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Luis Fernando Verissimo
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Escavações

É conhecida a história dos arqueólogos que, depois de anos de escavação, descobriram o que parecia ser restos de uma civilização antiga, até então desconhecida. Estavam prestes a anunciar a descoberta que os consagraria quando apareceu, no meio das ruínas, um paliteiro de plástico. E os arqueólogos ficaram no seguinte dilema: reconhecer que não tinham descoberto civilização desconhecida nenhuma ou revelar um fato espantoso, o de que a matéria plástica era muito mais antiga do que se supunha.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h06

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Há uma metáfora aí, em algum lugar. Seu significado talvez seja que, no fim, todas as sociedades são julgadas pelas suas exceções, pelos seus extremos e pelos seus detalhes, e a história e a sociologia estão sempre ameaçadas por dados incompletos. Por exemplo: sempre se pensou que a população de Pompeia tivesse sido surpreendida pela chuva de cinzas do Vesúvio, e que a maioria morrera dormindo. Hoje se sabe que o Vesúvio entrou em erupção dias antes, tremores de terra e explosões anunciaram a catástrofe que viria e a população já abandonara a cidade condenada quando as cinzas a encobriram, para serem desencavadas anos depois.

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Mas o mais impressionante em Pompeia são as estátuas dos mortos. Encheram de gesso os buracos deixados na cinza solidificada pelos cadáveres decompostos e cada espaço moldou um corpo branco, na posição em que estava na hora da sua morte. Mas se a maioria da população já tinha fugido das cinzas, isso significa que as tétricas estátuas brancas são de mortos excepcionais. São de céticos que duvidaram da catástrofe anunciada, curiosos que queriam ver como seria, aventureiros e megalomaníacos dispostos a desafiar a Natureza, suicidas, bêbados ou simplesmente distraídos. Enfim, são estátuas dos que ficaram.

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Durante anos, todos os estudos e todas as teorias sobre Pompeia presumiram que os fantasmas conservados em gesso eram exemplos de habitantes comuns da cidade e do seu fim em comum, quando eram dos seus excêntricos. A amostragem, que incluía dos mais científicos aos mais burros, não representava a imensa gama que existia entre os dois extremos.

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As novas revelações sobre o que realmente aconteceu em Pompeia naquele ano de 79 d.C. acabaram com mitos românticos, como o da suposta descoberta, sob as cinzas, de um casal abraçado, surpreendido pelas emanações do Vesúvio no ato do amor. Especulou-se muito sobre o que o casal estaria fazendo no fim, mas de uma coisa se pode ter certeza: o orgasmo, sob as cinzas ainda mornas do vulcão, foi maravilhoso.

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