Erótico, político, praiano

Alan Pauls revisita infância em lembranças do balneário argentino de Villa Gesell

Wilson Alves-Bezerra, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2013 | 02h07

Em A Vida Descalço, o argentino Alan Pauls (1959), como em outras ocasiões, fala da infância: do pai alemão que chegou criança à Argentina, do irmão e, neste caso, sobretudo, fala da praia. Como em outros trabalhos, a escrita se constrói em um gênero híbrido - com elementos de memória pessoal, ficção e ensaio. São pouco menos de cem páginas em que o autor descreve o que chama de sua condição de "amante da praia", constituída na infância, na companhia do pai e do irmão, no balneário argentino de Villa Gesell, na província de Buenos Aires. A bela edição brasileira está acompanhada de uma dezena de fotos do arquivo do autor em que ele e o irmão aparecem retratados nas ermas areias argentinas, sob ângulos oblíquos, sem nunca olhar as lentes. Tais fotos colocam o pai - personagem lateral - na condição de conarrador das histórias.

Trata-se pois de um ensaio no qual a reflexão é indissociável do caráter pessoal e até memorialístico. Entretanto, este quinhão de experiência pessoal não transforma o livro em relato patético da infância no litoral. Há um peso incomum, inesperado até, na pesquisa incessante pelo significado da praia na cultura ocidental - do hedonismo greco-romano à repressão cristã - e na sociedade da cultura de massa. A densidade e os longos períodos de cada parágrafo distam muito do que se pode postular como uma leitura sob o guarda-sol.

Alan Pauls suscita o estranhamento, desnaturaliza o ócio e o erotismo praianos; faz o leitor olhar em torno e se perguntar o que está fazendo na areia, em meio à turba indistinta de corpos seminus: "Como era possível que essa massa de corpos mal cobertos, lustrosos de cremes, suor ou água, desmesuradamente escaldados pelo sol (...) e uma proximidade quase promíscua, intolerável em qualquer outro contexto, não desandasse fatalmente num estouro sexual multitudinário, numa orgia massiva e selvagem, numa explosão de violência letal?".

Tal questionamento é o mote para pensar no modo como se regulam as relações à beira-mar, este território para o qual, segundo ele, "vamos sempre mais ou menos atrás da mesma coisa: das marcas do que o mundo era antes que a mão do homem decidisse reescrevê-lo". Sua leitura entende o litoral como "experimento erótico-político", baseado em organizações grupais, "maquete provisória de sociedade sem estado e sem mercado". Para tanto, se vale de uma rápida análise do filme 007 Contra o Satânico Dr. No, estrelado por Sean Connery e Ursula Andress. Aliás, uma foto da Honey Rider e de outros ícones de verão da cultura de massa ilustram as guardas do volume, produzindo um diálogo paradoxal com as imagens internas: o imaginário sexual dos anos 60 em oposição à praia erma da infância.

O próprio erotismo praiano, para Alan Pauls, é inverossímil; ficaria muito mais no plano da sugestão do que da realização. Para ele, a praia - areia, sal e água - concentra em si "desconforto, aspereza, hostilidade, interferência", tudo o que impediria a interação dos corpos. Erógenos sim seriam os ambientes contíguos ao mar, nos quais perdurassem apenas seus efeitos, fora da "homogeneidade um pouco despótica da natureza". Para ele, em definitiva, "o desejo sexual não tem nada a ver com a natureza", e sim com "lençóis de algodão brancos".

Sabe-se que o deslocamento é a condição do intelectual. Mas a proposta de Alan Pauls de articular ensaio e memória causa, em certo momento, dúvida quanto à sua autopropalada condição de "amante da praia". Nas páginas finais, narra sua primeira vinda a Copacabana, em 1970, e sua condição de peixe fora d'água se exacerba. O que parecia apenas sugerido, explicita-se; o mal-estar do intelectual caucasiano, que faz suas as palavras da poeta Alejandra Pizarnik, aparece com todas as letras: "Para mim, voltar de um lugar sem tê-lo visto é motivo de orgulho. Dizer 'não' em vez de 'sim' me emociona".

* É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR,  TRADUTOR, AUTOR DE DA CLÍNICA DO DESEJO A SUA ESCRITA (MERCADO DE LETRAS/FAPESP)

A VIDA DESCALÇO

Autor: Alan Pauls

Tradução: Josely

Vianna Baptista

Editora: Cosac Naify

(96 págs., R$ 45)

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Sabático

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