ESCALADA DO AMOR EM TEMPO DE CÓLERA

ELIANA CARDOSO

ELIANA CARDOSO, PH.D. EM ECONOMIA PELO , MIT, É PROFESSORA TITULAR DA FGV, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h07

Tristan Sadler, narrador protagonista do romance O Pacifista, de John Boyne, viaja de trem de Londres para Norwich em setembro de 1919. Vai devolver a Marian Bancroft as cartas que ela escrevera durante a 1.ª Guerra Mundial para o irmão, Will Bancroft. Tristan tem apenas 21 anos e sofre com a morte de Will, seu grande amor, executado nas trincheiras, acusado de covardia.

A história se desdobra em passos que oscilam entre a visita a Marian e as recordações da Base Militar de Treinamento em Aldershot e das batalhas nas trincheiras no Norte da França. Dos 20 homens com os quais Tristan treinara, sobreviveram apenas ele e outro soldado, que enlouquecera. O romance mantém o leitor de orelha em pé até a sua conclusão extraordinária e inesperada.

Depois de presenciar um crime de guerra, Will se transformara em pacifista absoluto: aquele que vai mais além do opositor de consciência, recusando-se até mesmo a participar nos trabalhos humanitários, acessórios às batalhas. Will admirava Arthur Wolf, outro pacifista, que aparece morto ainda na Base de Treinamento, no mesmo dia em que recebera a notificação de que lhe fora concedido o direito de não participar dos combates por razões de consciência. Tristan, Will e Wolf formam o triângulo amoroso.

O pacote de cartas não é a verdadeira razão da visita de Tristan a Marian. Ele precisa desabafar. Incerto e secreto, Tristan chega durante a noite para encontrar os proprietários do hotel em pânico, desinfetando o quarto onde deveria se hospedar. Na noite anterior, o ocupante do quarto trouxera consigo um jovem. Os proprietários assumem que ele não ficaria no quarto contaminado pelo escândalo. Mal sabem que o pai de Tristan o pusera para fora de casa ainda adolescente, quando a escola o expulsara por beijar um colega.

Pequenos detalhes informam volumes. Esquecer o próprio aniversário lembra ao leitor como Tristan se distanciara da vida familiar. No bar, Tristan conversa com um senhor mais velho que sabe, pelo sotaque de Tristan, em que bairro ele cresceu e diz adivinhar o que as pessoas pensam e sentem. Tristan o incita a revelar o que viu nele e o senhor responde: "Duas coisas. A primeira é culpa". "E a segunda?" "Ora, você se detesta." Caminhos cuidadosamente idílicos cortam a paróquia onde o pai de Will é vigário, em contraste com o apartamento acima do açougue onde Tristan passou a infância. A mãe de Will serve chá em xícaras de porcelana de alças dolorosamente pequenas.

O Pacifista é um romance sobre o amor e a guerra, sobre a paixão e o ciúme. Se o amor é tudo o que importa, por que o evitamos? Por que nunca o alcançamos? Neste livro, cada um oferece sua própria resposta. A esposa do vigário, resignada, lembra que cada pessoa lida com a adversidade a seu modo. Marian se casa com um pretendente briguento e instável e justifica a decisão insensata: "Ele estava lá e eu queria alguém para cuidar de mim naquele momento". A cada intimidade, Will se reprova, rejeita o amigo e opta pelo conforto sobre o amor: "Vamos fazer de conta que isso não aconteceu. Pensando bem, não aconteceu mesmo. Isso não vale, a não ser, sabe... a não ser que seja com uma garota." E em outra ocasião: "Nós não podemos simplesmente... você sabe... simplesmente ser apenas amigos quando estamos sozinhos e soldados o resto do tempo?"

Sexo entre homens era ilegal em 1916, mas o amor entre o filho do açougueiro e o filho do vigário? Tristan ama Will e Will não tem ideia do que o espera. Nem o leitor. Bom contador de histórias, Boyne nos leva por uma trilha que pensamos reconhecer apenas para nos surpreender com a tragédia do amor transformado em raiva indomável. Will nunca adivinha o que o aguarda e nós, também não. Mas não vou estragar seu prazer lhe contando o desfecho da história.

As representações das trincheiras são eficazes, embora pouco originais, com seus ratos, pulgas, lama, escuridão e cadáveres. A prosa de Boyne, corretamente delicada, permeia todo o livro e também as passagens de sexo entre os dois soldados: "(Ele) começa a descer as mãos pelo meu corpo, tocando cada parte dele, e dessa vez eu decido não dar ouvidos à voz dentro de mim, que diz que são apenas alguns minutos de prazer em troca de quanta hostilidade da parte dele, pois não importa; pelo menos nesses minutos, posso acreditar que já não estamos em guerra".

O autor exibe empatia com os homossexuais, mas parece incapaz de entrar na consciência dos preconceituosos. A sensibilidade em relação ao sofrimento de Tristan retratada com vida contrasta com falta de refinamento dos retratos quase caricaturais do pai de Tristan ou do sargento James Clayton, que formam um universo moral no qual o autor se sente fora da própria pele. E isso o coloca a quilômetros de distância das sutilezas de um Henry James ou da perspicácia de Tolstoi, por exemplo.

No artigo Empathy (New York Review of Books, 10/2012), em que Walter Keiser chama Caravaggio de shakespeariano pela sua capacidade de empatia por pessoas (inclusive os assassinos que pinta), Keiser se refere a uma história sobre Tolstoi e Chekhov, que passeiam numa manhã de primavera, quando se depararam com um cavalo na floresta. Tolstoi começou a falar sobre o cavalo, imaginando o que o animal iria pensar sobre as nuvens pesadas, as árvores e suas sombras, o cheiro da terra molhada... Chekhov pergunta admirado se Tolstoi fora um cavalo em vida anterior e Tolstoi responde: "Não, mas o dia em que me deparei com meu próprio ser interior, deparei-me também com o dos outros".

Mas Tolstoi é Tolstoi e Boyne não parece ser capaz de esticar nossa imaginação para apreender a alteridade do passado - território estrangeiro, com certeza - e, assim, apenas reforça a sensação reconfortante de nossa própria superioridade e tolerância moral em relação à sociedade inglesa do período da 1.ª Grande Guerra, com seu horror ao homossexualismo e seu desprezo por pacifistas covardes.

Por que Boyne escolhe o nome Tristan Sadler para o protagonista de seu livro? Difícil acreditar que não exista uma alusão à história de Tristão e Isolda, que ocupa espaço importante entre os mitos da Irlanda, onde o autor nasceu. No livro de Boyne, o herói se apresenta: "Eu sou Tristan" - e Marian ironiza: "Um cavaleiro da távola redonda"?

O Tristão medieval, filho do conde Rivalin e de Blanchefleur, irmã do rei Marcos, fica órfão quando Rivalin morre em batalha e Blanchefleur morre de desgosto. Anos mais tarde, reconhecido pelo tio, o rei Marcos, Tristão luta e mata Morolt, gigante irlandês, deixando um entalhe da lâmina de sua espada no crânio de Morolt. Mas Tristão ferido na luta carrega um veneno que só Isolda, rainha da Irlanda, pode curar. Disfarçado como músico, Tristão chega à Irlanda, encanta a todos e torna-se tutor da princesa, que também se chama Isolda. Curado, retorna ao reino de Marcos a quem promete que lhe trará a princesa. Volta à Irlanda, onde o rei entregaria a filha para ao matador do dragão que assusta seus súditos. Tristão o faz, corta-lhe a língua, mas desmaia. O despenseiro, vendo o dragão morto, corta-lhe a cabeça e vai ao tribunal para reivindicar Isolda. Tristão se recupera e revela o golpe. Isolda percebe que a lacuna na lâmina da espada de Tristão corresponde à peça tirada da cabeça do tio Morolt e fica triste com a perspectiva de seu casamento com o rei Marcos. Ciente da angústia da filha, a mãe dá à serva, Brangaene, uma poção de amor destinada a Isolda e Marcos. Quando o barco se aproxima da terra, Tristão pede vinho, e uma empregada, sem se dar conta, serve a poção de amor a Tristão e Isolda, que ficam irremediavelmente enamorados.

A poção serve o propósito de desculpar os amantes? Ou, pelo contrário, nos faz perceber o amor como algo além do que os humanos podem alcançar com seus próprios recursos? Talvez a poção mostre a força do amor apaixonado que não existe entre o casal comum. Seria esse o amor destrutivo de Tristan Sadler por Will Bancroft em O Pacifista?

Talvez eu exagere o paralelo entre o amor do Tristão medieval e o de Tristan Sadler por Will Bancroft. Com certeza, existem convenções sociais, referências históricas, semânticas e etimológicas a guiar a invenção de nomes, embora não existam regras estabelecidas. Mas há quem procure uma relação intrínseca entre o nome e a natureza do personagem, embora o autor mais comedido prefira um nome com travo de verdade que não revele seu significado de maneira evidente. Se alguns nomes da ficção carregam pistas semânticas sobre a natureza dos seus proprietários, outros como Tom Jones não dão margens a interpretações, sendo nomes absolutamente comuns.

O que torna perfeito o nome que veste um personagem? É o vestido que revela a beleza do corpo ou é o corpo que empresta o fogo ao vestido vermelho? Se Riobaldo e Diadorim tivessem nomes menos sonoros, seriam os mesmos? O poder desses nomes deriva não deles mesmos, mas das personalidades de cada um desses jagunços na voz única de Guimarães Rosa? A razão pela qual achamos que o nome de Macabéa se encaixa com perfeição na retirante de Clarice Lispector deriva do poder desse nome evocativo ou é a leitura repetida de A Hora da Estrela que lhe empresta poder? Cada invenção parece única e nos deliciamos quando encontramos o nome exato para a pessoa, seu gênero, tempo e trabalho.

Em O Barril de Amontillado, Edgar Allan Poe transmite ao leitor a impressão de unidade fatal entre o assassino e sua vítima, ao escolher o nome de cada um deles - Fortunato e Montresor - como um retrato da riqueza. O confronto entre os dois personagens evoca um duelo com o enigma da identidade.

Autores também podem cruzar dois nomes para obscurecer seu propósito narrativo. O exemplo clássico é Tristram Shandy, que adquire o seu primeiro nome, porque uma empregada não pode pronunciar "Trismegisto" e o padre, pronto para o batismo, acha que ela quis dizer "Tristram". O herói adquire, assim, nome de cavaleiro (uma forma de Tristan). Mas seu sobrenome, Shandy, significa violento ou selvagem. A combinação dos dois nomes disputa a interpretação do leitor da mesma forma que a narrativa transforma narrativas de cavaleiros andantes em infindáveis digressões verbais. Não é por acaso, porém, que o nome que Tristram Shandy deveria ter sido Trismegisto, correspondendo ao nome do deus sincrético, que combina o grego Hermes e o egípcio Thot, ambos deuses da escrita e da interpretação em suas respectivas culturas.

Mas não se preocupe. Essas complicações estão ausentes de O Pacifista, pois Tristan Sad-ler é triste duas vezes, no nome e no sobrenome.

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