Robson Fernandjes/AE
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Erudito popular

Compositor argentino Osvaldo Golijov mostra em concertos com a Osesp mistura de influências que conquistou o cenário internacional

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Sentado na plateia vazia da Sala São Paulo, o compositor argentino Osvaldo Golijov ouve os últimos momentos do ensaio da tarde de terça-feira. Sob a regência do peruano Miguel Harth-Bedoya, a Sinfônica do Estado interpreta Last Round, uma das peças que fazem parte dos concertos desta semana do grupo, dedicados ao autor. Enquanto a orquestra se dispersa, ele conversa com o maestro; cumprimenta a violoncelista Alisa Weilerstein, agradece o spalla Emanuelle Baldini. E tira da mochila um pandeiro, no qual começa a tamborilar, um tanto tímido. "Acabei de comprar, é para o meu filho", explica, com um sorriso no rosto.

Aos 49 anos, Golijov é daqueles casos raros no cenário atual - um compositor erudito celebrado como ícone de uma geração. Já se foi o tempo em que, como disse o New York Times no começo dos anos 2000, ele era o "segredo mais bem guardado da música mundial". Nos Estados Unidos, onde vive hoje, suas obras são encomendadas e interpretadas pelas principais orquestras; seus discos, indicados quase anualmente a prêmios Grammy, vendem bem para os padrões da indústria e ele é o único compositor vivo a ter um contrato de exclusividade com uma gravadora, a Deutsche Grammophon.

A revista The Economist o definiu como um "poliglota musical". Mistura é de fato palavra-chave para entender sua música. Nela, cabem desde o tango inspirado em Piazzolla até pinceladas da vanguarda europeia mais radical, passando pelo samba brasileiro, a música africana e elementos das culturas judaica e árabe. São influências que convivem naturalmente em sua trajetória e, muitas vezes, no espaço curto de uma só peça - frequentemente implodindo a linha que separa o erudito do popular. Música étnica? Música pop? Erudita? Pós-moderna até a medula, símbolo da liberdade que substituiu as escolas de composição surgidas nos anos 50? Na tentativa de definir o trabalho do compositor, vale tudo.

"De certa forma, acho mais fácil explicar essa mistura aqui no Brasil, na América Latina, do que nos EUA ou na Europa, pois a diversidade cultural não é um elemento estranho ao nosso dia a dia", diz. No seu caso, é algo vivido desde a infância. Filho de judeus do Leste Europeu, cresceu em Buenos Aires ao som das aulas de piano da mãe, apaixonada por Bach, e das gravações de tango do pai. Depois dos primeiros estudos, morou em Israel, passou pela Europa e foi aluno de George Crumb nos EUA. "Sempre foi natural para mim essa diversidade e ela surge em minha obra não necessariamente como um projeto mas, sim, como algo espontâneo, que tem a ver com modelos como Piazzolla, Villa-Lobos ou mesmo Tom Jobim."

Diálogos. É daí que vem a união de elementos musicais judeus, árabes e cristãos em uma obra como Ayre, ciclo de canções escrito para sua musa, a soprano Dawn Upshaw; ou a tropicalização de Bach em A Paixão Segundo São Marcos, talvez sua obra mais conhecida. Em São Paulo, a Osesp interpreta além de Last Round, homenagem a Piazzolla escrita sob o impacto da notícia de sua morte, Oceana e Azul, para violoncelo e orquestra. "A escolha de obras de certa forma é representativa de dois momentos do meu trabalho. Last Round e Oceana são peças de juventude, enquanto Azul está mais próxima da linguagem que busco atualmente."

A descrição dessa linguagem o coloca nos limites entre o erudito e o popular, onde o que parece importar não é encontrar hierarquias mas, sim, diálogos. "É algo que chamo de lirismo cósmico", diz ele, sorrindo. "A ideia por trás da música é buscar uma melodia vasta, que não se encerra e carrega sua própria harmonia. E isso eu procuro trabalhando especialmente os coloridos e as texturas orquestrais, de maneira densa. No que diz respeito às cores, por exemplo, não me interessam tons audaciosos mas, sim, que se transformem constantemente. O mesmo vale para o ritmo, que me parece mais interessante quando não é entregue de maneira clara mas, sim, de maneira orgânica. No fundo, o que procuro é um senso rítmico popular que respire de maneira orquestral. Como fazer essa tradução? Em peças como a Paixão ou (a ópera) Ainadamar, o elemento popular dominava. Agora, busco uma interação mais orgânica, fazer a música respirar orquestralmente sem perder a vivacidade. "

Para o crítico Jeremy Eichler, do New York Times, essa procura faz de Golijov "a solução para os dilemas da composição atual". Isso porque ele muda "profundamente a geografia do mundo da música clássica, jogando fora o mapa eurocêntrico e seguindo a rota da lixeira da história." Em Concerto Barroco, livro dos anos 1970, o intelectual cubano Alejo Carpentier já discutia a situação do artista latino-americano perante o cânone, a tradição europeia. Como Golijov experimentou essa situação?

Aceitação. "A princípio, com um certo sentimento de inferioridade, o que me parece natural. Mas logo o deixei de lado. A morte de minha mãe, quando eu tinha 20 e poucos anos, me libertou de uma maneira profunda no sentido da exploração e aceitação do que sou. E lembro de um episódio pouco depois, quando participei do Festival de Tanglewood. Fomos ter aulas com o compositor William Bolcom e ele pediu que nos apresentássemos. Quando disse que era argentino, ele imediatamente falou: "Ah, a terra de Piazzolla!". Isso produziu um efeito sobre mim. Piazzolla era um amor privado meu e ver alguém como Bolcom se referindo a ele de maneira elogiosa me deu permissão para vivê-lo abertamente."

Golijov nunca se filiou a escolas específicas de composição - mas não engrossa o coro de condenação aos dogmas que surgiram nos anos 50 e 60. "Em retrospecto, é sempre fácil falar e criticar. Mas aquele foi um momento importante, de busca de novas linguagens, que é facilmente explicado historicamente. Claro, os seguidores de autores como Ligeti e Berio nem sempre tiveram a genialidade de seus mestres, o que levou a repetições pouco originais de modelos. Mas, veja, coisas geniais e estúpidas podem surgir tanto de um cenário rígido como da liberdade total."

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