Erudito, multifacetado e torrencial

Signâncias traz estudos e depoimentos sobre a obra e a personalidade do poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos

Lucia Santaella, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

O cientista e filósofo norte-americano C.S. Peirce - fundador da semiótica, ciência dos signos - desenvolveu uma teoria da imortalidade humana que me parece oportuna para introduzir a apresentação do livro Signâncias - Reflexões Sobre Haroldo de Campos, organizado por André Dick. Para Peirce, nós temos dois tipos de existência. Uma é a existência individual, corpórea, fechada em uma caixa de carne e sangue, a outra é a existência espiritual, que o ser humano tem em si e que leva consigo nas suas opiniões e sentimentos, simpatia, amor; isto é o que serve como evidência de seu valor absoluto e esta é a existência que a lógica considera certamente imortal, uma imortalidade que depende de o homem ser um verdadeiro símbolo.

Exemplar da imortalidade do ser humano como símbolo é a preservação dos mortos na memória dos vivos, nas lembranças que deixaram, nas falas que os relembram, nas cerimônias e rituais da dor e da saudade. Entretanto, nada poderia ser mais demonstrativo da verdade simbólica humana e de sua eternização do que a capacidade de alguns seres humanos para imprimir em obras o brilho do seu espírito. Esses são os que inventam, criam, dão corpo ao pensamento e à sensibilidade em símbolos externos que se incorporam ao acervo dos grupos, das nações, dos povos, da espécie. Não é casual que essas pessoas são muito justamente chamadas de imortais, na medida exata da grandeza da obra em que se eternizam, aliás, uma grandeza que o tempo faz crescer em horizontes de leitura que se expandem continuamente.

Embora a morte de Haroldo de Campos (1929-2003) seja relativamente recente, os livros que vieram a público para dar testemunho do inestimável valor do seu legado já permitem prever o crescimento de sua obra nas leituras nela inspiradas e por ela instigadas. O primeiro livro, admirável, Céu Acima. Para Um Tombeau de Haroldo de Campos, organizado por Leda Tenório da Motta, foi publicado em 2005 (Perspectiva). Agora surge este volume bem-cuidado, Signâncias, contendo reflexões de alguns mestres capazes de se alçar à altura da vida e da obra que comentam. Entre os textos, belíssimas fotos de Haroldo, generosamente cedidas por amigos que o fotografaram, colocam o leitor face a face com o olhar agudo e intrigante na paisagem de um rosto cuja expressão sinaliza a urdidura complexa de um espírito exigente que se sabe grande.

Trata-se do primeiro livro de uma série sob o nome de Noigandres, título da revista que nos anos 1950 os irmãos Campos e Décio Pignatari editaram para divulgar as produções da poética concretista em que estavam engajados. Inaugurar a série com artigos e ensaios sobre Haroldo de Campos é emblemático. Sob patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura, a editora se chama Risco. Para o ato inaugural, ninguém melhor do que um poeta para o qual poesia é risco, viagem ao desconhecido, enfrentamento com o impossível que o ofício da criação desafia.

Os textos são um misto de testemunho, depoimento, memórias, biografia intelectual, vida comentada no tecido das obras. Além de conhecedores e especialistas na obra, os autores conviveram e alguns deles foram amigos próximos ao poeta. Por isso mesmo, o livro ainda exala o ser vivo, humano, nele ainda se ouve o Haroldo de Campos de riso aberto e fala torrencial, nele ainda se é capturado pelo entusiasmo contagiante e fascínio das "signâncias quase céu" nos grãos da viva voz do poeta.

Os artigos e ensaios de punho de Luiz Costa Lima, Jacob Guinsburg, Carlos Ávila, Susana K. Lages, Aurora Bernardini, entre outros, são unânimes no realce que dão ao caráter polimorfo da produção haroldiana: poeta, tradutor, pensador, teórico, ensaísta, "escritor-crítico e crítico escritor", para usar as expressões empregadas por Leyla Perrone-Moisés. Grande ênfase é colocada na genialidade do conceito da tradução poética como transcriação. No dizer do poeta, citado por Yun Yung Im: "A dificuldade é o sal da terra da tradução criativa. O prazer do jogo. Tenho afirmado, mais de uma vez, que em matéria de tradução de poesia vige a lei da compensação: o que não se pode obter de um modo, se consegue de outro."

Também são postas em relevo as inúmeras conexões internacionais, afinidades eletivas que Haroldo de Campos cultivou pelo mundo afora, uma rosácea de admiráveis escritores latino-americanos, além de pensadores da estatura de Jacques Derrida, Max Bense, entre poetas como Pound.

Acima de tudo, é a trajetória da poética haroldiana que ganha luz nas palavras de Marcelo Tápia: "Transmutação, confronto, passagem, viagem, ousadia no trânsito e na superação de limites: a jornada de Haroldo em toda a sua obra é emblematicamente representada por Finismundo, talvez seu poema máximo: nele o poeta chega ao cume de seu processo interespaços, navega destemida e firmemente no "mar encarnado, avermelhado, multitudinoso, cor de vinho" (tema de uma passagem de Galáxias), com a sensibilidade de quem sorve o aroma, desfruta das notas do paladar e deglute, "antropofagicamente", toda a humanidade e sua história criadora, reinventando-a."

LUCIA SANTAELLA É PROFESSORA DA PUC-SP, AUTORA, ENTRE OUTROS, DE COMUNICAÇÃO E PESQUISA (BLUECOM) E LINGUAGENS LÍQUIDAS NA ERA DA MOBILIDADE (PAULUS)

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