Ernesto Superstar

Bem antes de Ai Se Eu Te Pego, o maxixe Dengoso fazia o mundo cair na dança. Seu provável autor? Ernesto Nazareth

Bolívar Torres, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h07

Ela surgiu como um maxixe qualquer. Publicada em 1907, no Rio de Janeiro, sob o nome de Dengoso e autoria do desconhecido Renaud, passou de um modesto sucesso no Brasil a um hit internacional sem precedentes na Europa e Estados Unidos. Muito antes de Aquarela do Brasil ou Garota de Ipanema, ganhou mais de 100 gravações e até mesmo uma aparição em um musical hollywoodiano. Mas, o primeiro e improvável reconhecimento brasileiro no exterior é, também, um dos maiores enigmas da nossa música. Afinal, quem era este misterioso Renaud? Como sua música chegou aos salões burgueses de Paris e pistas de dança americanas? Um século mais tarde, uma pesquisa em andamento há oito anos confirma uma suspeita antiga: o verdadeiro autor de Dengoso seria nada menos do que o compositor e pianista carioca Ernesto Nazareth (1863-1934).

"É curioso, mas as edições estrangeiras passaram a creditar a autoria a Nazareth, ao passo que no Brasil continuou conhecida pelo pseudônimo, chegando inclusive a ser gravada anos mais tarde apenas com o crédito a Renaud", conta o pesquisador e pianista Alexandre Dias, autor da pesquisa, que está detalhada no site do Instituto Moreira Salles dedicado ao compositor (www.ernestonazareth150anos.com.br ). "O fato é que, até agora, se sabia muito pouco sobre a composição. Tínhamos as evidências sobre a autoria, graças à excelente pesquisa ainda não publicada do biógrafo Luiz Antonio de Almeida, e uma ou outra capa das edições americanas que circulavam pela internet. Mas creio que não tínhamos ideia da verdadeira magnitude do fenômeno que foi, até vermos a quantidade de edições e a quantidade de gravações que consegui compilar".

Na época em que Dengoso foi composta, o maxixe era um gênero excomungado, conhecido no Brasil como "a mais baixa das danças". Evitando associações com uma música tida como vulgar, Nazareth, um dos grandes nomes do tango brasileiro, teria se escondido por trás do pseudônimo. Ele certamente não esperava que, poucos anos depois, o maxixe virasse uma febre no exterior - e, sua composição, uma das principais expoentes do gênero.

Segundo Dias, Dengoso chegou primeiro a Paris, onde a procura por maxixes era crescente, e só depois se espalhou pelo resto do mundo, recebendo mais gravações e edições do que qualquer música brasileira na primeira metade do século 20. Em 1914, durante o ápice da dança no exterior, a melodia que primeiro vinha à mente quando se falava em maxixe era Dengoso, fosse nos Estados Unidos ou Paris. Depois de um período sem gravações, foi dançada por Fred Astaire e Ginger Rogers no musical A História de Vernon e Irene Castle, de 1939. Tocada por big bands nos anos 40, produziu um hibridismo inédito, o 'boogie woogie maxixe'. Dentro do novo ritmo e arranjo, e com letras em inglês, chegou outra vez às paradas dos Estados Unidos. Recentemente, Woody Allen usou-a na trilha de seu filme Scoop - O Grande Furo, de 2006.

Resta saber por que no exterior se conhecia o nome do verdadeiro compositor e no Brasil não. A melhor hipótese é que a informação tenha sido passada por Mário de Andrade. Em seu livro Música, Doce Música, o autor afirma que mandou diversas partituras de Nazareth e Marcello Tupynambá para amigos nos Estados Unidos e Europa.

Apesar do nome de Nazareth aparecer nas partituras de Dengoso lá fora, ainda não se pode afirmar com certeza que a música tenha sido composta por ele, já que não existe manuscrito que prove a autoria. Há, porém, diversas evidências que levaram Dias a esta conclusão.

"Uma delas é o catálogo de 1912 da gravadora Columbia, que lista Dengoso como "tango E. Nazareth". Já no catálogo de 1938 do editor Ernesto Augusto de Mattos, a autoria vem de modo híbrido: "Renaud Nazareth". O pseudônimo possivelmente foi inspirado, conscientemente ou não, em uma edição dos Exercícios Diários de Charles Tausig, traduzida para o francês por Albert Renaud, que está presente no espólio de Nazareth. "Dengoso é o único maxixe na obra de Nazareth e, não por acaso, a única peça em que escondeu seu nome, embora no final da década de 1920 tenha ensaiado outro pseudônimo: Toneser, que não chegou a sair dos manuscritos", diz o pesquisador.

Outro aspecto a ser analisado é a estrutura musical de Dengoso, que conta com um acompanhamento típico de Nazareth. "O acompanhamento é o que ele costumava usar, cujo padrão é o do tango brasileiro, isto é: semicolcheia, colcheia, semicolcheia, duas colcheias", explica Dias. "São três partes, assim como a maioria das músicas de Nazareth. É verdade que ela possui uma linguagem harmônica mais simples, mas Nazareth tem várias obras com a mesma simplicidade. Há de se considerar também que, sendo um maxixe explicitado, o autor teria tentado imprimir uma linguagem levemente diferente dos tangos brasileiros".

Se imaginasse o sucesso que Dengoso alcançaria, Nazareth não teria se escondido por trás do afrancesado Renaud. Em tempos sem internet, TV e rádio, no entanto, é possível que o próprio compositor nunca tenha descoberto a repercussão mundial de Dengoso.

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