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Escanhoar ou não escanhoar

Chargista do 'Washington Post', Herbert Block tinha como alvo preferido Richard Nixon, que retratava sempre com a barba por fazer, para realçar seu ar meio sinistro

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2018 | 02h00

Herbert Block, que se assinava “Herblock”, foi chargista do Washington Post por mais de 50 anos, durante os quais não faltaram alvos na política e na sociedade americanas para sua pena afiada. O senador McCarthy, furioso caçador de comunistas, ameaçou processá-lo mais de uma vez, e só conseguiu ser ainda mais ridicularizado. Mas o alvo preferido de “Herblock” foi Richard Nixon, quando este começou a se destacar como um político não, digamos, muito limpo. O chargista o retratava saindo de esgotos e aprontando maldades, e sempre com a barba por fazer, para realçar seu ar meio sinistro. 

Apesar da cara inconfiável e da ausência de qualquer tipo de credencial para o cargo, Nixon foi eleito presidente dos Estados Unidos, e governou até cair, vítima do escândalo de Watergate e das suas próprias mentiras. Mas a charge do Washington Post depois da eleição de Nixon surpreendeu todo o mundo. “Herblock” o desenhara saindo de uma cadeira de barbeiro, exemplarmente escanhoado. A legenda da “charge” era “Na barbearia do Herblock, todos têm direito a pelo menos uma barba de graça”. O que não quis dizer que no dia seguinte o agora presidente não voltasse a ser alvo do chargista, com barba cerrada e tudo

Escanhoar ou não escanhoar? A escolha é entre continuar lamentando a eleição de alguém como o Bolsonaro, cercado dos seus generais, ou aceitar o inevitável e lhes dar um crédito mesmo temporário, de confiança, já que o governo do cara ainda nem começou, poxa! A escolha é entre coerência e rendição – uma escolha que teremos de fazer, já que tudo indica que o governo que se aproxima vem cheio de contradições e choques de egos, pedindo uma imprensa investigativa como nunca antes. Eu, por sinal, escolho a coerência. 

Por falar em charges: nosso “Herblock”, o Chico Caruso, fez uma que resume tudo. O governo em formação: “Menos médicos, mais milicos”.

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