Escocês traça evolução do futebol

É uma grande contradição: o país que mais venceu Copas do Mundo neste século, cuja maioria absoluta da população é dominada por paixões, frustrações e orgulho provocados pelo futebol, possui uma bibliografia escassa sobre o assunto. Descontando lançamentos isolados, motivados por efemérides - o cinqüentenário do Maracanã foi a última -, há poucos livros à disposição dos interessados em fatos ocorridos além de nossas fronteiras. Por isso, é um alento a chegada às livrarias de uma obra como Uma História do Futebol (Editora Hedra, 284 págs., R$ 29,00), do escocês Bill Murray, uma espécie de tudo o que você queria saber sobre a história do esporte bretão e não tinha a quem perguntar.É o segundo livro de Murray sobre futebol. O primeiro foi Football: a History of the World Game. Este, porém, não tem o alcance de Uma História do Futebol, um estudo profundo e detalhado sobre o esporte mais popular do planeta. Desde a primeira Copa Desafio, em 1871, na Inglaterra, até a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, pouca coisa escapa da pesquisa de Murray, também um apaixonado pelo futebol brasileiro. Por isso, muitas das páginas do livro são dedicadas à chegada e disseminação do esporte por aqui, a partir da primeira década deste século.Mas muita água, ou melhor, muita bola rolou no mundo até que as primeiras balizas fossem erguidas no Brasil. É difícil encontrar um brasileiro, no alto de seu orgulho de tetracampeão mundial, que não se espante ao saber que em 1886 - oito anos antes, portanto, do inglês Charles Miller desembarcar em Santos com as primeiras bolas de futebol - foi fundado, na China, o Hong Kong Football Club. O consolo é saber que o esporte não durou muito tempo por lá."Na realidade, não há um primeiro futebol, já que suas origens são muito antigas", escreve Murray. Alguns historiadores afirmam que o esporte, da forma como se conhece hoje, foi inventado nos internatos particulares ingleses, o que é desmentido com veemência pelo escritor escocês. Ele atribui aos "old boys", ex- alunos que, ansiosos em continuar a praticar seus esportes favoritos da faculdade, estimularam a criação de regras. Até então, por volta de 1840, cada instituição jogava a sua maneira, quase sempre com uma violência similar ao que se conhece hoje como vale-tudo.Regra oficial - A primeira tentativa de criar regras para coibir a violência veio em 1846, por meio de ex-alunos de Salop e Eton. Uma dessas regras proibia que os jogadores chutassem os adversários com botas revestidas de aço. Detalhe: a caneleira ainda não havia sido inventada. Dois anos depois, as bases da regra oficial do futebol foram criadas em Cambridge por representantes de vários internatos.Em 1871, já com a vigência da toda-poderosa Football Association de Londres (FA), surgiu o primeiro torneio "organizado" da história: a Copa Desafio, criada por Charles William Alcock, secretário da entidade entre 1870 e 1895. Foi ele quem levantou o primeiro troféu como capitão do time vencedor, os Wanderers.Murray narra ainda os primeiros embates entre partidários do profissionalismo e defensores ferrenhos do status quo do futebol, que não aceitavam jogar com o objetivo de conquistar troféus ou qualquer bugiganga que estivesse em disputa. Foi em meio a essas discussões que o "sumo-sacerdote do amadorismo", Nigel Jackson, criou o time que deu nome ao clube mais popular de São Paulo: o Corinthians Football Club. Ao contrário do que ocorreu por aqui, o time inglês era restrito aos "socialmente privilegiados".Uma História do Futebol aborda ainda os primórdios do esporte em campos, pátios de fábricas e escolas de países como Alemanha, Espanha, Itália, Hungria, Bélgica, Rússia, Austrália e até mesmo na Índia, uma das mais importantes colônias ingleses. Em sua minuciosa pesquisa, Murray reuniu informações ricas em detalhes: os primeiros clubes, os jogadores mais importantes, a construção dos estádios, as partidas inesquecíveis.A trajetória do futebol na América do Sul começou em Buenos Aires e Montevidéu, segundo Murray, que vasculhou a biblioteca da Associação Argentina de Futebol, localizada na capital do país. Sobre o Brasil, o pesquisador escocês narra uma história já conhecida por muitos brasileiros: a chegada de Charles Miller, que fundou o primeiro time brasileiro, em 1898, no Colégio Mackenzie, em São Paulo, e que, em 1901, criou o primeiro campeonato paulista.Mário Filho - No que se refere à história do nosso futebol, seria uma falta grave não mencionar O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho (irmão mais velho de Nélson Rodrigues), obra definitiva sobre a evolução do esporte no Brasil. A importância de Mário Filho para o futebol no País - especialmente no Rio, é verdade - é reconhecida por Bill Murray em seu livro. O pesquisador escocês ressalta que ele foi "um dos principais responsáveis pela integração do negro no futebol brasileiro". Sua contribuição foi tamanha que o Maracanã foi batizado com seu nome. Foi Mário Filho, por exemplo, quem cunhou a expressão Fla-Flu para designar o clássico carioca mais famoso.Mas Murray não se atém apenas ao passado do esporte. Vai além e analisa as conseqüências da descoberta do futebol pela TV as relações comerciais que decorreram desse fato e a importância da tecnologia para tornar o esporte ainda mais popular. Há um trecho do livro que ele define com precisão esse fenômeno: "A magia de Maradona é conhecida por milhões de pessoas no mundo todo, enquanto as histórias dos personagens da era pré-televisão não são mais do que mitos de uma geração mais velha."Enfim, Uma História do Futebol já é uma obra fundamental da bibliografia esportiva. E, mais importante: consegue ser um relato relativamente imparcial, atendo-se apenas a fatos históricos. E, convenhamos, ser imparcial quando o assunto é futebol é coisa rara.

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