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Escolhendo um candidato

Não existe justificativa para ditadura, ela é sempre um equívoco, antro de covardes

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2018 | 02h00

Vamos reconhecer: mal entramos na corrida eleitoral e já estamos muito cansados de tudo relativo à política. Admiro os apaixonados pela área. Sei que o mau político precisa do tédio dos cidadãos. O desinteresse, advertia o velho Brecht, é gerador do balcão de negócios atual. Os candidatos não são todos iguais, porém os corruptos necessitam do descaso da maioria.

Sim, devemos votar de forma consciente, cobrar programas bons, participar, protestar quando necessário e, sentindo condições e desejo, até ingressar na carreira política. Eu nunca fiz registro em partido político. Jamais panfletei em eleições. Sempre fiz distinções: havia candidatos melhores do que outros (geralmente menos ruins) e eu buscava votar com a máxima consciência, jamais o fiz com entusiasmo.

Sim, eu sei que não existe neutralidade. Qualquer historiador sabe disso. Nunca me considerei neutro. Sempre tive clareza absoluta da necessidade de causas diretas como a educação, o combate ao racismo e necessidade do senso crítico em sala de aula. Sempre defendi a liberdade sem associá-la a um partido. Nunca usei a camiseta de um partido, ainda que apoie qualquer pessoa que o faça como manifestação da sua convicção.

Há ocasiões nas quais eu me imagino como um cidadão da Cracóvia, em 1940, a quem perguntassem: você prefere a Alemanha nazista ou a URSS? Insistiria: prefiro a Polônia sem ditadores. Quando eu digo que odeio totalitarismos de direita nunca, em hipótese alguma, significa que eu defenda totalitarismos de esquerda. Há vida fora dessa roda de hamster amestrado do nosso cenário.

Acima de tudo, quero manter a grande e árdua conquista: o Estado Democrático de Direito. Por tal convicção, não posso escolher candidatos que não denunciem o crime contra o povo da Nicarágua ou da Venezuela. São ditaduras corruptas que massacram sua população. Da mesma forma e pelo mesmo motivo, nunca apoiarei um candidato que defenda a ditadura no Brasil, seja no Estado Novo ou no período 1964-1985. Odeio ditaduras, tanto as vermelhas como as verde-amarelas. Distinguir ditadura de esquerda ou de direita é como classificar se o crime foi doloso ou culposo. Para o tribunal, a distinção é importante, para a vítima morta é irrelevante. Daí surge o argumento mais irracional: aquele sistema matou mais que o outro! Se número for critério moral, todo assassino preso deve ser inocentado, pois matou menos do que Mao, provavelmente o maior genocida da história. Abomino morte e tortura, de um, de cem ou de 20 milhões. Sim, sei, não são ideias que agradem muito a torcidas organizadas em paralelas de cores diferentes muito mais semelhantes do que seus adeptos imaginam.

Acredito na liberdade individual e também em um Estado menor no setor burocrático e muito maior no setor da saúde e da educação. Odeio ditaduras em Cuba ou no Brasil. Abomino Maduro e Pinochet. Serei petralha ou coxinha? Eu sempre me considerei um humanista, mas a democracia permite que você crie seu julgamento e etiqueta. Não ser amigo da invasão alemã ou soviética é ser “isentão”. Considerando quem a usa, agradeço sempre o elogio. Os não isentos defendem seu corrupto e seu ditador com os mesmos critérios com os quais detonam alheios. Precisamos defender princípios e não pessoas, valores e não conjunturas políticas.

Aqui registro os meus primeiros critérios para caminhar a uma futura escolha de candidato. Ela/ele deve condenar violações ao Estado Democrático de Direito em qualquer lugar e de qualquer coloração. Deve ter o princípio democrático como guia e jamais deslizar para o relativismo: quando mata quem eu não gosto pode, quando mata quem eu gosto não pode. É impossível que eu valorize alguém que se enquadre na ironia criada por Millôr: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”. Não existe justificativa para ditadura, ela é sempre um equívoco, antro de covardes, ninho de mediocridades infindas e destruidora de valores éticos. Todo ditador é imbecil e todo defensor de ditadura um mau-caráter.

Sistemas abertos são cheios de conflitos e por isso são férteis. Democracias são barulhentas. Ditaduras têm o silêncio dos cemitérios. Discorda de mim? Excelente. Sabe por que podemos discordar livremente? Porque temos liberdade.

Por fim, meu desejo mais estranho para tantos polarizados. Não apenas suspiro por uma democracia plena e promotora de justiça social, também adoraria que nosso debate não fosse focado no chefe do Executivo. Adoraria que a mesma energia que tantos dedicam à corrida presidencial contaminasse a escolha de deputados e senadores. A verdadeira democracia nunca deveria ser centrada em indivíduos, ao contrário da tradição ditatorial. Um Messias pode vir do céu, jamais do Palácio do Planalto. É preciso ter esperança.

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