uma biografia sobre ele porque, homossexual e alcoólatra, passou quase toda a sua vida se escondendo. Bailey me contatou, passamos dois dias inteiros conversando e ele me convenceu. Mas não vou controlar o seu trabalho. De qualquer modo, 20% serão dados falsos, mas é sempre melhor do que 22%.

O senhor já começou a preparar seus arquivos para depois da sua morte?

Quando Blake Bailey já não precisar de mais documentos, pedi a meus testamenteiros, meu agente Andre Wylie e uma amiga psicanalista para que os destruíssem após a minha morte. Não quero que meus documentos pessoais fiquem por aí girando de um lado para outro. Ninguém deve lê-los. Todos os meus manuscritos já estão na biblioteca do Congresso desde os anos 70.

Como encara tudo o que escreveu?

Aos 74 anos (obs., hoje ele tem 79) percebi que não tinha mais muito tempo, então decidi reler os romances que adorei quando tinha 20, 30 anos, porque são esses que não relemos jamais. Dostoievski, Turgueniev, Conrad, Hemingway. Quando terminei, decidi ler todos os meus livros, começando do fim: Nêmesis. Até me cansar, e antes de O Complexo de Portnoy, que é imperfeito. Queria ver se perdi meu tempo escrevendo. E achei que foi mais um sucesso. No fim da sua vida, o boxeador Joe Louis disse: "Fiz o melhor que consegui com o que eu tinha". É exatamente o que eu diria do meu trabalho: fiz o melhor que pude com o que eu tinha. E, depois disso, decidi parar com a ficção. Não quero mais ler, nem escrever, nem mesmo falar. Consagrei minha vida ao romance: eu o estudei, ensinei, escrevi e li. Excluindo praticamente todo o resto. O suficiente! Não aprovo mais esse fanatismo pela escrita que tive durante toda a minha vida. A ideia de encarar ainda uma vez a escrita me é impossível!

O senhor não está exagerando um pouco?

Escrever é estar o tempo todo errado. Todos os seus rascunhos contam a história dos seus fracassos. Não tenho mais energia para a frustação nem força para me confrontar. Porque escrever é se frustrar: passamos nosso tempo escrevendo a palavra ruim, a frase ruim, a história ruim. Nós nos enganamos incessantemente, fracassamos o tempo todo e vivemos assim numa perpétua frustração. Passamos o tempo a nos dizer: isto não está bom, vamos recomeçar; isto não está nada bem, e recomeçamos. Estou cansado de todo este trabalho. Estou num momento diferente da minha vida; perdi todo o fanatismo. E não sinto nenhuma melancolia.

Então, nunca mais haverá um novo romance de Philip Roth?

Não acho que um livro a mais ou a menos mudará qualquer coisa do que já fiz. E se escrever um novo livro, provavelmente será um fracasso. Quem precisa ler mais um livro medíocre?

Não tem vontade de escrever sobre a América hoje?

Não conheço mais nada da América de hoje. Vejo na TV. Mas não vivo mais aqui.

Para encerrar, uma palavra sobre política. Estamos a dois meses da eleição. O senhor acha que Romney tem chance contra Obama?

Não, mas por boas razões. Ele não tem nenhuma aura e até os americanos já começaram a perceber a que ponto ele é maçante. Se vencer, será um desastre. Os presidentes americanos de direita são sempre um desastre. Ao passo que Obama me impressiona sempre. Fazia muito tempo que não tínhamos uma inteligência como a dele na Casa Branca. Votarei novamente nele. Mas sabe, não gosto de falar de política. Quem sou eu para dar minha opinião em política? Sou apenas um cidadão como qualquer outro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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