Escrevendo baixinho

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2010 | 00h00

Hoje me bateu uma saudade do maestro Paulo Moura, não só porque ele era um grande artista, como falava quase num sussurro e tocava uma versão belíssima de Chorando Baixinho, do igualmente saudoso Abel Ferreira. O som do clarinete de Paulo Moura é a trilha sonora que falta nesta era de gritaria.

O bate-boca nacional americano foi brevemente interrompido por dois comediantes que conseguiram reunir mais de 200 mil pessoas em Washington, no sábado, num comício para "Restaurar a Sanidade e/ou o Medo". O evento foi, na verdade, um híbrido de comédia e apelo contra o extremismo.

Jon Stewart foi o partidário da sanidade neste comício-encenação. Stephen Colbert, que emergiu no palco a bordo de uma réplica da cápsula que transportou os mineiros chilenos para a superfície, fez seu papel habitual de direitista, expondo, através da ironia, a máquina conservadora de espalhar medo.

O comício teve cenas memoráveis como um solo a capella de Tony Bennet em America, The Beautiful. O cantor de 84 embalou a plateia mais jovem com uma interpretação impecável e sem uma dose de ufanismo exaltado.

Um duelo musical colocou Yusuf Islam, ex-Cat Stevens, cantando o clássico Peace Train, interrompido por Ozzy Osbourne que levou o estridente Crazy Train. A "paz" foi restaurada com o trio O"Jays, de Filadélfia, cantando o Love Train.

O único episódio escasso em comédia ancorado por Stewart na semana passada foi a tão falada entrevista com Barack Obama, na quarta-feira. Stewart fez críticas comedidas ao presidente e atravessou a fronteira perigosa onde um personagem cômico preenche o vácuo de civilidade e representa a consciência de uma parte da população.

Ele sabia de sua posição delicada quando encerrou o comício de sábado com um discurso eloquente, que reproduzo aqui, em trechos:

"Nós vivemos em tempos duros - mas não no fim dos tempos. Podemos ter animosidade sem ser inimigos. A máquina perpétua de fabricar conflito durante 24 horas não criou nossos problemas mas dificulta muito a sua resolução. Se amplificamos tudo não ouvimos nada. A imprensa é a defesa do nosso sistema imunológico e se ela reage com exagero, nós ficamos doentes."

Em outubro, um episódio menor, a dispensa de um colunista político da rede pública de rádio NPR, frequentou as manchetes durante vários dias porque, neste clima de hiper-mídia, ninguém escapa ao circo do exagero.

O jornalista negro Juan Williams era comentarista político da NPR e da rede FOX, onde aparecia como o escada liberal em programas de pseudo-jornalismo como o show de Bill O''Reilly. Identifico a cor da pele de Williams, não só porque o elenco da Fox é majoritariamente branco (jornalistas negros de direita são raros na mídia aqui) mas porque o próprio Williams acusou a NPR de racismo ao dispensá-lo, enquanto chorava no ombro de seus colegas da FOX, que imediatamente renovou seu contrato por três anos e 2 milhões de dólares.

Williams disse o seguinte, no programa de O"Reilly, a respeito do debate sobre o sentimento anti-islâmico nos Estados Unidos: "Eu não sou racista, mas, quando tomo um avião, se vejo pessoas com trajes muçulmanos e penso, eles estão se identificando antes de tudo como muçulmanos, eu fico com medo. Eu fico nervoso."

O comentário, de uma estupidez notável, (vale lembrar que os terroristas autores do atentado do 11 de setembro se vestiam como ocidentais elegantes), se espalhou feito pólvora pela Internet. Era um trecho incompleto, já que, mais adiante, Williams tentou argumentar com O"Reilly que terroristas como Timothy McVeigh, autor do atentado a bomba em Oklahoma que matou 168 pessoas, em 1995, não tinham inspirado uma onda de discriminação contra nenhum grupo.

Compreendo que Williams perdeu o poleiro opinativo na NPR porque já ocupava uma posição esquizofrênica há anos, com um pé na rádio, outro na estridente Fox, e não, como quis a blogosfera, porque foi censurado.

Algumas seções de comentários sobre o incidente, no site da rede NPR, foram tomadas de assalto por um elenco de Camisas Negras regurgitando slogans que evocavam Tea Partiers e outros radicais.

Os autores dos comentários não eram os ouvintes habituais da NPR. A audiência da rede pública aumentou 60% nos últimos 10 anos e ela conta hoje com 20 milhões de ouvintes em seus principais programas de jornalismo, média mais alta do que a do repugnante Rush Limbaugh.

Na era da hiper-mídia, fatos perderam a importância. Estamos engessados pela gritaria e a mais trivial rotina é indissociável da incessante postura política.

Ao se livrar de um comentarista que frequentava o circo político da rede FOX, a rádio pública que eu ajudo a sustentar, com uma contribuição modesta, estava dando um recado. Mas, com tanta barulheira, a maioria não ouviu. A NPR estava confirmando que o tom do seu jornalismo é cordial. Quem diria, falar baixo é o radicalismo do século 21.

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