"És Tu Brasil", de Murilo Salles, chega à TV

Logo na abertura de És Tu Brasil, o diretor Murilo Salles, falando para a câmera, explica a origem do projeto. Embora consciente de que a questão da brasilidade é complexa - cita, numa entrevista por telefone, Roberto Schwarcz, na sua tese sobre Guimarães Rosa, que discutia a brasilidade dizendo que somos brasileiros e universais -, ele afirma que essa série de quatro filmes curtos nasceu da sua vontade de discutir a identidade nacional. Para fazê-lo, selecionou quatro artistas e documentou o processo de criação de cada um deles: Tunga, Débora Colker, Carlinhos Brown e Alexandre Herchcovitch. Murilo gostaria que És Tu Brasil fosse exibido na íntegra. O problema é que a duração do filme (110 min) ultrapassa o que a produtora TV Cultura costuma destinar aos documentários, algo em torno de uma hora. És Tu Brasil será exibido em duas partes. O diretor acha que a eficiência do seu trabalho depende da fricção entre as partes e ela fica prejudicada pela apresentação em capítulos, mesmo que sejam só dois. O mais curioso é que a primeira parte de És Tu Brasil chega amanhã às TVs Cultura e Senac, com os filmes sobre Tunga e Débora Colker - os outros dois passam no sábado, dia 23 -, no momento em que o Centro Cultural São Paulo, tomando como ponto de partida a reedição (revista e ampliada) do livro Cineastas e Imagens do Povo, de Jean-Claude Bernardet, exibe um ciclo com o mesmo título. Por meio de duas ficções (O Homem Que Virou Suco, de João Batista de Andrade, e Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos) e de vários documentários de curta e média-metragem, o ciclo do CCSP também não deixa de discutir essa questão da brasilidade. Como expressar a identidade nacional? No caso de alguns clássicos do ciclo, ligados ao Cinema Novo, a questão da brasilidade consistia em mapear um Brasil distante das telas, colocando para o público a cara desconhecida do brasileiro - da cidade ou do sertão. No documentário de Murilo Salles, a questão é mais sofisticada. O povo é substituído por artistas de projeção nacional e internacional, flagrados em pleno processo de criação. Murilo considera És Tu Brasil seu melhor filme. A discussão, aqui, é sobre a brasilidade na era da globalização. Até porque o diretor deixou os artistas livres para se expressarem, o grau de adesão talvez dependa do sentimento do espectador pelos quatro selecionados. Murilo é sempre interessante, mas esse não é seu melhor filme. O melhor tem de ser escolhido entre o primeiro, Nunca Fomos Tão Felizes, e o quarto, Como Nascem os Anjos. O mais provocativo será sempre Pornografia, pelo uso que o cineasta faz de um símbolo pátrio: a execução do Hino Nacional superposta às imagens de um casal que faz sexo, em seis posições. Já era, claro, uma discussão sobre a brasilidade.És Tu Brasil - Direção de Murilo Salles. Amanhã, às 21 horas. TV Cultura e Sesc Senac

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