ERUDIÇÃO PARA TODOS

Dedicado à cultura, canal Arte1 chega para popularizar artes refinadas

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h14

Se estivessem vivos. Fellini e Beethoven já poderiam ficar despreocupados na hora de brigar na televisão por público com o último blockbuster de ação ou com o cantor de sertanejo universitário que lidera os pedidos nas rádios. Com programação inteiramente dedicada à música erudita, documentários, filmes clássicos, fotografia e arquitetura, o canal Arte1 tem sua estreia oficial hoje - dia em que também passa a ocupar a posição 115 no line-up da Net - e tem o objetivo de se firmar como espaço para todo tipo de arte refinada na TV.

"Algumas pessoas nunca tiveram chance de ver o (Ingmar) Bergman. Vamos apresentar de uma maneira acessível. Somos segmentados, mas não queremos ser uma TV de nicho. Temos essa missão de falar para um público maior", avisa Rogério Gallo, diretor-geral do canal pago, que pertence ao Grupo Bandeirantes. Ele divide uma única sala, na sede da emissora-mãe, no Morumbi, com 30 pessoas da produção, edição e departamento comercial. A estrutura ainda é tão pequena que parte do ambiente está sendo transformado em estúdio.

Aprovado como canal brasileiro de espaço qualificado - que transmite pelo menos 12 horas diárias de conteúdo nacional feito por produtoras independentes -, o Arte1 está em teste desde dezembro no pacote básico de operadoras, como Sky e Claro TV e alcançou 6 milhões de assinantes. Com a entrada na Net, a base deve chegar aos 10 milhões.

A ideia do canal é popularizar concertos, óperas e filmes do circuito de arte. "Os programas sempre têm uma introdução em que você situa sem ser didático. Não há intenção de ser professoral, não é um canal educativo. É sempre um sabor que, se você já conhece a história, não vai ficar ofendido. O cara que não conhece vai falar 'Nossa!'. É para abrir a porta para um público novo."

Em um momento em que as TV pagas investem na classe C, o diretor afirma que também está de olho nesse filão. "A gente dá acesso ao público que não foi ao Scala de Milão, ao Louvre, e traz conteúdo que vão curtir. Essa classe ascendente, do mesmo jeito que quer consumir, também quer ter acesso a outro tipo de conteúdo. Faz parte dessa ascensão social", avalia.

O projeto do canal começou há dois anos, mas caminhou lentamente por causa das mudanças da legislação da TV paga, que passou a exigir mais conteúdo brasileiro. Segundo Gallo, o mercado audiovisual ficou inflacionado por causa do aumento da compra de programas de produtoras. "Antes, não havia concorrente. Hoje criou-se demanda. O custo mais que triplicou. Mas, como somos um canal específico, isso faz com que produtores e cineastas prefiram fazer negócio conosco", explica.

O investimento do Arte1 tem sido pesado. Foram adquiridos longas do acervo da produtora VídeoFilmes, responsável por Cidade Baixa, Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje, além dos documentários de Eduardo Coutinho. O canal também está financiando a restauração de Claro, filme de Glauber Rocha rodado em 1975. "A negociação foi complicadíssima. É um filme que não foi telecinado (transferido da película para o vídeo). Vamos arcar com os custos e exibir", conta Gallo, que também planeja lançar um selo de cinema para fortalecer a marca no circuito de arte. A pouca produção de conteúdo sobre arte mais sofisticada tem sido um desafio. "De dança não tem nada. Fiz um acordo com a São Paulo Companhia de Dança."

O diretor conta que o canal está pronto para ir ao ar em alta definição quando o sinal for liberado. Gallo diz ainda que o serviço de vídeos sob demanda deve demorar para acontecer . Por enquanto, há apenas uma parceria com um portal para deixar programas disponíveis na internet.

Para produzir as atrações, gravadas por equipes do canal e de produtoras independentes, o Arte1 conta com verba do Fundo Setorial. Um dos programas feitos a partir desse modelo é uma séria sobre o roubo de obras de arte nos museus brasileiros. "Queremos fazer um thriller. Tem o cara da FBI, reconstituição em 3D. Vamos falar do artista, o movimento ao qual ele pertenceu, alguma curiosidade sobre o museu. É uma série policial com fundo artístico."

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