Erthos albino e a poesia que nasce das máquinas

RIO

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2010 | 00h00

Em julho de 1972, numa carta, o poeta mineiro radicado na Bahia Erthos Albino (1932-2000) anunciava ao amigo e colega de caminhada artística Augusto de Campos que estava trabalhando com um computador, no qual já fazia "experiências com letras e palavras".

Albino, até então pouco conhecido - como o é ainda hoje, uma década após sua morte -, era engenheiro da Petrobrás, daí o acesso às máquinas que começavam a despertar a atenção dos artistas e sobre as quais a grande maioria dos brasileiros mal havia ouvido falar. Não por acaso, ele acabaria por se tornar um precursor da poesia digital.

A trajetória, errática e discreta, foi acompanhada com entusiasmo por Campos, interlocutor por mais de 30 anos, e agora curador, com André Vallias, da mostra Erthos Albino de Souza - Poesia: do Dáctilo ao Dígito, em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio até 24 de outubro.

Desde agosto, a pequena sala de exposição intriga os visitantes do centro cultural. É a primeira exposição de seus poemas alfanuméricos e visuais criados nas três décadas em que se manteve em atividade, e publicados em revistas experimentais que se perderam no tempo.

Nas paredes, estão trabalhos como a imagem de Brigitte Bardot formada com letras, números, pontos e asteriscos, criada a partir de uma famosa fotografia. O papel é dos antigos computadores da Petrobrás, com entrada por cartões perfurados, os mesmos que os funcionários da empresa levavam para casa para os filhos desenharem nos anos 70 e 80. Jogos de palavras aparecem aos montes, em associações como vereda-verde-ver, rocha-broca, areia-mareia-sereia, rio-murmúrio, população-pílula-diminui-copulação.

Estão lá os primeiros poemas, feitos na máquina de escrever no fim da década de 60, antes de ele passar ao computador mainframe (de grande porte, nascido nos anos 40, e dedicado normalmente ao processamento de um volume grande de informações).

O poeta Décio Pignatari, outro amigo (como Haroldo de Campos, Paulo Leminski, gente da palavra e das artes plásticas), descreveu Albino como "um livro à procura de autor".

Para Campos, a quem Albino se juntou na revisão da obra do poeta maranhense Sousândrade (1833-1902), ele era um intelectual mais do que generoso, que não se animava a publicar um livro seu, mas financiava com gosto os dos outros.

Campos foi leitor privilegiado dos poemas que integram a mostra, parte enviado a ele por carta, e que ficaram "à margem da margem do estudos literários" que abrangem os anos 70, 80 e 90.

O primeiro poema foi publicado em 68. Seu nome passaria a circular mais nos anos 70, por conta da revista Código, que criou com Antonio Risério. Albino, que brincava inclusive com sua denominação de origem (autoproclamava-se "ubaiano", por ter nascido na cidade mineira de Ubá e se fixado na Bahia), se dedicava a destrinchar palavras, aventurava-se a descobrir palíndromos, brincava de conceber logotipos em homenagem a amigos. Além de criador, era um pesquisador, reconhecido por ter trazido à luz textos de Sousândrade e de Patrícia Galvão, a Pagu.

ERTHOS ALBINO. POESIA: DO DÁCTILO AO DÍGITO

De terça a sexta, das 13h às 20h. Sáb., dom. e feriados, das 11h às 20h. Grátis. Instituto Moreira Salles - Rio de Janeiro. Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea. Tel.: (21) 3284-7400. Até 24/10.

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