Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Eruditos e quase famosos

Com a complexa missão de popularizar a música clássica, a TV Cultura recebe jovens de todo o Brasil para retomar sua espécie de ''Ídolos'' da batuta

Paulo Cunha, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

No centro do palco do Teatro Franco Zampari, em São Paulo, o maestro Júlio Medaglia acerta com a orquestra os últimos detalhes. Os músicos afinam os instrumentos e quem se prepara para entrar em cena são seis candidatos de idades, procedências e estilos bem diversos. Nenhum deles é conhecido no meio. Ao contrário: procuram exatamente por uma projeção. Trata-se da sexta temporada do programa Prelúdio, da TV Cultura, que avança a todo vapor. No último sábado, foram gravadas as duas primeiras eliminatórias, que vão ao ar amanhã e no próximo domingo, sempre às 16 h. Como nas temporadas anteriores, são oito eliminatórias, duas semifinais e a grande final, que será realizada na Sala São Paulo. As duas últimas etapas (semifinais e final) serão transmitidas ao vivo, dias 28 de novembro, 5 e 12 de dezembro. O vencedor do Prelúdio deste ano ganhará uma bolsa de estudos na Alemanha, oferecida pelo Instituto Goethe, além de uma vaga como solista em um concerto especial promovido pela TV Cultura.

Trata-se do único programa de calouros de música clássica da TV brasileira. No ar desde 2005, quando foi realizada a primeira temporada, o Prelúdio agora quer derrubar barreiras. "É essencialmente um programa de auditório, como os que havia na época da bossa nova e da Jovem Guarda", afirma Medaglia, que viveu intensamente aquela época, nas décadas de 1950 e 1960. "É preciso acabar com esse formalismo excessivo da música erudita, para que ela possa se popularizar e atingir outros públicos." De fato, a 6.ª edição do Prelúdio chega com algumas mudanças no formato, sempre em busca da informalidade. Por exemplo, não se exige que os candidatos usem traje de concerto, como ternos ou vestidos longos. Agora, eles podem se vestir do jeito que se sentirem mais à vontade. Quase a totalidade dos rapazes optou por uma camisa social sem gravata e uma calça comum. Para Medaglia, é preciso tornar a música erudita tão popular quanto qualquer outra. Parece que vem dando certo. Na fim do ano passado, a Sala São Paulo ficou lotada, com torcidas uniformizadas na plateia. "Tinha um clima de Corinthians e Palmeiras", conta o maestro.

 

 

 

 

 

Vídeo videoVeja os concorrentes em ação   

 

 

 

 

 

Pela primeira vez, os candidatos são acompanhados por uma orquestra fixa, a recém-formada Filarmônica Vera Cruz, de São Bernardo do Campo. O nome é em homenagem aos estúdios que um dia já foram considerados a Hollywood brasileira.

Os candidatos têm entre 12 e 30 anos. Na lista de instrumentos estão piano, tuba, saxofone, violão, violino, violoncelo e clarinete, além do canto. O pianista Lucas Thomazinho, de 15 anos, não parece estar numa eliminatória ao circular tranquilo pelos corredores. "Ele tem sangue frio, ao contrário de mim", brinca o pai Sergio. Desde muito cedo a família já suspeitava que Lucas fosse um prodígio. Aos 2 anos ele marcava os compassos com o pé enquanto o pai tocava piano. Aos 4, tirava de ouvido melodias que ouvia na TV. Lucas estuda no Conservatório Magda Tagliaferro e dedica de 4 a 5 horas por dia ao piano. É um garoto que curte cinema, vai ao shopping com os amigos e frequenta matinês de música eletrônica. Assim que terminar o ensino médio, quer estudar música erudita nos EUA. "Meus colegas ainda não sabem o que querem ser, mas eu já sei", afirma.

O tubista Gustavo Campos, de 24 anos, está um pouco mais nervoso. A tuba, para ele, não é só um instrumento para acompanhar orquestras. "Ela tem uma enorme versatilidade, descoberta só após muito preparo." O estudo da tuba, segundo ele, é diferente por envolver uma parte preparatória mais física. "Faço exercícios de respiração e alongamento antes de pegar no instrumento. Sou quase um atleta", brinca.

Voz baixa e pausada, de perfil sóbrio, o clarinetista Tiago Carvalho, de 20 anos, respira música clássica 24 horas por dia. Natural de Bom Sucesso (Minas Gerais), chegou a São Paulo no início do ano para estudar na Unesp. Sua rotina é estafante, mas, segundo ele, proveitosa. Tiago pratica seu instrumento de manhã, assiste a aulas à tarde e ensaia de noite. A música erudita é tudo o que ouve quando quer relaxar. E um outro candidato, o violoncelista Rafael Cesário, de 21 anos, é músico contratado da Orquestra de Ópera do Theatro São Pedro. Em vez de música clássica o tempo todo, ouve também choro, bossa, MPB e música evangélica. "Arte e religião são duas coisas que não se misturam, apesar de serem, ambas, espirituais", diz.

As duas cantoras que participaram das primeiras eliminatórias são casos à parte. Uma é personal trainer; outra é fã de Lady Gaga. Andréia Souza é formada em educação física e estuda canto desde pequena. Contratada do Coral do Theatro São Pedro, completa o orçamento doméstico com aulas de preparação física. Alguns de seus alunos são cantores como ela. "Sou uma personal lírica", diverte-se. A gaúcha, radicada no Rio, Maíra Lautert quer divulgar a obra de Carlos Gomes.

E Iron Maiden. Começou a estudar a ópera O Escravo este ano para um concurso no qual foi premiada. Entre suas influências estão também Mozart, Puccini e Wagner. E, acredite: Rush, Iron Maiden, Freddie Mercury, Beyoncé e Lady Gaga. "Gosto das vozes e das vidas desse pessoal", conta Maíra, com conhecimentos específicos do tipo "o Bruce Dickinson, do Iron Maiden, come mamão papaia de manhã para cuidar da voz e a Lady Gaga estuda piano desde a infância".

ALGUNS CONCORRENTES

LUCAS TOMAZINHO

PIANISTA, 15 ANOS

Lucas defendeu sua vaga com o Concerto n.º 2, Opus 22, 1.º Movimento, de C. Saint-Saëns. Quando tinha apenas 2 anos, já marcava o tempo das músicas com os pés. Dois anos depois e já conseguia tirar de ouvido, ao piano, melodias que ouvia na TV. Ele é aluno do Conservatório Magda Tagliaferro e dedica de 4 a 5 horas por dia às teclas.

RAFAEL CESÁRIO

VIOLONCELISTA, 21 ANOS

De Santana de Parnaíba, São Paulo, Rafael Cesário ensaiou o Concerto para Violoncelo, Opus 129, 1.º Movimento, de Schumann. Cesário é contratado da Orquestra de Ópera do Theatro São Pedro, de São Paulo. Em vez de música clássica o tempo todo, ouve também choro, bossa nova, MPB e música evangélica em suas horas vagas.

MAÍRA LAUTERT

CANTORA, 30 ANOS

A concorrente de Porto Alegre defende a ária O Ciel di Parahyba, da ópera O Escravo, de Carlos Gomes. Nas influências de Maíra convivem harmoniosamente Mozart, Puccini e Wagner com a banda de rock progressivo Rush, o heavy metal do Iron Maiden, os vocais de Freddie Mercury e as canções de Beyoncé e Lady Gaga.

ANDRÉIA SOUZA

CANTORA, 30 ANOS

A candidata de São Paulo apresentou ária da ópera Porgy and Bess, de George Gershwin. Formada em educação física, estuda canto desde pequena e é contratada do Coral do Theatro São Pedro. Além de musicista, é professora de educação física, mas brinca ao se definir como "personal lírica". Alguns de seus alunos são cantores como ela.

TIAGO CARVALHO

CLARINETISTA, 20 ANOS

O jovem concorrente de Bom Sucesso, Minas Gerais, veio com o Concerto n.º 2 para Clarineta e Orquestra, 1.º Movimento, de Carl Maria von Weber. Ele estuda na Unesp e é um dos poucos candidatos que respiram música clássica 24 horas por dia. Sua rotina é estafante, mas, segundo ele, muito proveitosa para quem quer se especializar.

GUSTAVO CAMPOS

TUBISTA, 24 ANOS

O músico de Atibaia, São Paulo, trouxe o Concerto para Baixo Tuba, de Vaughan Williams. Ele também se define como "quase um atleta", pelo nível de preparação física que um músico deve ter para encarar tal instrumento. Outra preocupação: deixar claro que a tuba é mais do que um instrumento sinfônico, apesar de ser mais usado assim.

 

 

 

 

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